Como funciona a doação de medula óssea? Confira passo a passo
Nesta terça-feira (22), é celebrado o Dia Mundial do Doador de Medula Óssea. A data chama a atenção para um ato voluntário que pode salvar pacientes com doenças do sangue, como leucemias, linfomas e anemias graves.
A medula óssea é um tecido gelatinoso no interior dos ossos que funciona como uma fábrica de sangue. Nela ficam células-tronco hematopoéticas, que produzem glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas.
Quando adoece, a medula produz células defeituosas ou deixa de fabricar elementos essenciais à defesa, oxigenação e coagulação. O transplante surge para reverter esse problema em duas modalidades.
No autólogo, são usadas células-tronco do próprio paciente. Já o alogênico depende de uma doação de outra pessoa. Ele é indicado em casos mais graves, como leucemias agudas e anemia aplástica grave.
A busca por doadores começa entre familiares de primeiro grau do paciente. Como herdamos nossas características genéticas metade do pai e metade da mãe, irmãos têm cerca de 25% de chance de ter o mesmo perfil de compatibilidade.
Caso não haja parente compatível, recorre-se ao Redome (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea) para cruzar dados genéticos do paciente com os de voluntários. A chance de encontrar uma compatibilidade é de cerca de 1 em 100 mil pessoas.
Como ser doador um doador de medula?
É preciso se registrar no Redome. O cadastro é feito em hemocentros e hemonúcleos habilitados em todo o país. Os endereços estão disponíveis no site do Redome (redome.inca.gov.br) no tópico "Quero ser um doador".
São aceitas pessoas de 18 a 35 anos em bom estado geral de saúde. Algumas doenças e condições podem ser impeditivas, como ter HIV, hepatite, câncer, doenças autoimunes, epilepsia, ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), diabetes, asma, hipotireoidismo, hipertireoidismo, tuberculose, esquizofrenia e uso de drogas. As especificações para cada caso são explicadas no tópico Condições Impeditivas do Cadastro e da Doação (redome.inca.gov.br/doencas-impeditivas-do-cadastro-e-da-doacao).
O voluntário precisa apresentar documento com foto, preencher a ficha cadastral, assinar um termo de consentimento e retirar uma amostra de 5 mL de sangue.
A amostra passa por um exame que determina o HLA (Antígeno Leucocitário Humano), conjunto de marcadores genéticos que funciona como identidade do sistema imunológico.
O que acontece depois do cadastro?
Os dados do voluntário ficam no banco até ele completar 60 anos, sendo cruzados continuamente com os de pacientes que aguardam transplante.
Uma compatibilidade pode surgir semanas, meses ou anos depois —assim como nunca. "Cadastrar não significa que a pessoa vai imediatamente doar", afirma o hematologista Renato Centrone.
Se houver possível compatibilidade, o Redome entra em contato com o voluntário para confirmar se ele continua disposto e disponível. Depois, são feitos novos exames para confirmar o HLA e avaliar o estado de saúde do doador.
É importante manter telefone, email e endereço atualizados no aplicativo ou site do Redome. "Estima-se que cerca de 30% dos voluntários chamados não são encontrados quando um paciente precisa da doação", diz Vanderson Rocha, hematologista e professor titular da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).
Como é feita a coleta das células?
Há duas formas principais, definidas de acordo com a doença do paciente, o tipo de transplante e a avaliação médica junto ao voluntário.
A primeira é a aférese, feita sem cirurgia. Nos dias anteriores, o voluntário recebe uma medicação que estimula a produção de células-tronco e sua passagem temporária para o sangue.
Na coleta, o sangue sai por uma veia do braço, passa por uma máquina que separa as células-tronco e retorna pelo outro braço. O processo dura algumas horas. A medicação pode causar dores no corpo, nos ossos e sensação de gripe.
A outra é a coleta direta no osso da bacia, por punções com agulhas específicas. A medula espinhal, que fica na coluna, não é atingida.
O procedimento é feito em centro cirúrgico, sob anestesia, dura cerca de uma hora e meia e exige internação de cerca de 24 horas. Pode haver dor ou desconforto leve na região, controlado com analgésicos.
A doação deixa o organismo sem medula?
Não. A medula óssea se regenera rapidamente e volta ao volume normal em 15 dias.
"O organismo repõe essas células da mesma forma que recompõe o sangue após uma doação convencional, sem que o volume retirado faça falta ao doador", explica Nelson Hamerschlak, hematologista e coordenador do Programa de Hematologia, Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular do Einstein Hospital Israelita.
Quantas vezes é possível doar?
Não há limite numérico fixado, mas a maioria doa apenas uma vez porque é baixa a chance de encontrar outra pessoa compatível.
Uma segunda doação pode ocorrer para o mesmo paciente, se ele precisar de reforço no tratamento. Os protocolos de saúde exigem um intervalo mínimo de 12 meses entre os procedimentos.
Para onde vai a minha doação?
A doação pode ir para qualquer cidade do Brasil ou até para outro país. O Redome tem quase 6 milhões de cadastros e é o terceiro maior registro público do mundo, conectado a bancos internacionais.
No Brasil, a diversidade genética torna a composição do banco especialmente importante.
Como os perfis de HLA variam de acordo com a ancestralidade, grupos historicamente menos representados podem ter mais dificuldade para encontrar um doador compatível.
"Se a gente começa a coletar muitas amostras sem olhar para esses nichos, começa a coletar mais do mesmo", diz Hamerschlak.
O médico defende ampliar a presença nos registros de pessoas pretas, pardas e indígenas, para aumentar as chances entre diferentes perfis de pacientes.
Como as células chegam ao paciente?
Após a coleta, as células são acondicionadas em recipientes térmicos e transportadas com urgência ao hospital, sob coordenação dos registros nacional e internacional. Elas têm estabilidade biológica de cerca de 48 a 72 horas.
No hospital, as células são administradas por uma veia, como uma transfusão de sangue, sem cirurgia. Elas chegam à medula óssea e passam a produzir novas células sanguíneas.
A chamada "pega do enxerto", quando começam a se multiplicar e reconstruir o sistema imunológico, ocorre em média entre duas e quatro semanas após a infusão.
O doador pode conhecer o paciente?
Inicialmente, não. No Brasil, cadastro, testes e doação são anônimos. Aos seis meses, o doador pode solicitar um boletim sobre o estado de saúde do paciente, intermediado pela equipe médica. Após 12 meses, pode enviar mensagem anônima de até seis linhas, sem dados pessoais.
Após 18 meses, ambos podem pedir a quebra do anonimato para trocar contatos e se encontrar, com autorização médica e concordância mútua. Para doações a pacientes no exterior, valem as regras do país do receptor, que podem impedir o contato mesmo depois desses prazos.
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