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Tuesday, September 22, 2026

Tatiana Tiburcio fala da mulher negra retratada como 'guerreira': 'Pressupõe capacidade inesgotável de suportar'

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A atriz Tatiana Tiburcio, de 49 anos de idade, em destaque como Rosa na novela das 9, Quem Ama Cuida, e atriz premiada pelo Troféu APCA, revisita uma obra autoral que nasceu de uma ferida e se transformou em processo de reconstrução pessoal e artística para ela. Trata-se do filme A Face Negra do Amor, de 2018.

O filme, dirigido por Tatiana e protagonizado por ela ao lado de Cyda Moreno, Erika Januza e Flavia Souza, será exibido nesta terça-feira (22), no Cine Odeon, na Cinelândia, dentro da programação do 19º Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, na sessão Baluartes do Cinema Negro.

Tatiana, que também acumula trabalhos em produções como Garota do Momento, Terra e Paixão e Sol Nascente, além de trabalhos no teatro, cinema e streaming. Em 2020, recebeu o Troféu APCA de Melhor Atriz por sua atuação em Falas Negras.

Agora, ela retorna a uma obra que considera um marco de sua trajetória pessoal e artística. “Ver A Face Negra do Amor sendo reapresentado no aniversário de vinte anos do Festival Internacional de Cinema Negro e dentro de um espaço como esse, dos Baluartes do Cinema, é algo que eu não consigo nem traduzir em palavras o quão importante e significativo é. Eu ainda me sinto uma criança em muitas questões relacionadas ao audiovisual negro brasileiro. Então, ser colocada ao lado de pessoas que há tanto tempo fazem a diferença dentro de um festival tão representativo para a nossa cultura e para a nossa identidade, através dessa ferramenta que é o audiovisual, é algo que eu jamais imaginaria que poderia estar vivendo e recebendo”, conta.

Para Tatiana, o filme tem um significado que vai além do trabalho artístico. A Face Negra do Amor nasceu de experiências pessoais e acabou se tornando parte de um processo de reconstrução.

“Principalmente pelo que A Face Negra do Amor representa para mim. O filme surge como uma forma de renascimento, de expurgar e materializar, através da arte, uma ferida e, ao mesmo tempo, uma cura. Então, é algo muito amplo, muito profundo. Eu realmente não tenho palavras para descrever”, afirma.

Tatiana Tibúrcio — Foto: Divulgação
Tatiana Tibúrcio — Foto: Divulgação

Amor também atravessado pela questão racial

A produção parte de uma pergunta central: como o racismo, presente em diferentes instâncias sociais e culturais, influencia e, por vezes, determina a forma como mulheres negras amam? Para Tatiana, falar sobre amor pela perspectiva de mulheres negras significa reconhecer que a experiência afetiva também é atravessada pela questão racial.

“Falar do amor pela ótica da mulher negra é entender que as relações amorosas, o sentimento e a própria ideia de amor, no caso de uma mulher negra, são permeados pela questão racial. Em algum nível, de alguma forma, essa referência ultrapassa, perpassa e atravessa essa relação, esse sentimento.”

A atriz conta que essa percepção ficou ainda mais clara durante a construção do próprio filme. Segundo ela, a obra nasceu também de uma experiência dolorosa que mudou sua maneira de enxergar as relações.

“Eu pude ter uma dimensão e uma compreensão mais profunda disso quando construí A Face Negra do Amor, porque ela é fruto de uma necessidade de cura, de uma ferida causada pela quebra de uma ilusão. Isso me fez enxergar que, mesmo dentro de uma relação em que havia uma discussão sobre letramento racial, uma consciência sobre essas questões e uma ideia de parceria em relação a isso, ainda assim, o racismo se fez presente de uma forma muito cruel e muito dolorosa para mim.”

Tatiana Tibúrcio — Foto: Divulgação
Tatiana Tibúrcio — Foto: Divulgação

Segundo a atriz, o processo também trouxe novas compreensões. “Isso derrubou muitas ilusões, mas também construiu verdades e me deu a possibilidade de construir novas verdades que me fortaleceram e me fizeram melhor e mais feliz. Por mais que tenha doído muito, a beleza do que veio depois, da compreensão que veio depois, fez a dor valer a pena. A Face Negra do Amor é o início dessa reconstrução. É como se eu tivesse saído de cima dos escombros e estivesse pronta para reconstruir.”

Outras formas de imaginar o amor

Ao falar sobre a representação de mulheres negras nas histórias de amor, Tatiana questiona padrões que, segundo ela, ajudaram a formar o imaginário romântico ocidental.

“No Ocidente, as noções de amor, afeto e relacionamento são construídas sobre pilares que privilegiam padrões eurocêntricos, frequentemente pautados por relações heteronormativas. E, mesmo quando esses padrões não se aplicam, o referencial da branquitude permanece central. Nesse contexto, a mulher negra é sistematicamente excluída da idealização romântica.”

A atriz cita as comédias românticas das décadas de 1990 e 2000 como exemplo dessa construção e fala sobre a diferença entre a representação da mulher branca e a imagem historicamente atribuída à mulher negra.

“Enquanto a mulher branca é colocada no lugar de ideal romântico, a mulher negra permanece à margem dessa representação. A mulher negra é frequentemente colocada no lugar da ‘guerreira’, da mulher forte, uma percepção que muitas vezes beira a desumanização, porque pressupõe que ela possui uma capacidade inesgotável de suportar adversidades.”

Para Tatiana, mudar esse imaginário também passa pela busca por outras referências. “Não se trata de desejar simplesmente a assimilação desse modelo ocidental, mas de reconhecer a força com que ele foi consolidado. É fundamental buscar novas construções, como as presentes nas mitologias iorubás, nas quais as princesas podem transitar entre a potência do búfalo e a suavidade da borboleta, unindo força e delicadeza de forma indissociável. Ao resgatar essas referências, podemos redescobrir uma subjetividade negra que abriga, simultaneamente, vulnerabilidade e autoridade, sem estar presa às amarras do patriarcado.”

Tatiana Tibúrcio — Foto: Divulgação
Tatiana Tibúrcio — Foto: Divulgação

Quatro mulheres, muitas faces do amor

Ao lado de Cyda Moreno, Erika Januza e Flavia Souza, Tatiana apresenta diferentes perspectivas sobre o mesmo sentimento. Para ela, o filme não busca apresentar uma única maneira de amar.

“É muito fácil construir essa narrativa sobre o amor colocando diferentes faces dele, considerando seus estilos, suas idades e suas origens, porque o personagem principal dessa história é o amor. O protagonista é o amor olhado por essa lente, a partir dessa perspectiva que estamos trazendo", completa.

“A verdade é que essa lente não tem uma face só. Ela tem muitas outras faces além dessas que estamos apresentando. Nós estamos mostrando quatro formas de olhar para essa questão, a partir de quatro perspectivas, mas ainda existem várias outras nuances. Dividir esse protagonismo é mais do que fundamental porque, na verdade, ele não está sendo dividido. O protagonista em questão é o amor, visto a partir dessa lente.”

Um novo olhar para a própria carreira

Voltar ao filme também faz Tatiana olhar para as mudanças que viveu desde a realização da obra. Quando questionada sobre o que estaria “renascendo” na atriz, ela faz uma distinção: a transformação aconteceu primeiro na mulher e na pessoa.

“É difícil falar sobre o que está renascendo na Tatiana atriz depois de viver esse processo, porque, na verdade, não foi apenas a Tatiana atriz que se transformou. Foi a Tatiana mulher, a Tatiana pessoa. E essa mudança, inevitavelmente, vai se refletir na profissional, no olhar dessa profissional, nas escolhas e na maneira como ela se posiciona diante do próprio trabalho.”

'A Face Negra do Amor' (2018) — Foto: Divulgação
'A Face Negra do Amor' (2018) — Foto: Divulgação

Hoje, ela diz se sentir mais consciente, segura e leve diante dos caminhos que deseja seguir. “Acho que tudo isso acontece de uma maneira, ao mesmo tempo, mais forte, mais consciente, mais segura, mais direcionada e focada. E, principalmente, mais leve e possivelmente mais feliz.”

A volta à A Face Negra do Amor acontece, portanto, sob uma nova perspectiva. Tatiana ainda não sabe como será rever a obra ou como o público irá recebê-la diante das mudanças pelas quais a sociedade passou desde sua realização.

“Eu estou muito ansiosa para reencontrar essa história. Não sei como vou me sentir ao vê-la novamente. Muita coisa mudou desde então. A nossa sociedade mudou bastante, outras questões passaram a ser até mais importantes dentro dessa discussão do que aquelas apresentadas no filme. Outras continuam as mesmas e ainda precisam de debate e reflexão.”

A expectativa, no entanto, é de entusiasmo! “Eu estou como uma criança no dia do aniversário, esperando a hora da festa começar e mandando todas as boas energias que eu puder", diz, empolgadíssima.

Tatiana também revela que gostaria de levar A Face Negra do Amor para a televisão em formato de série, ampliando as discussões sobre amor, raça e afetividade.

“É um tema muito vasto, que oferece um potencial inesgotável para discussões profundas, que considero essenciais e urgentes. Tenho algumas ressalvas em relação à direção que esse projeto poderia tomar, mas é algo que eu gostaria muito de dirigir. Quero explorar as complexidades, as nuances e os questionamentos que surgem a partir dessa reflexão sobre o amor, a mulher negra e as relações afetivas”, finalizou.

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