Esquerda disputa redes e ruas com bolsonarismo após primeiro turno morno
Embora tenha começado morna, a disputa entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ganhou temperatura no segundo turno. Os campos de batalha foram dois terrenos em que o bolsonarismo levou vantagem nos últimos anos: as redes sociais e as ruas.
No dia 4 de outubro, Lula terminou a primeira rodada eleitoral com 45,16% dos votos válidos, atrás dos 47,03% de Flávio. Na véspera da votação, o senador liderava com folga de mais de 10 pontos o IPD (Índice de Popularidade Digital), da Quaest, e lideranças petistas avaliaram que a comunicação da campanha precisava de mudanças profundas.
A reação da esquerda começou menos de 48h após o resultado, através de um velho aliado da campanha. O deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) decidiu transformar o canal de WhatsApp "Exército do Lula", criado em abril, em um quartel-general digital.
Segundo Janones, o canal tinha cerca de 50 mil membros até o primeiro turno. Na manhã de sábado (24), reunia mais de 10,6 milhões. Ali, o parlamentar, que participou da campanha de Lula em 2022, mas teve atuação discreta no primeiro turno, distribui missões aos apoiadores. O objetivo é coordenar postagens, criando capilaridade semelhante à de produtores de conteúdo de direita.
Com a reação, Lula passou à frente de Flávio no IPD da Quaest dias após o primeiro turno e chegou a 83,3 pontos entre 8 e 11 de outubro.
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Os dois candidatos adotaram estratégias diferentes nas redes, segundo o instituto de pesquisa. Na quinta-feira (22), Lula publicou 109 vezes nas redes e concentrou 94% dos comentários recebidos pelos dois candidatos. Para comparação, no dia do primeiro turno, Flávio havia ficado com 88%.
O senador levou vantagem nas curtidas: nesta quinta, fez 14 publicações, com média de 175 mil curtidas cada uma, ante 125 mil do petista.
Desde o debate da Band, Lula e Flávio ganharam números semelhantes de seguidores no Instagram, cerca de 650 mil e 620 mil, respectivamente. As buscas por Flávio no Google subiram no período, enquanto as por Lula caem há três dias. O indicador mede a atenção dada ao termo, não a preferência. Janones tem orientado a "tropa digital" do presidente a impulsionar buscas contra o adversário.
Diferentemente do primeiro turno, em que nenhum dos lados levou muita gente às ruas, a mobilização da reta final saiu das telas.
"No primeiro turno, a campanha de Lula apostou em uma estratégia de discrição. Menos exposição e foco nas políticas públicas do governo. Flávio foi beneficiado indiretamente pelos escândalos envolvendo o STF", diz Márcio Moretto, professor da Universidade de São Paulo e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, grupo de pesquisa ligado ao Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).
No radar do grupo, não houve ato significativo a favor do petista na primeira rodada. Para Moretto, parecia haver uma sensação, entre os apoiadores de Lula, de que o presidente estava à frente e que, portanto, seria melhor jogar parado. "No fim, o resultado das urnas mostrou que não estava", diz.
Mesmo os de Flávio foram pequenos no primeiro turno, comparados ao último ciclo de manifestações nas ruas. Os pesquisadores acompanharam dois atos favoráveis ao senador —um comício em Copacabana em agosto, no qual o Monitor contou 8.900 pessoas, e outro no 7 de Setembro na avenida Paulista, que reuniu 28 mil pessoas.
Depois do dia 4 de outubro, a história foi outra. "No segundo turno foram tantos atos que não demos conta de acompanhar tudo", diz o professor.
No dia 13 de outubro, atos a favor da reeleição de Lula foram registrados em Brasília, São Paulo e em ao menos outras nove capitais, muitos deles convocados por entidades estudantis. Na capital federal, milhares de pessoas ocuparam a Esplanada dos Ministérios.
As duas campanhas buscaram a avenida Paulista para reunir apoiadores. No domingo passado (18), Flávio trouxe mais de 70 mil ao cartão-postal de São Paulo, segundo a contagem da Cebrap.
O grupo de pesquisa não estimou o público do ato de esquerda no fim de semana anterior porque não teve autorização da campanha do presidente Lula para sobrevoar o local com o drone. A manifestação se estendeu por cerca de 12 quarteirões.
Neste sábado (24), véspera da eleição, ambos os lados mobilizaram multidões Brasil afora.
Lula lotou a avenida Paulista. Ao menos 12 quarteirões da avenida foram ocupados por manifestantes, nos dois sentidos da via. Antes, o petista esteve em caminhada no Rio de Janeiro.
Também na capital fluminense, Flávio Bolsonaro (PL) encheu as ruas da Barra da Tijuca. Pela manhã, o candidato do PL promoveu uma motociata em Belo Horizonte.
"O que vimos foi uma disputa por ampliar a rejeição do adversário", diz Moretto. "Flávio focou nas alianças com os candidatos de direita derrotados. O campo lulista foi massivamente pras ruas e pras redes. Não quero dizer que Flávio não mobilizou pessoas, mas o campo bolsonarista vem fazendo isso há alguns anos. A novidade foi ver que Lula foi capaz de equiparar essa mobilização no segundo turno."
As ruas foram ocupadas sobretudo por movimentos de direita desde junho de 2013, com grupos como MBL e Vem Pra Rua, que depois se aproximaram do bolsonarismo, afirma Tathiana Chicarino, cientista política e coordenadora da graduação em Sociologia e Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).
Nesse período houve um recuo da esquerda tanto nos espaços digitais quanto nas ruas, acrescenta. A mudança neste segundo turno foi motivada pelo medo de que a extrema direita chegasse à Presidência, o que reuniu grupos do centro e da esquerda. Chicarino diz que não há separação entre online e offline e que as redes levam pessoas às ruas quando elas veem conhecidos postando fotos e convocações.
No caso de Janones, afirma que as missões são efetivas porque orientadas por um prazo. O crescimento do canal de 7 para 10 milhões de usuários, por exemplo, aconteceu depois que o deputado afirmou que pararia de publicar novas tarefas até que a meta fosse atingida.
O deputado realizou uma transmissão ao vivo de 24 horas a partir do fim do debate da TV Globo, nesta sexta-feira (23).
Com a entrada de Janones no ringue, "há uma virada de narrativa sobre a mobilização", diz Anna Bentes, professora da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getúlio Vargas. "É uma tática de guerra; as pessoas são ‘soldados’. De alguma maneira, isso está fazendo diferença. As pesquisas de intenção de voto mostram que a rejeição a Lula diminuiu."
"Há um certo despertar da esquerda. Todas as mobilizações do campo progressista têm sido no sentido de operar segundo as lógicas do algoritmo, algo que o campo da direita já tinha entendido há muito tempo", afirma Bentes.
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