Mulher ajuda outros a morrer em filme que discute alienação na Mostra de SP
Uma mulher ajuda outros a morrer, atendendo aqueles que estão à beira do fim. Distante de tudo, cumpre o trabalho de maneira automática, sem dificuldades. Sozinha, exceto pela companhia de um cachorro fiel, ela vaga por um Canadá distópico e pena para se conectar com quem restou.
Em cartaz na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme "A Violência de Ninguém" veio de uma experiência de quase morte, que fez o cineasta Denis Côté passar por um transplante de rim. A luta contra uma doença degenerativa o impediu de filmar em boa saúde por muitos anos.
"A ideia era representar uma dança com a morte", diz ele, que apresenta o longa no evento e é conhecido por explorar personagens isolados e controversos. "Se os filmes anteriores foram bons ou interessantes, não diria que foi por acidente, mas fico feliz de esse último ter sido feito em condições em que podia ver tudo com clareza."
Figura carimbada em festivais, que abraçam seus projetos com mais facilidade que o circuito comercial, o canadense faz filmes que costumam estar à margem, seguindo os protagonistas. Em seu longa de estreia, "Estados à Deriva", por exemplo, Côté mistura ficção e documentário ao retratar o exílio de um homem, que deixa a cidade ao cometer um ato de eutanásia contra a mãe —no Canadá, a morte assistida foi aprovada há 10 anos, mas ainda gera controvérsias pelo mundo.
A trama central foi inventada, mas o título retrata o cotidiano de uma comunidade real, que vive no interior. Com o tempo, o diretor ainda chamou a atenção com "Curling", em que um pai hiperprotetor vê sua vida na floresta ser perturbada por cadáveres bizarros, e obras como "Bestiaire", que repensa o elo entre humanos e animais num zoológico, e "Vic + Flo Viram um Urso", sobre a paixão entre duas ex-presidiárias.
Mais recentemente, em "Paul", o artista explorou questões como o BDSM, que remete a práticas sexuais voltadas a dinâmicas de submissão entre os participantes. Na trama, um rapaz solitário limpa casas de "dominatrixes", mulheres que exercem o papel dominante.
No geral, as produções de Côté são mais voltadas a explorar sensações e aspectos humanos do que a contar narrativas com um. "Gosto de brincar com formas e não sinto necessidade de criar histórias sólidas. Sou atraído por atmosferas, pela variação de tons e maneiras de filmar. É preciso ter cuidado para não rir do público, e não gosto de ser provocador, mas entendo que nem todos vão gostar."
Ele cita filmes como os "gialli", subgênero do terror centrado em assassinos e popularizado por diretores como Dario Argento e Mario Bava. São obras menos lembradas pelos roteiros do que pela forma com que traduzem o medo em imagens e sons que desafiam a realidade.
"O cinema é sobre mistério. É sobre se projetar em direção a ele. Não gosto de filmes que trabalham com evidências", afirma Côté, que, em certas passagens de "A Violência de Ninguém", sobrepõe várias imagens para representar sonhos e impulsos.
"Faço cinema para pessoas curiosas. Nesse filme, trago 117 minutos de humores diferentes, personagens que aparecem do nada, diálogos estranhos. Eu só quero chegar àqueles que, como eu, gostam de brincar com o fogo. Fiz 17 filmes em 21 anos e não tenho tempo para pensar se estou fazendo sucesso ou em o quão famoso sou. Sempre me sinto como um estudante de cinema."
Hoje, adiciona, são poucos os que compram ingressos para um filme sem ter certeza de que irão apreciá-lo, escolhendo a partir de trailers e fórmulas narrativas. Em "A Violência de Ninguém", outra bizarrice que foge a esses padrões é a transformação abrupta a partir da metade, quando Mira, a protagonista vivida por Larissa Corriveau, visita um culto que a remunera e escolhe os morimbundos a serem atendidos.
A partir daí, e sem esclarecer origens, contextos ou oferecer qualquer outro tipo de detalhe sobre esses personagens, a direção reforça a distância entre a personagem e essa família improvável, permeada por laços artificiais e construídos à força.
"Talvez eu estivesse falando sobre mim através de Mira", diz Côté, que resgata a cena em que ela participa, aos fundos, de uma festa do grupo, totalmente isolada. "É uma cena muito longa, muitos não gostam. Eu queria que nos sentíssemos alienados, como ela."
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