Cinemas abandonados viram memória visual em livro de fotos de Sergio Poroger
Uma sala abandonada no 13º andar de um prédio sem elevador e sem eletricidade, com fileiras de poltronas ainda de pé e o mar aparecendo onde antes havia uma tela, acabou se tornando uma das imagens centrais de "Entresalas", novo livro do fotógrafo Sergio Poroger.
Ele chegou aos destroços do Cine AIP, no Recife, em abril deste ano. O cinema da Associação da Imprensa de Pernambuco funcionou por 42 anos e estava fechado desde 2000. Para entrar, Poroger contou com uma produtora local, que o avisou de que seria preciso subir os 13 andares pelas escadas. O edifício estava praticamente desocupado —segundo ele, restava apenas uma moradora no segundo andar.
"Eu senti que essa dura missão poderia render uma foto especial, algo diferente." A temperatura marcava acima dos 33 graus e, quando Poroger alcançou a antiga sala, encontrou as poltronas e uma grande abertura na parede. "O mar azul, um céu lindo. Confesso que fiquei em dúvida se era um quadro ou natureza real. Enfiei a mão na abertura e vi que era, de fato, um vão e não uma tela."
A fotografia foi escolhida para a sobrecapa de "Entresalas", que Poroger lança nesta terça-feira (18), na Livraria da Travessa do Shopping Iguatemi, em São Paulo. O livro reúne imagens feitas ao longo de dez anos em cinemas do Brasil, Estados Unidos, Holanda, Polônia e Argentina.
Há salas abandonadas, como o Cine AIP, mas também fachadas iluminadas, bilheterias, corredores, cabines de projeção e, principalmente, as pessoas que trabalham nesses lugares: bilheteiros, projecionistas, vendedores de pipoca e funcionários encarregados de trocar os letreiros.
A escolha desses personagens vem da infância do fotógrafo, que completou 70 anos na última sexta. Aos domingos, seus pais o levavam às matinês do Cine Metro, na avenida São João, no centro de São Paulo. Poroger se lembra dos desenhos de Tom e Jerry, mas principalmente dos funcionários.
"Uniformes impecáveis, postura, gestos, atendimento e aparência sofisticada ajudavam a criar uma espécie de ritual cinematográfico e da própria experiência de ir ao cinema. O funcionário também fazia parte da cena." Depois da sessão, os pais o levavam ao balcão de um restaurante numa travessa da avenida São João, onde ele também se recorda dos garçons elegantes e educados.
O cinema continuou presente na família. A mãe, diz ele, chegava a frequentar salas quase diariamente e tinha predileção por filmes de tribunal. Mais tarde, seu filho Felipe Poroger se tornou cineasta e escritor.
O projeto de "Entresalas" começou formalmente em 2017, nos Estados Unidos. Mas, ao voltar aos próprios arquivos, Poroger descobriu que já vinha fotografando cinemas antes de decidir transformá-los em assunto.
Encontrou imagens feitas em 2014 na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e no Rio de Janeiro; outras do Tower Theater, em Miami, em 2015, e de um drive-in paulistano, de 2016. "Acho que sempre o cinema esteve dentro de mim."
Poroger é jornalista de formação e trabalha há mais de 40 anos com assessoria de imprensa. Foi repórter de cidades do Jornal da Tarde e, em 1986, deixou a Redação para abrir sua própria agência de comunicação.
Nunca parou, porém, de fotografar e fazer cursos. As viagens rendiam livros domésticos até que, perto dos 60 anos, concluiu que podia publicar um trabalho autoral. "Foi no momento em que constatei que sabia fotografar, que tinha um ótimo olhar, mais do que técnica."
Seu primeiro livro, "Cold Hot", saiu em 2016 e registrava uma viagem pelo sul dos Estados Unidos em busca de personagens e paisagens ligados à música. Dez anos depois, Poroger ainda evita se apresentar simplesmente como fotógrafo. "Vamos considerar que sou um profissional de comunicação que fotografa bem."
Para "Entresalas", ele pesquisou previamente os cinemas que pretendia visitar e, quando necessário, pediu autorização para entrar e fotografar. Algumas imagens de trabalhadores são posadas. Outras, não.
É o caso da jovem diante de uma máquina de pipoca em Jacksonville, na Flórida. Poroger fez a fotografia sem que ela percebesse.
Anos mais tarde, quando o Metrô de São Paulo quis usar a imagem numa exposição e exigiu autorização, Poroger precisou descobrir quem era a mulher. Ligou para o cinema e o gerente o ajudou a localizá-la.
Só então ele soube que ela havia trabalhado ali apenas como freelancer e que era surfista. Poroger enviou a fotografia a ela. "Ficou surpresa e feliz. Amou a imagem."
Além das fotografias, "Entresalas" reúne quatro minidocumentários acessíveis por um QR Code na última página do livro. Com duração de aproximadamente cinco a sete minutos, os vídeos retomam personagens encontrados por Sergio Poroger durante o projeto.
Um deles acompanha Miguel, projecionista e trocador de letreiros do Cine São Luiz, no Recife; outro é dedicado a seu Vavá, ligado a um cinema de periferia de Fortaleza que já não existe; um terceiro mostra Omar, que construiu o Cine Paradiso dentro da própria casa, em Villa Elisa, na Argentina, depois que a cidade perdeu sua sala de exibição.
O quarto reúne Zé Henrique, do Cine São José, em São Roque, hoje com cerca de 90 anos, e seu Clóvis, ex-funcionário de cinema que atualmente distribui bilhetes na porta de uma sala em Santos. Poroger diz que passou a incorporar esses pequenos filmes ao trabalho fotográfico nos últimos anos e pretende inscrever o documentário sobre Miguel em festivais.
Mesmo quando não havia mais filme, projetor, público ou funcionários, Poroger continuou fotografando. Para ele, registrar cinemas deteriorados faz parte da tentativa de preservar ao menos a memória de uma experiência urbana que considera ameaçada no Brasil.
No Cine AIP, a tela já não existia. Restavam as cadeiras, a estrutura destruída do prédio e, enquadrado pela parede aberta, o mar.
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