BCE alerta para risco de “bolha” da inteligência artificial

A euforia em torno da inteligência artificial está a levar as cotações bolsistas das empresas tecnológicas norte-americanas para níveis próximos dos registados durante a “bolha” das empresas de Internet, na viragem do século, e uma correção dos mercados parece provável, mesmo que os atuais preços das ações estejam fundamentados em expectativas racionais. A análise foi feita por cinco economistas do Banco Central Europeu (BCE), num artigo publicado nesta segunda-feira no site do supervisor financeiro, que conclui que as consequências de uma eventual queda acentuada das ações ligadas à IA nos EUA não se limitariam à economia norte-americana.
No estudo, Malin Andersson, Johannes Breckenfelder, Stefano Corradin, Kalin Nikolov e Maria Antonietta Viola comparam o atual entusiasmo dos investidores à luz de episódios anteriores de revoluções tecnológicas, desde a expansão dos caminhos-de-ferro e da eletricidade até à internet. A conclusão dos autores é que estes episódios tendem a seguir um padrão semelhante: uma tecnologia com potencial transformador desencadeia fortes investimentos e uma valorização das empresas que dela beneficiam. Posteriormente, porém, tende a ocorrer uma correção significativa dos preços dos ativos.
O BCE não afirma, no estudo, que as atuais avaliações sejam necessariamente irracionais ou que estejamos já perante uma bolha prestes a rebentar. O argumento é mais abrangente: mesmo que os investidores estejam a atribuir às empresas de IA um valor justificado pelo seu potencial futuro, a própria natureza da incerteza associada a uma nova tecnologia pode fazer aumentar o prémio de risco à medida que a sua utilização se generaliza. Esse mecanismo pode provocar uma descida das avaliações, mesmo num cenário em que a inteligência artificial se revele efetivamente transformadora e aumente os lucros das empresas.
A Nvidia é apontada como exemplo. A cotação da fabricante de chips subiu cerca de 20 vezes desde 2022, refletindo a expectativa de que a empresa possa tornar-se uma das grandes vencedoras da revolução da IA. Para os economistas do BCE, este tipo de valorização pode ser racional quando os investidores atribuem uma probabilidade significativa a ganhos futuros muito elevados. Mas, quando a tecnologia deixa de ser uma aposta de algumas empresas e passa a afetar toda a economia, o risco deixa de poder ser facilmente diversificado. Historicamente, dizem os autores, o aumento do prémio de risco tende, então, a pesar sobre as avaliações das ações.
Há ainda uma segunda explicação para estes ciclos de subida e queda: o comportamento dos investidores. O excesso de confiança e de otimismo pode levar as cotações para níveis superiores aos justificados pelos fundamentos das empresas. Quando esse otimismo desaparece, a correção pode ser ainda mais acentuada e ter uma evolução rápida e exponencial.
O tema da Inteligência Artificial teve grande destaque no recente encontro do BCE em Sintra, o fórum anual em que se reúnem na vila portuguesa para debater as grandes tendências e riscos nas economias europeia e mundial. Este presente na conferência o economista-chefe da OpenAI, a empresa dona do ChatGPT, que salientou que esta tecnologia já supera o desempenho dos humanos em 80% das tarefas levadas a cabo pelos chamados trabalhadores de “colarinho branco”.
De acordo com o estudo agora divulgado, o problema para a Europa é que os investidores da zona euro estão longe de estar protegidos de uma eventual queda das grandes tecnológicas norte-americanas. A exposição às chamadas “Magnificent Seven” — Alphabet (Google), Amazon, Apple, Tesla, Meta, Microsoft e Nvidia — ocorre sobretudo de forma indireta, através de fundos de investimento e ETF (exchange traded funds) que acompanham índices globais como o MSCI World.
Só as famílias da zona euro terão cerca de 440 mil milhões de euros expostos a ações tecnológicas norte-americanas, segundo as estimativas apresentadas no artigo do BCE. Uma parte significativa dessa exposição é feita através de ETF de baixo custo, o que significa que os investidores podem estar concentrados nas grandes empresas tecnológicas dos EUA sem terem necessariamente consciência da dimensão desse risco. Seguradoras e fundos de pensões têm também exposições relevantes às “Magnificent Seven”.
Esta estrutura de investimento pode, por si só, amplificar uma eventual queda. Se os investidores começarem a resgatar dinheiro dos fundos, estes podem ser obrigados a vender ativos para fazer face aos pedidos. Inicialmente serão vendidos os ativos mais líquidos; se a correção se prolongar, a pressão poderá estender-se a ativos mais difíceis de transacionar. O resultado pode ser um ciclo de quedas das cotações, novos resgates e novas vendas.
É por isso que os economistas consideram que uma eventual correção das ações das “Magnificent Seven” não seria apenas um problema para os acionistas, mas uma questão de estabilidade financeira para a zona euro. O risco seria particularmente elevado se a queda das bolsas coincidisse com uma perturbação mais ampla dos mercados financeiros, por outras razões (como instabilidade geopolítica, por exemplo).
Nesse cenário, a margem de manobra das autoridades seria também mais limitada do que durante o episódio das dot-com, já que existe hoje menos espaço para utilizar cortes nas taxas de juro ou estímulos orçamentais para amortecer o impacto.
A Europa tem, ainda assim, uma vulnerabilidade diferente da dos Estados Unidos. As avaliações das bolsas da zona euro subiram nos últimos anos, mas continuam bastante abaixo das norte-americanas em indicadores como os rácios preço/lucros. O setor tecnológico europeu também não apresenta, segundo os economistas do BCE, os sinais de exuberância que caracterizaram o setor durante a bolha dot-com.
Pelo contrário, a produtividade e as margens das empresas europeias de informação e comunicação estão a aumentar, o ambiente empresarial nos serviços digitais não parece excessivamente exuberante e a adoção de IA pelas empresas da zona euro está a crescer rapidamente. A transformação digital já é visível no investimento: o aumento acumulado do investimento digital na zona euro na última década foi mais de três vezes superior ao crescimento acumulado do PIB nesse período.
A transformação impulsionada pela IA na Europa está, assim, a avançar, mas a um ritmo descrito pelo BCE como “constante, embora pouco espetacular”. A menor dimensão do setor tecnológico europeu e o peso das empresas da chamada “velha economia” nas bolsas da região reduzem o risco de uma correção provocada internamente pela euforia em torno da IA.
Isso não significa, contudo, que a Europa esteja protegida. As bolsas europeias e norte-americanas têm historicamente uma correlação elevada. Uma queda acentuada em Wall Street teria, por isso, fortes probabilidades de se transmitir aos mercados europeus, independentemente de a Europa ter ou não desenvolvido uma bolha tecnológica de dimensão semelhante.
E o risco não termina nos mercados financeiros. Uma correção das ações associadas à IA nos EUA poderia afetar a confiança, as condições de financiamento e as decisões de contratação das empresas europeias. “Um choque da IA nos EUA não se limitaria a ser um problema dos EUA”, concluem os economistas do BCE.
O alerta do BCE não é, portanto, uma previsão sobre o momento de uma eventual queda das bolsas — os próprios autores sublinham que o momento exato de uma correção é impossível de antecipar. É antes um aviso sobre a natureza dos ciclos de investimento associados a grandes revoluções tecnológicas: mesmo quando a tecnologia é genuinamente transformadora e as expectativas dos investidores têm fundamento, a trajetória dos preços dos ativos pode continuar a incluir uma subida muito forte seguida de uma correção.
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