Mostramos prévias de MRV, Cury, Tenda e Moura Dubeux à IA: veja qual ela achou melhor
- Cury teve o trimestre mais consistente, com vendas em alta de 11,4%, velocidade de vendas de 39,7% e geração de caixa de R$ 253,6 milhões
- MRV registrou o maior crescimento de vendas, de 29,6%, mas o caixa de R$ 456 milhões veio sobretudo da venda de ativos
- Tenda viu os distratos mais que dobrarem em um ano, com impacto da greve da Caixa
- Moura Dubeux lançou mais, vendeu 21,5% menos e consumiu R$ 170 milhões em caixa
- BTG e Safra também preferem a Cury, mas são mais brandos com a Moura Dubeux e divergem entre si sobre a MRV
MRV (MRVE3), Cury (CURY3), Tenda (TEND3) e Moura Dubeux (MDNE3) divulgaram na quinta-feira, 8, as prévias operacionais do terceiro trimestre de 2026. As quatro atuam em faixas diferentes do mercado imobiliário, do Minha Casa, Minha Vida ao alto padrão no Nordeste, e passaram pelo mesmo obstáculo em setembro, a greve de 19 dias dos funcionários da Caixa Econômica Federal, que travou parte dos financiamentos imobiliários.
Para saber qual delas atravessou melhor o período, somente com base nos números, a EXAME submeteu documentos das quatro companhias ao Claude, modelo de inteligência artificial da Anthropic, generalista, com o pedido de analisar os principais indicadores operacionais, apontar pontos fortes e fracos de cada empresa e indicar qual teve o desempenho mais consistente.
Antes de comparar, a IA fez uma ressalva. Cada construtora reporta seus números em uma base própria. A MRV usa a participação da companhia nos empreendimentos (%MRV), assim como a Moura Dubeux (%MD), a Cury apresenta os dados a 100% e a Tenda separa a marca principal da Alea, sua operação de casas. Por isso, a análise privilegiou variações percentuais e indicadores de velocidade, mais comparáveis entre si do que os valores absolutos.
MRV cresce mais, Cury vende mais rápido
Nas vendas líquidas, a MRV teve o maior salto. A MRV Incorporação vendeu R$ 3,04 bilhões no trimestre, recorde histórico, com alta de 29,6% sobre o 3T25 e de 10,5% sobre o 2T26. Foram mais de 11 mil unidades vendidas, e a velocidade de vendas sobre a oferta (VSO) subiu de 21,6% para 25,1% em um ano.
A Cury vendeu R$ 2,04 bilhões, alta de 11,4% na comparação anual. O número que mais chamou a atenção da IA, porém, foi a VSO líquida de 39,7%, patamar que nenhuma das outras três chegou perto de alcançar. Na prática, a Cury vendeu quase 40% do valor dos imóveis que tinha em oferta no trimestre, somando o estoque do início do período e os lançamentos.
A Tenda vendeu R$ 1,21 bilhão na marca principal, alta de 10,5% sobre o 3T25, mas queda de 7,9% frente ao 2T26. A VSO ficou em 22,8%, abaixo da faixa de 25% a 30% que a própria companhia considera ideal. A empresa atribui parte do resultado a seis empreendimentos lançados no fim de setembro que ainda não tiveram vendas.
A Moura Dubeux foi a única das quatro com queda nas vendas. As vendas e adesões líquidas somaram R$ 841 milhões, recuo de 21,5% em um ano e de 17,3% em um trimestre. A VSO do período caiu para 15,3%, ante 25,7% no 3T25. Na abertura dos números, as adesões brutas a condomínios, modelo em que os clientes se associam para construir o empreendimento, recuaram 43,5%, de R$ 859 milhões para R$ 485 milhões. Já as vendas brutas de incorporação tradicional cresceram 56,8%, para R$ 355 milhões.
Distratos sobem em três das quatro
A diferença entre vendas brutas e líquidas foi o ponto que mais separou Tenda das concorrentes na leitura da IA. As vendas brutas da marca Tenda cresceram 22,1% em um ano, para R$ 1,51 bilhão. Os distratos, porém, passaram de R$ 136,2 milhões no 3T25 para R$ 292,8 milhões, mais que o dobro, e alta de 55% sobre o 2T26. Os cancelamentos passaram a representar 19,4% das vendas brutas, ante 11% um ano antes.
A Tenda aponta três fatores ligados à Caixa. A greve de quase 20 dias em setembro, a redução temporária, por dez dias em julho, do comprometimento de renda permitido aos clientes de 30% para 27%, e um rigor maior nas entrevistas para concessão de crédito. A companhia diz que parte desses efeitos foi pontual e que espera a volta dos distratos a patamares normais nos próximos trimestres. O tema já havia pesado sobre as ações no fim de setembro, quando a Tenda alertou investidores sobre os efeitos da greve.
A Cury também sentiu o aperto. Os distratos somaram R$ 358,2 milhões, alta de 59,3% em um ano e mais que o dobro do 2T26. Os cancelamentos chegaram a 15% das vendas brutas, ante 11% no 3T25 e 7,7% no trimestre anterior. A diferença em relação à Tenda é que as vendas brutas da Cury cresceram 16,7%, para R$ 2,39 bilhões, o suficiente para manter as vendas líquidas em alta.
Na Moura Dubeux, o nível é mais baixo, mas a tendência também é de alta. Os distratos chegaram a 8,3% das vendas brutas, ante 5,2% no 3T25 e 6,7% no 2T26. A prévia da MRV não detalha os distratos do trimestre.
Greve da Caixa trava repasses
O efeito da greve aparece com mais clareza nos repasses, etapa em que o financiamento do cliente é assinado com o banco e o dinheiro chega à construtora. A MRV repassou 7.428 unidades, queda de 16,4% em um ano e de 24,2% em um trimestre. A companhia estima impacto de cerca de R$ 80 milhões na geração de caixa da incorporação por causa da paralisação.
Na Tenda, o valor repassado caiu 25,1% em um ano e 29,5% em um trimestre, para R$ 728,9 milhões. Na Cury, os repasses somaram R$ 1,29 bilhão, ante R$ 1,49 bilhão no 3T25, recuo de 13%. Na comparação com o 2T26, a queda foi de 35,8%. Em unidades, o recuo trimestral foi de 34,3%, o maior entre as três companhias que divulgam o dado.
Ao mesmo tempo, as vendas da Cury pela tabela direta, em que a própria construtora financia parte do pagamento, subiram de R$ 380 milhões para R$ 664 milhões. Essa modalidade respondeu por 27,8% das vendas brutas do trimestre, ante 20,2% na média de 12 meses.
Lançamentos sobem de preço na baixa renda
Do lado dos lançamentos, a Moura Dubeux foi a que mais acelerou. A companhia lançou oito projetos, com VGV líquido de R$ 1,55 bilhão, alta de 15,5% em um ano e de 52,8% em um trimestre. Segundo a empresa, 40% desse volume foi lançado nas duas últimas semanas de setembro, o que, na avaliação da IA, ajuda a explicar a baixa velocidade de vendas do período.
A MRV lançou R$ 2,65 bilhões, 12,4% acima do 3T25, e a Cury, R$ 2,12 bilhões, alta de 6,9%. Na Cury, o preço médio por unidade lançada ficou em torno de R$ 326 mil, cerca de 12% acima de um ano antes.
A Tenda lançou R$ 1,52 bilhão, alta de 2,3%, com preço médio recorde de R$ 271,2 mil por unidade, 15,7% acima do 3T25. Dos 11 empreendimentos lançados pela empresa, 54,5% foram voltados às faixas 3 e 4 do Minha Casa, Minha Vida, incluindo o primeiro projeto da companhia para a faixa 4, na Bahia. O banco de terrenos da companhia chegou ao recorde de R$ 29,3 bilhões, alta de 41,2% em um ano.
Geração de caixa separa as quatro
A Cury gerou R$ 253,6 milhões em caixa operacional no trimestre, alta de 8,8% sobre os R$ 233,1 milhões do 3T25. Foi o 30º trimestre seguido de geração positiva.
A MRV&CO, holding que reúne a MRV e suas subsidiárias, gerou R$ 456 milhões, o maior número entre as quatro. A Resia, operação nos Estados Unidos, contribuiu com R$ 313,7 milhões após a venda de empreendimentos, e a Luggo, braço de imóveis para aluguel, com R$ 145,8 milhões, também com venda de ativos.
A MRV Incorporação, negócio principal da companhia, gerou R$ 18,9 milhões, ante R$ 148,7 milhões no 2T26. Excluindo a cessão de recebíveis, o resultado da incorporação ficou negativo em R$ 2,3 milhões.
A Moura Dubeux consumiu R$ 170 milhões no trimestre, excluindo dividendos e recompra de ações. Desse total, R$ 97 milhões foram para a compra de um terreno em Salvador. Sem esse desembolso, o consumo teria sido de R$ 73 milhões.
A Tenda não informa geração de caixa na prévia.
O veredito da IA
Questionada sobre qual construtora teve o trimestre mais consistente, a IA escolheu a Cury.
A justificativa reúne três pontos. Vendas em alta mesmo com mais distratos, a velocidade de vendas mais alta do grupo com folga e geração de caixa positiva vinda da operação, sem depender de venda de ativos.
Como pontos de atenção, a IA listou a alta de 59,3% nos distratos, a queda de 35,8% nos repasses frente ao 2T26, o avanço da tabela direta e o aumento do estoque, que chegou a 7.956 unidades, ou R$ 3,1 bilhões, ante 6.425 unidades no fim de 2025.
A MRV ficou em segundo lugar. A companhia teve o maior crescimento de vendas e recorde de produção, sinais de que a operação de incorporação segue em recuperação. O caixa consolidado robusto, porém, depende da venda de ativos nos Estados Unidos e da Luggo, enquanto a geração da incorporação perdeu força com a greve.
A Tenda aparece em terceiro. As vendas brutas fortes, o preço recorde nos lançamentos e o banco de terrenos em expansão contam a favor, mas os distratos em dobro e a VSO abaixo da meta pesaram. A IA ponderou que boa parte do problema está ligada à Caixa e que a própria companhia trata o efeito como temporário.
A Moura Dubeux ficou em último. A construtora aumentou os lançamentos, mas teve queda nas vendas, a menor velocidade de vendas entre as quatro e consumo de caixa no trimestre.
E a análise “humana”, o que diz?
Os relatórios do BTG Pactual e do Safra sobre as prévias, publicados entre a noite de quinta-feira, 8, e a manhã desta sexta-feira, 9, coincidem com a IA no topo do ranking e em boa parte dos diagnósticos, mas divergem dela em pontos relevantes.
A Cury também foi a preferida dos analistas. O BTG classificou o trimestre como “sólido”, com velocidade de vendas de 40% e geração de caixa “massiva”, acima dos R$ 200 milhões que o banco projetava. O Safra viu números “decentes”, um pouco acima das suas estimativas, e calcula que o caixa teria chegado a cerca de R$ 280 milhões sem a greve da Caixa. Os dois bancos destacam que a geração de caixa do trimestre, anualizada, equivale a 10% do valor de mercado da companhia.
Os bancos também registram a alta dos distratos da Cury e a atribuem ao crédito mais restrito na Caixa, mas, assim como a IA, avaliam que a velocidade de vendas elevada compensou o efeito. Já o avanço da tabela direta, ponto de atenção levantado pela IA, não aparece nos relatórios.
Nas demais, a leitura também se aproxima. Os dois bancos apontam a alta dos distratos, ligada ao aperto no crédito da Caixa, como o ponto fraco da Tenda. Na Moura Dubeux, BTG e Safra atribuem a velocidade de vendas mais baixa à concentração de lançamentos no fim de setembro, a mesma explicação usada pela IA.
A maior divergência aparece na MRV, em que os próprios bancos discordam entre si. O BTG chamou o trimestre de “misto”, com vendas fortes e geração de caixa fraca na baixa renda, que, na visão do banco, ficaria abaixo do esperado mesmo descontando o efeito da greve. O Safra viu uma surpresa positiva e calcula que a geração recorrente da incorporação voltou a melhorar, para cerca de R$ 78 milhões, considerando os repasses adiados para o quarto trimestre. O Safra fez ainda uma ressalva que a IA não captou. As vendas da MRV foram beneficiadas por uma mudança no critério de contabilização durante a greve, quando a companhia passou a considerar as vendas contratadas no lugar das unidades repassadas nos últimos 20 dias do trimestre.
A IA também foi mais dura com a Moura Dubeux do que os analistas. O BTG classificou os números como “decentes”, embora abaixo das suas projeções, e disse que o consumo de caixa já era esperado, com estimativa de R$ 150 milhões. Para o banco, a companhia segue com um balanço muito sólido. O Safra lembra que a Moura Dubeux tem o menor nível de estoque entre as incorporadoras de média e alta renda listadas na bolsa.
Parte das divergências vem do método. A IA comparou os números com os trimestres anteriores, enquanto os analistas comparam também com as próprias projeções e com o preço das ações. Por isso, o BTG classificou o resultado da Tenda como “fraco, como esperado” e avaliou que a ação já foi penalizada. O Safra segue na mesma linha, mas alerta para um risco que não aparece na prévia. A Tenda tem cerca de R$ 2,2 bilhões em financiamentos concedidos aos clientes após a entrega das chaves, o equivalente a 36% dos seus recebíveis brutos, carteira que pode exigir mais provisões com o aumento do endividamento das famílias.
Nas recomendações, o BTG mantém compra para as quatro ações. O Safra recomenda Cury, Tenda e Moura Dubeux com classificação equivalente a compra e mantém a MRV em neutro, à espera de avanços mais concretos na redução da dívida.
O próximo teste vem com os balanços completos do terceiro trimestre, quando as quatro mostrarão receita, margens e lucro do período.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.