Ex-chefe do BC diz ter elaborado projeto social após sofrer racismo
Em depoimento à PF (Polícia Federal), Belline Santana, ex-chefe de supervisão do BC (Banco Central do Brasil), disse ter elaborado o projeto social "Jovens Potentes" após sofrer racismo dentro da instituição. Belline e o programa se tornaram alvo de investigação por parte da corporação no âmbito do caso Master.
À PF, o responsável pela consultoria jurídica do projeto, Leonardo Augusto Furtado Palhares, disse que Belline recebeu R$ 3,8 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro entre outubro de 2023 e dezembro de 2025 por sua participação no projeto.
Questionado pela corporação, o ex-chefe do BC explicou que o programa tinha o objetivo de capacitar jovens periféricos para o mercado digital e que teve a ideia de desenvolver a iniciativa após episódios de racismo que sofreu no cargo.
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"Eu, no lado pessoal, sempre enfrentei questões que a maioria das pessoas que estão no nosso ambiente não enfrenta, que é a questão racial. Então, mesmo do Banco Central, hoje, até janeiro, que eu era chefe de departamento, eu sofri racismos, é, situação de racismo, aquele racismo estrutural, ou de alguma maneira você não ser considerado competente para estar naquele ambiente", disse em oitiva.
"Eu já tive situação de chegar na reunião, a pessoa perguntar se eu era o motorista da minha equipe. Esse assunto já era de conhecimento de muitas pessoas que eu até brincava que eu, de alguma maneira, era uma anomalia do sistema", continuou.
Durante a oitiva, Belline disse que não conhecia Leonardo Palhares e alegou ter sido procurado por ele entre agosto e setembro de 2023. O contato, de acordo com ele, foi feito por telefone. Na ocasião, Palhares teria citado que Vorcaro foi uma das pessoas que indicou seu nome para o projeto.
A informação veio a público após o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), retirar sigilo de 15 procedimentos relacionados ao caso Master na noite dessa quinta (10), em resposta a um pedido do presidente da Corte, Edson Fachin.
Nesta sexta-feira (11), Fachin acolheu o pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República) e deu 24 horas para que o ministro André Mendonça retire o sigilo total das investigações relacionadas ao Banco Master.
O nome de Belline apareceu algumas vezes nos documentos divulgados. Além da quantia de R$ 3,8 milhões que teria recebido, a investigação da PF aponta que ele recebeu pagamentos de até R$ 760 mil por mês de Vorcaro. Relatório da corporação mostra que a relação deles remete ao menos a outubro de 2023, quando o então funcionário do BC entrou em contato com o ex-banqueiro.
Em nota, a defesa de Belline disse que "a repercussão parcial" dos elementos do caso Master desviam o foco de relações e responsabilidades de "níveis superiores, em diversas instâncias", chamando a exposição midiática dos relatórios de "seletivas e fragmentadas".
No comunicado, os advogados disseram que outros inquéritos "afastam qualquer indicativo de prática irregular ou ilícita" por parte do ex-chefe do BC.
Em relação às acusações de que Belline teria recebido vantagens ilícitas por prestar serviços de concierge ao ex-banqueiro, a nota diz que o depoimento de Leonardo Giunchetti, que falou à PF em condição de testemunha, "esclareceu que tal fato jamais ocorreu, muito menos por indicação ou pagamento do Sr. Daniel Vorcaro". Também afirma que o ex-banqueiro confirmou não ter havido qualquer vantagem da parte de Belline no episódio em razão de sua atuação no BC.
"A defesa reitera, portanto, que o Sr. Belline Santana sempre exerceu suas funções como servidor de carreira do BCB dentro dos estritos limites de suas atribuições, e confia que a análise integral de todos os elementos os quais se retirou o sigilo sejam apreciados com a necessária objetividade, sem conclusões baseadas em recortes ou interpretações descontextualizadas e, em especial, contrariando os próprios desdobramentos da Pet 15504, o que aparentemente é orientado por finalidades escusas", concluiu.
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