Mensagens mostram como era a 'sacanagem' nos fundos da Reag

A PF indiciou outras 12 pessoas, entre diretores e funcionários da Reag, de outras duas administradoras de fundos e da instituição de pagamento BK Bank.
Os crimes apontados são gestão fraudulenta de instituição financeira, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Mansur foi indiciado também por inserir dados falsos em demonstrativos contábeis e manter contabilidade paralela.
Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, Beto Louco, apontados pela PF como donos do dinheiro custodiado na Reag, não foram indiciados nesse inquérito. Segundo o relatório, eles são investigados em outros procedimentos.
Procurada, a defesa de Mansur não respondeu.
A defesa dos empresários Roberto Leme e Mohamad Hussein afirma que eles não são alvos deste caso e que desconhece os fatos.
"Vai dar circular"
Uma das mensagens mostra uma discussão de Mansur e o ex-diretor da Reag Ramon Dantas sobre como transmitir o dinheiro da Aster Petróleo, empresa de Primo e Beto Louco, por uma cadeia de fundos.
"Aplica no Mabruk, depois Mabruk permuta as cotas de Mabruck Cash com Hans, Mabruk Cash no Reag Multi Estratégia, Reag Multi na cota sub do Fic FIDC", explica Mansur.
"Ok", responde Ramon. Logo depois, porém, percebe que o dinheiro ia acabar parando no mesmo lugar. "Esse caminho não dá, vai dar circular. Reag Multi é cotista do FIM Mabruck Cash", explicou. "Estou vendo aqui o melhor caminho."
Nas conversas com Ramon, Mansur identifica nominalmente os titulares dos recursos —o que não é comum em uma administradora de fundos— e os diferencia de seus proprietários reais, mostrando que havia um sistema de "laranjas".
Segundo a PF, o dinheiro vinha de sonegação fiscal e de outros crimes no setor de combustíveis.
O relatório afirma que a ligação do grupo com o PCC (Primeiro Comando da Capital), embora noticiada por outros órgãos, não está provada no inquérito.
Cártulas do Besc
Num grupo de mensagens chamado "REAG - Fluxo Brimos", Mansur descreveu o caminho do dinheiro enviado pela Aster, por Silvana, mulher de Mohamad, e por uma distribuidora do irmão de Mohamad.
Ele também desenhou o fluxo à mão e mandou ao grupo. "Brimos" é como eles se referiam à família de Mourad, de origem árabe.
O dinheiro entrava no fundo Gold Style como se fosse um pagamento por cártulas do Besc (Banco do Estado de Santa Catarina). Depois, passava por outros fundos e empresas.

As cártulas são ações em papel do banco incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Segundo a PF, elas não têm estimativa de preço no mercado, o que permitia à Reag atribuir a elas o valor que quisesse.
Elas também foram usadas para desviar dinheiro do Banco Master, pelo que aponta a investigação da Polícia Federal.
Em 2024, a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) cobrou da Reag provas de que as cártulas existiam. Num grupo com outros executivos, Mansur reclamou do "mimimi de precificação de BESC".
Contrato de gaveta
A PF aponta que a Reag geria fundos cujo propósito não era investir, e sim dissimular a titularidade do patrimônio de seus clientes.
Em agosto de 2022, Ramon enviou a Mansur uma lista de vendas de cotas de fundos da Reag. Duas delas, de R$ 7,5 milhões cada, eram para Mohamad e para a mulher dele, Silvana Correa, com a anotação "Contrato gaveta, não feito no passivo".
Na mesma semana, Mansur pediu que dois contratos fossem feitos em nome da Sudeste Terminais, empresa de uma irmã de Mohamad, "não de Silvana". Em outra conversa, porém, ele disse a Ramon que os recursos eram de Silvana.
"Sacanagem"
A conversa que menciona a "sacanagem" é de dezembro de 2022, entre Mansur e Ramon Dantas, então diretor da Reag. Na véspera, os dois haviam combinado devolver R$ 40 milhões ao "turco", apelido de Mohamad.
"Antes de devolver o $ para o turco, vamos fazer uma 'sacanagem'", escreveu Mansur. Ele manda pegar o dinheiro "do Master", aplicar no fundo Maia e depois estornar tudo, do Maia para o Master e do Master para o "turco".

"Mas não deixa de me mandar o comprovante de Maia com a data de hoje Kkkkkk", completou Mansur. "Assim eu libero o $ do Banco Kkkk." Não fica claro quem estava devendo para quem e o intuito da "sacanagem".
Ramon avisou da aplicação no Maia às 9h59. Às 10h03, informou a "devolução para Áster Petroleo", distribuidora de combustíveis do grupo de Mohamad.

O Maia 95 é um dos seis fundos da Reag que a Polícia Federal investiga como parte das fraudes atribuídas a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Outros três fundos dessa lista, Hans 95, Olaf 95 e Anna, também aparecem no inquérito sobre os combustíveis. O relatório reproduz a conversa da "sacanagem", mas não explica a manobra nem informa que valor o banco liberaria.
"Beto concordou"
Em novembro de 2022, Mohamad pediu a Mansur para pôr "meu cara" dentro da estrutura dos fundos, participando dos comitês de crédito. "Inclusive o Beto concordou com negócio", escreveu.
"Você está dentro. A gente abre tudo, mas lembre-se que sou fiscalizado pelo Banco Central e CVM [Comissão de Valores Mobiliários]. Se eu faço isto posso tomar porrada", respondeu Mansur.
Internamente, Mansur manifestou preocupação com a participação direta desse intermediário de Mohamad na gestora. "Isto vai dar merda. Ele quer mandar e isto não funciona", disse em mensagem a executivos da Reag.
Patrimônio
O fundo no topo da cadeia investigada está em nome dos três filhos de Mansur, que aplicaram R$ 1,2 milhão nele. Nos cadastros internos da Reag, porém, o próprio Mansur aparecia como usufrutuário de todas as cotas, ou seja, verdadeiro dono.
Foi sobre essas cotas que a Justiça bloqueou R$ 1,19 bilhão em agosto de 2025, na deflagração da Carbono Oculto.
Mansur declarou à Receita Federal rendas de R$ 570 milhões em 2023 e de R$ 774 milhões em 2024. Nos mesmos anos, as contas dele receberam R$ 6,5 milhões e R$ 3,6 milhões, segundo a PF.
O relatório registra ainda que o Banco Master transferiu R$ 286 milhões ao fundo Anna, da Reag, em 2024. A Reag não incluiu o valor nos relatórios que enviou à Anbima.
O relatório foi concluído em setembro e segue para o MPF, que decide se apresenta denúncia.
Em paralelo, Mansur negociou uma delação premiada com a PGR (Procuradoria-Geral da República), que abrange o caso do Banco Master e os crimes investigados na Quasar.
A proposta ainda não foi homologada pelo relator do caso do Banco Master no Supremo Tribunal Federal, André Mendonça.
Reportagem
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