"As viagens tornaram-se a minha vida"

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Sejam bem-vindos. A viajante desta semana adora viajar e escrever e depois de dois ensaios com blogs, criou um site onde vai escrevendo há vários anos o que vê e o que vive pelos lugares onde viaja. O site é o viajacomigo.com. A nossa viajante é jornalista, já foi a 75 países e há 10 anos que é também líder de viagem. Recentemente lançou o livro "Viajar Sozinha". Susana Ribeiro, bem-vinda às conversas do "Fim do Mundo". Viajar sozinha precisa de um guia prático, é isso?
Olá e desde já muito obrigada pelo convite. Eu sei que essa é uma pergunta que muita gente faz, sobretudo para quem viaja sozinha e diz: "Eu não preciso disso pra nada". Mas a experiência que eu tenho de muitas mulheres que viajam comigo como tour leader, que acompanho os grupos, e também depois do workshop que eu fiz de viajar sozinha, eu notava que os receios são diferentes de pessoa para pessoa. Há pessoas que podem não falar inglês e isso já é um receio para não viajar sozinha ou outros. E o fato é que depois os destinos de sonho vão ficando na gaveta durante uma vida, porque não temos companhia para viajar. E de facto, chegou uma altura que depois de tanto escrever textos que pretendem ser um incentivo no viajacomigo.com, decidi: "Isto se calhar devia de estar em papel e num livrinho muito maneiro pra ir até na mala de mão", porque é um livro de bolso, e que as pessoas possam levar e até fazer anotações durante a viagem, de como é que está a ser a experiência, porque depois de nós começarmos a viajar sozinhos, depois já não conseguimos voltar ao primeiro ponto. E termos as mesmas sensações, já não é possível. E então é giro que fique escrito ali também, para mais tarde recordar.
Muito bem. O mundo é mais hostil para as senhoras, Susana?
Dizem os números que sim. Infelizmente, não vou estar a ir por aí. Mas é um facto que nós todas crescemos a ouvir as notícias e que temos muitas vezes que estar bem atentas ao meio que nos rodeia nas viagens. Os homens também, mas é um facto que para as mulheres acaba por ser menos seguro. E também depois há uma coisa que temos que compreender, acho eu, que eu própria também compreendi há pouco tempo. Nós somos mulheres, muitas vezes, que somos as primeiras das nossas famílias a viajarmos sozinhas, sem ter que pedir autorização a ninguém e que temos poder econômico para o fazer. Por isso, há uma série de condicionantes que faz com que isto agora seja uma tendência.
Do viajar sozinho e sozinha também. Mas o mundo tem sido hostil para ti? Não. Ou tem?
Ora bem.
Já apanhaste alguns sustos?
Já apanhei alguns sustos, é óbvio. Eu conheço as hostilidades e tento ter um jogo de cintura que permita lidar com elas. E é isso que vou dizendo no livro e também no workshop, que é que os nossos medos não nos impeçam de vivermos as coisas, porque coisas acontecem durante as viagens.
Pode ser à porta de casa.
Algumas são boas, algumas são más. E exactamente como eu costumo dizer, os sítios onde fui assaltada foi sempre na minha cidade, tirando uma vez. Exatamente. E por isso, o mesmo tipo de segurança que nós temos perto de nossa casa, com as nossas coisas, e muitas vezes temos que analisar o destino para onde vamos e não vamos andar com coisas de marca na rua, por exemplo, ou relógios caros, ter cuidado com o telemóvel. Esse tipo de coisas que nós temos que ter em atenção, mas que não nos impeça de desfrutar da viagem. Isso é muito importante.
Muito bem, desfrutar sempre da viagem. Olha, vamos falar do teu percurso enquanto viajante. Já foste a 75 países. Como é que começaste a viajar, Susana Ribeiro?
Olha, eu posso dizer que sou uma viajante tardia. Não posso dizer que seja uma coisa de família. Ainda há pouco tempo estava a apresentar o livro e perguntaram isso à minha mãe, e ela disse: "Não, mas ela sempre teve muita vontade de viajar pelo mundo".
Eras aquela criança que alimentava o sonho de conhecer o mundo a olhar para mapas?
Eu era a que inventava as histórias de um mundo que não conhecia com os meus próprios olhos.
Ok.
Eu tenho ainda uma máquina de escrever que me deram quando eu tinha cerca de oito anos, porque eu tinha uma daquelas caixas registadoras de lojinha de supermercado, para as meninas brincarem, que nos davam. E eu fingia que a máquina registadora era uma máquina de escrever, por isso com oito anos deram-me logo uma máquina de escrever séria.
Poxa.
E eu ainda a mantenho.
Olha, que giro.
E, portanto, eu sempre gostei muito de contar histórias que aconteciam até no dia a dia, no autocarro, a ir pra faculdade, coisas assim. Mas só quando tive a minha independência econômica, eu sei que muita gente que nos está a ouvir percebe isto, é que comecei mesmo a viajar. Por sorte, foi na altura em que as low cost começaram a chegar aqui ao Porto e por isso ajudou-me muito a desbravar as primeiras viagens, as primeiras viagens a solo, a preços mais módicos e depois fui aumentando essa periodicidade das viagens também.
Pois, e começaste por te lançar pra onde? Europa, foi?
Sim, Europa foi França, Espanha. Lembro-me que ainda não tinha visitado, por exemplo, Madrid e Barcelona, e fiquei encantada. Desde então já viajei mais vezes para lá nos últimos 30 anos, porque gosto muito. Depois também, como comecei e estava a ser jornalista já de viagens e muitas vezes era convidada pelos turismos oficiais para visitar os locais e ainda continua a acontecer. Este ano, por exemplo, fui convidada pelo turismo da Jamaica.
Super sorte.
Foi uma sorte que se construiu, mas eu sinto-me privilegiada, de facto. E eu lembro-me, por exemplo, o turismo de França, que na altura até tinha representantes aqui em Portugal, agora tem na Península Ibérica, porque o nosso mercado é pequeno. Chegou a convidar-me e uma vez aconteceu uma coisa engraçada.
Conta.
Eu ia numa press trip, que é só para jornalistas, mas houve uma greve aqui no aeroporto do Porto e eu não pude embarcar, simplesmente. E disseram: "É só amanhã, mas ainda sem certezas." Falamos e dissemos: "Olha, já não vai valer a pena." Era uma press trip de quatro dias, não vai valer a pena, vejo noutra altura. Então fui noutra altura e só no dia anterior da viagem é que me disseram assim: "Onde é que eu me junto com o grupo? Onde é que eu tenho mais informações?" "Não, não tens grupo. Tu vais chegar lá ao aeroporto, que é o aeroporto de Tours, e tens os rent-a-car mesmo em frente, vou te dar um código pra tu levantares o teu rent-a-car e vais fazer o tour sozinha." E eu: "Hã?" Por isso eu às vezes até digo que algumas viagens eu fui empurrada para elas, a fazê-las sozinhas. E foi espetacular, diga-se de passagem, porque foi fazer um roteiro nos castelos históricos do Vale do Loire, em França, que eu aconselho toda a gente a fazer, e fui-lo sozinha, a conduzir um carro.
Não é um bocadinho chato, Susana?
Viajar sozinha?
Sim.
O livro não te diz só como é que deves escolher um voo, um hotel, o que é que deves pôr na mala. Há ali uma parte que eu também digo: eu sei que é chato para muita gente e é um dos receios, por exemplo, jantar sozinho. E desconstruo ali alguns mitos que estão associados a essa coisa de as pessoas estão todas a olhar pra mim porque eu estou sozinha. Têm que ler no livro melhor pra perceberem. Mas é um facto que há muita gente que tem este receio e eu muitas vezes digo: "Então pratiquem perto de casa. Se morarem em Lisboa, vão jantar sozinhas algumas vezes, vão ao cinema sozinhas e habituam-se a esse desconforto, se não estiverem habituados, do que é estar sozinhos e gozarem da vossa própria companhia. Porque isso é muito importante na vida em geral, não é só pras viagens.
Claro. Diz-me uma coisa, o facto de viajares sozinha já te confrontou com algumas situações que podemos categorizar como divertidas, inusitadas, insólitas, Susana Ribeiro?
Sim, há sempre histórias e algumas eu até gostava de me lembrar mais delas. Às vezes estamos a ter conversas e eu: "Já não me lembrava desta história, mas isso aconteceu" e coisas assim.
Também és do mesmo clube que eu, o clube dos que têm memória de peixinho.
Passarinho.
Ou de passarinho, sim.
Se calhar pior que um passarinho.
Só depois é que lembras delas, é isso?
É, é um pouco. Apesar de ter muitas escritas, tanto no site como no livro, por exemplo, depois esqueço-me. Inusitadas, há uma que eu me lembro sempre, porque é das mais caricatas que já me aconteceu. Então não me deixaram entrar com a mala de mão porque o avião já estava cheio e disseram: "Tem que ir ali atrás na manga pra deixar a sua mala, tem lá um escorrega, mete a mala e volta." E eu: "Sim, senhora." Fui, dei a volta na manga, quando voltei vi a porta do avião fechada. E eu: "Isto não pode estar a acontecer, esqueceram-se de mim aqui." E então corro pra lá e vejo aquilo, tem um vidrozinho redondo na porta. Só que ainda estava a manga, que por acaso era daquelas bem largas no fundo, e chegava à janela do piloto. Então estou eu toda debruçada, porque eu já tinha batido na porta montes de vezes e as hospedeiras que estavam lá dentro, as comissárias de bordo não me estavam mesmo a ouvir, obviamente. E então fui à janela do piloto bater e dizer: "Fecharam-me aqui fora!" Só o facto de estar a dizer: "Fecharam-me aqui fora" é qualquer coisa do outro mundo. E eu estava muito aflita, porque não estava lá ninguém do aeroporto nem nada, e eu estava à espera que o avião começasse a fazer aquela marcha atrás que faz. E eu a ficar ali a vê-lo ir embora, simplesmente. Mas, por exemplo, eu ao Irão não fui sozinha. Mas eu gosto de contar estas coisas, ainda por cima hoje em dia o Irão, e eu lembro-me que eu fiz um grupo para ir ao Irão e eu sei os receios que as pessoas têm destes países, e o que posso dizer é que leiam mais sobre eles para perceberem que metade dos medos não deviam de existir. Mas o Irão é feito de pessoas como nós, e portanto são supersimpáticas. E um dia estávamos em Isfahan, éramos um grupo pequenino de quatro, cinco pessoas, já nem me lembro muito bem. Cinco, exato. E então veio um senhor ter conosco. Nós tínhamos um norte-americano, porque os norte-americanos não podem fazer visitas lá desacompanhados. E então toda gente queria falar com o norte-americano, dizer-lhe que os Estados Unidos era o melhor país do mundo. Mas o engraçado é que depois todos nós, os outros não existíamos. Eles nem queriam saber bem qual era o nosso país. Um era americano, significa que todos os outros eram norte-americanos também. E depois dizia-nos assim o senhor, mas a dizer-nos e a pegar-nos na mão, a puxar-nos: "Vêm à minha casa, ficam como meus convidados e vão beber do meu vinho que eu faço, sou eu que faço." E a minha guia assim muito séria a olhar pra ele e a dizer: "Pois, eles têm um programa apertado, não sei se vai dar." Mas ou seja, isto enriquece muito uma viagem.
Desculpa, vinho que eles faziam, vinho ilegal, não é?
Pois, supostamente eles não bebem vinho.
Exato, supostamente.
Mas o supostamente de muitos países, depois vamos ver, e é como eu digo, são exatamente iguais a nós e se puderem quebrar regras, quebram também.
Isso é humano.
É.
Viva lá quem viver onde. Ou viva lá onde viver.
Exatamente.
Isso. Mas ias a contar. Acabaram por ir para casa desses iranianos?
Não conseguimos. Eu fiquei com muita pena, porque depois gerou-se ali um grupo muito giro e eles estavam-nos a falar e depois lá perceberam que três de nós éramos de Portugal e disseram logo Cristiano Ronaldo. Muitas vezes as pessoas acham que aquilo é um país fechado e não é, e as pessoas são muito progressistas. Infelizmente, quem está no poder, se calhar, não é.
Ou se calhar é, não querem é aceitar, porque isso implica depois perder o poder.
A política é complicada e nestes países abandonados, por várias razões, às vezes também. Mas é assim. A minha guia era muito progressista e até se chateava de andar com o lenço, agora já não é obrigatório. Mas são pequenas coisas que enriquecem muito a viagem. Eu estou a falar do Irão, mas se eu disser que, por exemplo, acho que a seguir a Portugal, Marrocos é provavelmente o país que eu conheço melhor. Melhor do que Espanha, que já fui muitas vezes. Porque estive muitas vezes lá, porque tenho amigos lá, porque sei como é que eles vivem e não é só numa ou duas cidades, eu conheço quase todas as cidades principais de Marrocos. E muita gente tem medo de ir só porque têm uma religião diferente da nossa ou porque alguém lhes disse que cheira muito mal lá nas cidades. Cada pessoa que vem traz a sua opinião e é justíssimo que a passe. Eu costumo dizer, somos todos influenciadores. Aos colegas.
Tu já trouxeste de algum país uma impressão negativa colectiva?
Não, porque eu sou assim, um bichinho que adora história e eu tento sempre ir procurar as razões para o país e as pessoas serem daquela forma. E a partir daí, tudo é justificado e por isso eu não gosto de vir com essas ideias enviesadas ou de fazer julgamentos no local.
Procuras sempre compreender, é isso?
Exatamente. E gosto de pensar que passo isso para os meus grupos.
E já houve algum país em que tu não compreendeste o que viste, Susana?
Não, percebo sempre. É preciso estudar muito bem pelo que aquelas pessoas passaram, pelo que aquele país passou, más descolonizações, aqui estou a falar na generalidade, mas existe muito isto, existe um abandono da comunidade internacional, existem vários factores. E depois nós somos muito eurocêntricos. E achamos que viver na Europa é o máximo e de certa forma é.
Pois é.
De certa forma é. Eu sou muito grata de ser mulher a nascer na Europa.
Isso.
Mas há coisas que nós temos que compreender para absorver melhor a cultura.
Muito bem.
Apreender, não é aprender, é apreender a cultura. Acho eu, não sei, posso estar errada.
É a tua opinião, acho que sim.
Exato.
Vamos continuar a desbravar histórias e episódios das tuas viagens, mas como estamos aqui na reta final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Susana Ribeiro, tens contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial?
Tenho vários. Eu gosto muito de comprar a artistas, às vezes a artistas de rua, porque acho sempre que se tivéssemos todos a mesma oportunidade na vida, muitos deles estariam em museus ou galerias e aquilo valeria milhões de euros. Mas como estão numa rua de um país qualquer, ainda não tiveram essa oportunidade, espero que tenham. Então tenho algumas pinturas, por exemplo, comprei a um rapaz numa praia do Senegal. Eu não sei de onde é que ele apareceu. Apareceu lá com uns quadros e eu compro muitas vezes de vou ajudar. Mas de facto o quadro eu gosto imenso, é a representação de uma mulher senegalesa. Costumo comprar também muito em Marrocos. Eles fazem umas pinturas em Ait Ben Haddou, que é o património da UNESCO, que pintam com tintas locais ou com chá, o chá de menta e assim. É um pouco o que nós fazíamos na escola primária quando éramos crianças. E depois passam com calor por trás, um isqueiro, e o quadro fica meio acastanhado com essas tintas que são todas de produtos naturais. É muito interessante. Eu tenho várias aqui que estimo muito também desses artistas que vou cruzando com eles.
Muito bem. E te vão lembrando que viajar é bom. Quando olhas para os quadros?
Exatamente, é por isso que também eu os trago, para prolongar a viagem olhando para eles.
Exatamente. Vamos prolongar esta conversa depois de uma curta pausa. Vamos olhar para os pés da Susana, já vai perceber porquê. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das conversas do Fim do Mundo. Esta semana com Susana Ribeiro, a autora do site de viagens viajecomigo.com. Susana, o que te aconteceu em São Tomé que te deixou marcas nos pés, mulher?
Já vamos falar de doenças? Essa foi uma.
É a chamada entrada a pés juntos.
Exatamente. Por acaso, a coisa interessante é que eu normalmente, na viagem em si, acabo por não estar doente na viagem. Portanto, terá me acontecido uma ou duas vezes uma amigdalite, uma coisa assim, mas nunca nada de muito grave.
Não és nada das graças e achques, nada disso.
Não. Felizmente. Mas às vezes chego a casa e aí que ficamos ou com uma dor de barriga ou com outra vez dores de garganta, porque viemos doentes do ar-condicionado, por exemplo, que acontece muito isso.
Não costumas vir doente das coisas que comes. Pergunto isto porque, por exemplo, já foste muito à Índia, não é? É normal. Quer dizer, não é normal, mas acontece algumas vezes.
E da Indonésia, por exemplo, eu faço o tour da Indonésia, fiz nos últimos cinco anos. E existe mesmo para Bali, a terminologia é Bali belly, que toda gente supostamente fica doente em Bali e eu felizmente nunca fiquei. Espera aí, vou bater na madeira. Mas agora, o mais interessante, eu ia dizer engraçado, mas não teve muita piada. Mas o mais interessante foi que, portanto, vim de São Tomé e lá conheci uma pulguinha de areia, que é bastante diferente das pulgas que nós temos, que pica-nos e deixa lá os filhotes, os ovinhos. E, portanto, depois aquilo começa a crescer e por acaso tivemos muita sorte, porque as primeiras pessoas do grupo a irem ao hospital depararam-se com uma médica que tinha estado em São Tomé e ela identificou logo. Portanto, assim, foi a maior das sortes, a sério. E ela identificou logo o que era e disse logo que tínhamos que fazer uma raspagem pra tirar aquilo tudo. E portanto, foi isso. Então tenho dois dedos dos pés enfaixados à custa disso. Mas já estou tratada e está a correr tudo bem. São coisas das viagens.
Quando foste ao médico, já sabias mais ou menos o que é que tinhas, porque já outros viajantes tinham avisado.
Isto, portanto, é uma coisa que sobrevive e vive entre a areia e precisa das condições tropicais para viver, etc. Mas como veio hospedado em nós, portanto, veio de avião sem pagar bilhete. E portanto, aquilo parece, se alguém tiver a ouvir, vai ficar muito impressionado, mas parece uma agulhinha de fricção quando fazemos nos pés ou uma coisa assim. Mas depois tem uma coisa muito diferente que é uma ponta negra no meio. Isto eu acho que é sempre bom as pessoas saberem, não querendo causar nenhum pânico. "Ai, agora não vou pras praias ou não vou fazer isto". Quer dizer, eu também já fui queimada por uma alforreca nas Filipinas e não é por isso que deixo de entrar no mar. E foi horrível, mas não é por isso que vamos deixar, mais uma vez, de viver as coisas, mas é bom estarmos atentos quando vamos pra estes lugares no pós-viagem. Ou seja, que há coisas destas que podem acontecer, assim como também, eu não me canso de dizer, que mesmo que a gente faça a profilaxia da malária, isto é dito por todos os médicos, pelo menos um ou dois meses depois, até seis meses depois da viagem, é preciso estar atento a sintomas. Vai ao hospital e diz: "Olha, eu estive em tal sítio onde há malária, podemos fazer testes pra ver o que eu tenho?" Não se perde nada, só se ganha com isso.
Muito bem. Tu tens uma visão muito pedagógica da viagem, o que é ótimo. Susana, o que o mundo e o que viajar te têm ensinado?
Ora bem, tem me ensinado a viver. Basicamente, isto tornou-se a minha vida. Ou seja, tudo gira à volta disto. Ou estou a ser tour líder ou estou a escrever sobre viagens para os sites e o livro que foi lançado o ano passado. E depois faço workshops para formar, porque também tenho curso de formadora, para formar tour líderes de pessoas que querem fazer o mesmo que eu. Mas tornou-se mesmo a minha vida, felizmente. Porque houve ali uma altura que ser jornalista no Porto não nos dá tantas oportunidades como se calhar estando em Lisboa, quando havia muitas revistas de viagens, infelizmente, não é o caso agora. Mas lá está, o facto de ter criado o site e tudo foi um bocadinho de: "O emprego que eu quero não existe ou ainda não chegou às minhas mãos, por isso vou criá-lo". E foi um pouco assim.
Foi por isso que criaste o viajecomigo.com.
Exato.
Muito bem. Olha, 75 países, já é uma bela soma. Qual é o país que te deixa assim de queixo caído, Susana?
Ai, eu nunca consigo responder a isso. É a pergunta que mais me fazem. Nunca consigo escolher um, nem dizer também um que me tenha desiludido.
Ok, mas se eu te perguntar: Susana, eu estou em condições de te oferecer um bilhete de ida para um país, onde é que queres ir?
Mas que eu já tenha conhecido ou que ainda não conheço?
Sim, que tenhas conhecido.
Tá, é muito difícil.
Ah, ok. Então mas qual é o país?
É mesmo muito difícil. Eu adorei Índia. Eu já repeti vários países várias vezes. Japão, a Índia, o Sri Lanka, Marrocos. E depois alguns da Europa, claro, a Islândia, eu vou todos os anos lá, há tours que eu faço todos os anos.
Sorte!
E não me importo de ir várias vezes. E, por exemplo, a Marrocos, quando nós chegamos ao deserto e eu vejo as dunas de Erg Chebbi, eu digo pra mim mesma: "Eu nunca me vou fartar de vir aqui". Agora, se dissesses: "Ofereço-te um bilhete pra um país que tu queiras mesmo muito ir". Eu diria agora a Argentina, que ainda não fui. Porque está caríssimo. Eu sou muito pragmática. Está caríssimo viajar para a Argentina, eu só fui lá um dia, por isso não contabilizei. Um dia, quando fui às Cataratas de Iguaçu, do lado do Brasil, e fui lá visitar. Como eu nunca consigo responder a essa pergunta, uma vez fizeram uma pergunta de outra forma, que foi: se escolhesses um país para viver, mas só podes escolher um, qual seria, além de Portugal ou da Europa? Disseram que tinha que ser fora da Europa, portanto, tinha estas duas condições.
Ok, e o que tu respondeste?
E eu disse Brasil, porque eu adoro o Brasil.
Ah, é?
E o Brasil é gigantesco e tem muitos mundos lá dentro. Eu já visitei cinco vezes diferentes lugares do Brasil, diferentes estados, e quero muito voltar para continuar a conhecer e continuo a gostar muito. Por isso, sim.
Mas o que te puxa no Brasil, Susana?
É precisamente essas diferenças entre os estados. Se nós falarmos com a maioria das pessoas, eu estou a generalizar, mas como dizia um amigo meu, se a gente não generalizar, não consegue falar nada. Mas eu vou generalizar a dizer que as pessoas olham para o Brasil como um destino de praia, mas o Brasil é muito mais que isto. E eu já estive uma semana e meia no Rio Grande do Sul, eu já estive na Amazônia e voltando para a parte da praia, eu adoro a Bahia, eu acho incrível o espírito da Bahia. E é interessante como dentro de um país, tu tens espíritos diferentes das pessoas, a cultura é diferente, tudo é diferente, como nós aqui em Portugal. Que é pequeno e também se notam essas diferenças. Mas eu adoro muito o Brasil e estou cheia de saudades e quero ver se para o ano volto lá. Gostava muito de fazer um tour para o carnaval do Brasil, que é outra coisa que as pessoas têm muito receio em ir, sozinhas, por exemplo.
Tu já foste?
Eu nunca passei lá o carnaval, porque eu quando fui ainda não havia carnaval. Eu estive na Bahia em 2022 e ainda não fizeram o carnaval. Mas estive na altura do carnaval. Sim, exatamente. Ainda não deixaram fazer. Então nós tínhamos minicarnaval dentro do hotel onde estávamos, com mini trio elétrico, mas não tem nada a ver e por isso gostava muito de ir viver a verdadeira energia do carnaval.
Do carnaval. Falaste de Salvador.
Da Bahia.
Depois da Bahia. Falaste da Bahia, o que é que tem de especial este canto do Brasil para ti, Susana?
A Bahia tem tudo. As pessoas primeiro são supersimpáticas e depois são mais calmas. Isto comparado com o Rio de Janeiro, que também adoro. E depois tem uma etnicidade muito grande e tem um patrimônio cultural incrível. Musical, então, é uma coisa incrível e por isso eu comecei a perceber quando cheguei lá, que todos os autores, cantores e cantautores do Brasil, quando chegam lá, ficam inspirados. E nós conseguimos encontrar, se calhar vou exagerar a dizer isto, mas quase que conseguimos encontrar músicas sobre qualquer canto da Bahia. Basta procurar. Da praia não sei o quê, existe uma música sobre isso. Do Pelourinho, do centro da cidade, existem músicas, não é uma, várias. Ou seja, existe sim um patrimônio cultural muito grande e depois eu visitei e percebi muito como é que a música também pode melhorar a vida das pessoas, não só quem ouve, mas também tirar miúdos de rua para tocarem nos batuques no Olodum e projetos incríveis musicais. Ou seja, existe muito para conhecer, além de vou passear aqui na rua, comer não sei o quê, e apanhar o barco para ir para as ilhas, que são espetaculares também, as ilhas da Bahia. Mas tem isso tudo, há muita coisa para se viver lá.
Ok. Tiveste a oportunidade de viajar pelo estado da Bahia também?
Não fiz tudo, aquilo é gigantesco. Eu estive quase uma semana só em Salvador, por isso. E fui às ilhas em frente e nem fiz todas. Fui a uma do Bom Jesus, que aconselho também, que é incrível, é muito pequenina. Já não me lembro quantos moradores tem, mas são muito poucos. Mas é incrível também o ambiente lá, as histórias que se contam. Depois eu tenho esta coisa jornalística que todas as histórias são fixes. Todas. As pessoas estão a dizer: "Isso não tem muito interesse". Eu: "Tem".
Tu és aquela pessoa que fica para trás a conversar com os locais?
Sem dúvida.
Portanto, estão-te sempre a dizer: "Susana, temos que ir embora", e tu continuas lá.
Exatamente. Inclusive os meus guias, às vezes. Ainda agora estava a dançar com uma senhora lá no mercado do peixe em Saint-Omer, e o meu guia teve que dizer: "Temos que ir embora, Susana." Eu disse logo: "Eu ficava por mim, ficava aqui o dia inteiro a falar com estas pessoas."
Muito bem. E qual é o país onde os habitantes te dão mais troco?
Dão em todo lado, não me posso queixar.
Brasil será? Que falam a mesma língua.
Mesmo que a língua seja uma dificuldade. Não vou dizer que é o Japão, certamente. Mas se eu usar o Google Translator, o tradutor no Japão, e se pedir ajuda, eles estão sempre disponíveis, mesmo não falando nada de inglês. Mas não sei, em Marrocos também. Eu lembro-me uma vez estar na Praça de Jemaa el-Fna, e eu tenho muitos dos vestidos tradicionais de Marrocos e gosto de os levar para o tour, já que se usar aqui em Portugal vai ser um bocado estranho. Sim Mas é uma apropriação cultural com medida, não é abusadora. Aliás, eles ficam superorgulhosos de nós, turistas, usarmos aquilo. Para eles, ficam mesmo muito orgulhosos. Nós vamos na rua com aquilo vestido, com o caftan vestido, e eles dizem mesmo: "Que linda que tu estás, ficas muito bem vestida de marroquina." Lembro-me de uma vez estar na praça Jamaa el-Fna, e eu sei dizer duas outras palavras em Amazigh, os antigos berbere. Aquilo tem várias bandas na praça, que é patrimônio da UNESCO também, de vários pontos de Marrocos. E eu lembro-me que aquele estava a falar Amazigh, e eu disse só: "Obrigada". E ele pegou em mim e pôs-me a dançar no meio da praça. E disse mesmo assim qualquer coisa do gênero, depois em francês: "Dança lá um bocadinho pra ver se nós ganhamos mais dinheiro."
Foste usada.
Exatamente. Mas foi um bom motivo, um bom final. Tenho o vídeo disso, foi engraçado. Depois eu queria vir embora e ele continuou a puxar-me a dizer: "Não, dança mais, dança aqui com a minha mulher."
Ok. Foi geníno.
E portanto, acho que em Marrocos me dão muito troco.
Ok, boa. Muito bem. Olha, havia muito mais pra dizer, e haverá certamente pra dizer, mas temos que fazer check-out. Vamos fazer?
Yes.
Vamos lá. Então vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre, Susana, o que é que não falha?
Ora bem.
Ora bem, vem aí uma longa lista.
Óculos de sol.
É isso, óculos de sol.
Não. Óculos de sol, sempre uma echarpe e um chapéu.
Echarpe por quê?
Porque nos voos está sempre muito frio.
Ok.
Depois, em certos países em que nós, mulheres, temos que nos tapar, também vai dar jeito sempre ter aquilo ou pra tapar os ombros, ou pra tapar o peito, ou pra tapar os joelhos, tudo o que incomoda a sociedade. Isso foi crítica social encapotada.
Faz bem.
E depois também pode servir de canga pra levar pra praia, se há este biquíni. Dá pra todos os destinos, dá muito jeito.
Ok. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.
Ai, eu conto sempre essa. Peripécias, porque no mesmo dia eu fui assaltada, mas eu não vi. Portanto, roubaram dentro do carro as coisas. Eu não estava sozinha nessa.
Onde?
Foi em Espanha. Por acaso foi no norte de Palma de Maiorca, eu posso ser mais específica, e por isso nunca deixem. Se não virem ninguém, acreditem que vai estar alguém a ver-vos, porque eles estão à espera que os turistas deixem realmente. Não, porque não estava lá ninguém, foi uma coisa incrível. E no mesmo dia, depois apanhei muita chuva e perdi o controle do carro e bati com o carro. Portanto, isso tudo quase numa manhã. E eu na altura só me apetecia chorar. Hoje em dia, lá está, rio-me, porque digo assim: "Mas o que é que raios está a acontecer? Que sinais são estes? Se calhar devo voltar pra trás, não sei." E voltei. Voltei com o carro todo amassado, mas tinha seguro, estava tudo bem. Não aconteceu nada de mais, foi um grande susto, a batidela. Eu conto sempre essa. Quer dizer, houve outras. Nas Filipinas, um barco partiu ao meio.
E tu estavas a bordo?
Não tinhas programas suficientes.
Não? Opa. Tens uma memória que funciona com retardante.
Exato.
Com retardante, assim é que é. Vais te lembrando das coisas. Então um dia combinamos e recuperamos outras memórias. Olha, o carimbo de passaporte ou o visto mais difícil de obter, qual foi?
Ora bem, o Irão não carimba. Eu diria que não é o visto mais difícil.
Sim.
Mas depois dificulta-nos a viagem pra outros países. Eu queria ir aos Estados Unidos e ainda não sei se vou conseguir entrar.
Porque passaste pelo Irão.
Mas valeu a pena ir ao Irão, isso posso garantir-vos.
Ok. A recordação de viagem mais cara?
Eu diria que é um tapete de Marrocos que eu tenho e que adoro. Adoro tanto que não está no chão, está na parede.
Perdeste a cabeça com ele, foi?
Um bocadinho. Mas eu sou muito poupadinha, mesmo assim.
Pronto, merecias, é isso? Estavas a merecer esse tapete.
Foi um bom negócio.
Foi? Não queres dizer quanto é que foi?
Não posso.
Não podes. Ok. A refeição mais estranha, qual foi?
Bem, isto hoje parece que é tudo Marrocos, mas lá está, é tudo que me estou a lembrar. Eu tenho até um texto no site sobre isso. As saladas marroquinas nunca têm coisas estranhas, é uma salada normal. Mas uma vez eu estava a comer e o sabor era um pouco estranho e eu perguntei o que tinha, e o senhor até me respondeu. Ele respondeu em francês e eu não percebi. E ele disse em inglês: "Brains". E eu: "Brains? Miolos? Por quê?" Eu só olhei pra ele e ele ficou com um ar muito triste, a olhar pra mim e a dizer: "Mas não gostas?" E eu a tentar me desculpar. Aquilo era no hotel, mas parecia que eu estava a desrespeitá-lo na casa dele. E eu: "Não é gostar, eu não estou habituada", percebe?
Ah, tu és do Porto, come-se mioleira, mas tu não comes.
Eu não.
Tu não.
Não, definitivamente.
Ok, e era bom ou nem por isso?
Não, a questão foi essa. Se eu tivesse comido e tivesse gostado, eu nem ia perguntar.
Pois.
A questão é que aquilo tinha um sabor avinagrado, que é um sabor que eu não gosto. Eu posso comer coisas com vinagre, mas não gosto, por exemplo. E, portanto, eu achei melhor perguntar e quando perguntei, deixei essa parte de parte.
Ok. Gostava de viajar com?
Essa é sobre a personalidade que costumas perguntar. Eu há pouco tempo escrevi pro meu outro site, o "Mulheres em Viagem", sobre uma mulher que provavelmente foi muito à frente do seu tempo, a Nellie Bly. Ela era jornalista e fingiu que tinha uma doença mental para a levarem para um manicômio. O nome pode não ser o mais correto. E então desvendar o que faziam às pessoas lá, que envolveu até coisas de tortura. Portanto, um: ela foi uma mulher que provavelmente foi pioneira do jornalismo de investigação com isso. E depois deu a volta ao mundo em 72 dias.
Exatamente.
Superando o recorde da obra do Júlio Verne. Portanto, eu acho que a Nellie Bly seria uma ótima companheira de viagem pra mim, ou eu pra ela.
Muito bem. Para longas horas de conversa, não é?
Ui!
Ui! Olha, foi bom, Susana, mas chegamos ao fim. Que música é que trouxeste para fechar a nossa conversa?
Eu ultimamente escolho "Take On Me" dos A-ha.
Ok.
Por quê? No meu livro "Viajar Sozinha", uma vez eu estava nos preparativos finais, eu acho que estava na Indonésia, em Bali, e não estava a perceber muito bem como é que ia fazer as ilustrações do livro, mas queria usar fotografias minhas. E estava a lembrar-me de como era o videoclipe dessa música quando ela começou a dar no sítio onde eu estava. E eu pensei: "Ok, que tal se eu transformasse as minhas fotografias em desenhos, tal como no videoclipe?" E então assim ficou, e está no livro. São fotografias minhas tiradas em vários lugares, desde Portugal ao Japão, Marrocos, México, etc. E foram todas transformadas como se fosse uma banda desenhada ou algo que inclusive as pessoas podem pintar, quem compra o livro, podem pintar durante as viagens.
Muito bem. O livro "Viajar Sozinha". Certo?
Exatamente.
Muito bem. Susana, foi um gosto. Muito obrigado.
Muito obrigada eu pelo convite. É um prazer e um privilégio estar aqui. Muito obrigada.
Obrigado. "Take On Me", os A-ha, a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso hoje, oito dias. Sejam bons e boas viagens.
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