Os bastidores da saída de Cristiano Ronaldo

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Esta é a história do dia da Rádio Observador: os bastidores da saída de Cristiano Ronaldo. "Aos portugueses: chegou o dia de devolver a camisola sete da seleção de todos nós." Na manhã de quinta-feira, rebenta a bomba. Cristiano Ronaldo anuncia o fim da carreira a serviço da Seleção Nacional. Depois das zangas, das polémicas e dos castigos, Portugal preparava-se para novos jogos da Liga das Nações e na véspera da convocatória, o capitão da seleção punha um ponto final nesta história. Hoje vou conversar com a jornalista de esporte do Observador, a Mariana Fernandes, sobre os bastidores desta decisão. Quando foi tomada? Por que foi tomada e anunciada agora? Quem soube antes do anúncio do Instagram? Que manobras houve nos bastidores para demover Ronaldo? E como é que Jorge Jesus se posicionou nestes dias em que o braço de ferro entre os dois nunca perdeu força? Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 06 de novembro. Olá, Mariana.
Olá, Pedro.
Esta notícia deixou toda gente mais ou menos em choque, mais ou menos, porque já sabíamos que este dia estava prestes a chegar. Já havia sinais disso nos últimos meses, mas ninguém estava à espera que fosse ontem que fosse anunciada esta decisão. Eu digo ninguém, mas quer dizer, a Federação Portuguesa de Futebol já sabia exatamente o que ia acontecer.
Sabia, mas sabia com muito pouco tempo de antecedência. E mesmo nós, e aqui nós digo esta bolha dos jornalistas, dos comentadores, dos assessores, soubemos com 10 minutinhos, um quarto de hora de antecipação, que ia surgir uma bomba.
Ou seja, não sabiam o que era, sabiam que ia sair uma bomba.
Sim, tendo em conta os últimos meses, a probabilidade de essa bomba ter Cristiano Ronaldo como protagonista era muito forte, sendo que existia também aqui a possibilidade de a corda partir do outro lado, ou seja, de ser uma bomba que acabava com Jorge Jesus de fora. E por quê? Porque a verdade é que chegamos aqui, ou neste caso, Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus chegaram mesmo a um ponto em que ou era um ou era outro na Seleção Nacional. E foi basicamente isso que aconteceu. Ou seja, Cristiano Ronaldo sabia que ia ser convocado hoje por Jorge Jesus. Sabia que ia fazer parte da convocatória de Jorge Jesus para os próximos dois jogos da Seleção Nacional e não queria ser convocado. E deixou isso bem claro a Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, que não pretendia ser convocado e não pretendia porque achava que passou demasiado, ou neste caso, passou pouco tempo daquilo que aconteceu no Estádio de Copenhaga, que as coisas ainda não estavam resolvidas, ainda não estavam sanadas com Jorge Jesus e não pretendia ser convocado enquanto esta equipa técnica ainda estivesse em funções. Nada do que aconteceu em Copenhaga estava resolvido entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus. Pedro Proença tentou fazer um pouquinho de controle de danos. Tentou também perceber, do lado de Jorge Jesus, até que ponto é que o selecionador estaria disposto a não convocar Cristiano Ronaldo para adiar este problema até março, até a próxima data dos compromissos das seleções nacionais. Jorge Jesus nunca quis fazê-lo, estava sempre disponível e bastante intransigente na ideia de convocar Cristiano Ronaldo. Ronaldo antecipou-se, ou seja, ao invés de esperar por essa convocatória e dizer que não queria ser convocado, dizer que não queria estar disponível, neste caso, não para a seleção, mas para Jorge Jesus, acaba por antecipar a decisão e comunica isso a Pedro Proença muito pouco tempo antes de divulgar o vídeo, nunca o comunica a Jorge Jesus.
Portanto, ele chega a falar com o presidente da federação uns minutos antes do anúncio para comunicar que vai deixar de jogar pela Seleção Nacional. Antes de irmos ao ponto que nos leva até ao anúncio público da saída, tu falaste aí de uma questão de calendário. Portanto, Cristiano Ronaldo tinha nas contas que estava a fazer, que a situação se prolongasse até março. Pelo menos até março, haveria tempo para resolver de alguma forma esta questão. Essa resolução, de acordo com as informações que tu tens, significava que as duas partes, portanto, Jorge Jesus e ele, Cristiano Ronaldo, iriam chegar a um entendimento ou essa solução na cabeça de Cristiano Ronaldo passaria pelo afastamento da equipa técnica e então aí ele regressaria à seleção?
Cristiano Ronaldo sempre acreditou que a corda, digamos assim, iria partir do lado de Jorge Jesus. Ou seja, que sempre existia ou que acabaria por existir esta solução, esta possibilidade de ser Jorge Jesus a sair, a equipa técnica a sair, fosse pelo seu pé e porque acreditava que já não existiam condições ou fosse por decisão de Pedro Proença, neste caso, porque escolhia, digamos assim, ou optava pelo lado de Cristiano Ronaldo e não pelo lado de Jorge Jesus. A questão é que Jorge Jesus conseguiu quatro vitórias em quatro jornadas da Liga das Nações, ou seja, seria muito complicado para Pedro Proença, tendo em conta até que Jorge Jesus foi uma escolha sua, talvez a primeira grande decisão de Pedro Proença enquanto presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
Que é recente, ainda por cima.
Que é recente e porque herdou Roberto Martinez de Fernando Gomes, ou seja, a sua primeira grande decisão é Jorge Jesus, é escolher o novo selecionador nacional. Portanto, meses depois, sem qualquer tipo de razão desportiva para isso, teria de justificar essa decisão de forma difícil, digamos assim, com contornos muito difíceis. Mas também porque eu acho que Cristiano Ronaldo estava aqui a jogar um pouco com o timing do castigo. Ou seja, Cristiano Ronaldo estava à espera de que o castigo, a tal suspensão por ter abandonado o estágio, fosse mais longo ou durasse mais tempo.
Já agora, vamos olhar para isso também, porque tu no teu artigo que escreves sobre os bastidores desta saída, tocas nessa parte também. Cristiano Ronaldo Estava a contar com dias diferentes daqueles que efetivamente foram contabilizados para a suspensão que lhe foi atribuída.
Sim, todos estávamos. Quando sai aquele castigo, é de um mês, o problema, a grande questão é que 19 dias desse mês foram abatidos porque Cristiano Ronaldo já estava suspenso preventivamente. Portanto, o Conselho Disciplinar da Federação Portuguesa de Futebol acaba por decretar um castigo que acabou na semana passada, no passado dia 30 de outubro. E isso faz com que o Cristiano Ronaldo já estivesse apto para ser convocado esta semana. E o entorno de Cristiano Ronaldo sempre acreditou ou alimentou a ideia de que Cristiano Ronaldo ainda estaria suspenso nesta altura. Portanto, não seria uma questão para este estágio de novembro, seria um problema para março. E aí todas as questões estariam do lado de Jorge Jesus, que teria depois, em março, de decidir convocá-lo ou não, e Cristiano Ronaldo então ou tomaria uma decisão igual, ou tomaria a decisão de recusar essa convocatória ou de aceitar essa convocatória. Mas existia sempre essa ideia de que seria um problema para março e não um problema agora para novembro. Esta questão de o castigo ter terminado em 30 de outubro, uma semana antes da convocatória, acabou por surpreender Cristiano Ronaldo e por apressar toda esta decisão. A questão de Pedro Proença aqui é que Pedro Proença e a Federação Portuguesa de Futebol sempre alimentaram a ideia e o objetivo de que Cristiano Ronaldo iria regressar.
Ele próprio, de certa forma, o fez também naquela carta que tornou pública sobre aquilo que se tinha passado com Jorge Jesus. Ele falava que seria natural que lhe fossem aplicadas penas por aquilo que ele fez quando abandonou a Dinamarca e ele dizia que se estivesse em condições físicas, que regressaria para o jogo da seleção. Portanto, o próprio Cristiano Ronaldo admitia essa possibilidade.
Sim, e é uma possibilidade que ele alimentou, e alimentou ter essas conversas com Pedro Proença. A questão é que Cristiano Ronaldo estava disponível para voltar à Seleção Nacional, não estava disponível para voltar às ordens de Jorge Jesus. E eu acho que na altura em que Cristiano Ronaldo escreve essa longa carta, ainda alimentava essa esperança de que Jorge Jesus eventualmente pudesse deixar de ser o selecionador nacional, e aí Cristiano Ronaldo voltaria em todo o seu esplendor como capitão da Seleção Nacional. Isso não aconteceu, e Pedro Proença também deixou sempre bem claro a Cristiano Ronaldo ao longo das últimas semanas, pelo menos ao longo das últimas três semanas, desde essa carta, que isso não iria acontecer, que Jorge Jesus continuaria a ser o selecionador nacional. E Cristiano Ronaldo aí acabou por perceber que não tinha margem de manobra: ou de fato aceitava essa convocatória e acabava por tentar resolver internamente, ou não, o seu diferendo com Jorge Jesus, ou não aceitava a convocatória, algo que obviamente era uma situação ainda mais desagradável do que esta que estamos a viver, ou tomava esta decisão, antecipava-se e abandonava a Seleção Nacional para não chegar a ser convocado. O que eu acho que pode ser aqui também interpretado às vezes, e muitas vezes por todos nós, como um fait divers, como uma espécie de pormenor que acaba por ser desvalorizado e que eu acho que nunca deve ser desvalorizado, é uma declaração de Elma Aveiro no meio de tudo isto. Por muito que todos nós tenhamos, por vezes, quase uma precipitação para achar que as irmãs de Cristiano Ronaldo falam muitas das vezes sem autorização do irmão, dizem muitas vezes aquilo que lhes passa pela cabeça e não necessariamente aquilo que passa pela cabeça do irmão, eu acho que Elma Aveiro tinha razão quando diz, eu creio que era dia 14 de outubro, que Cristiano Ronaldo não iria voltar à seleção, que estava muito magoado, que dificilmente faria as pazes com Jorge Jesus, que estava mais para o não do que para o sim, como ela disse na altura. Custa muito acreditar que Cristiano Ronaldo, com mais de 20 anos de exposição pública, sendo essa persona pública também, permitisse, e aqui permitisse com muitas aspas, mas permitisse que a irmã tivesse este tipo de declarações e uma declaração tão final e definitiva.
Sem ele saber ou sem ele, pelo menos, ter já dado sinais disso.
Eu acho que a partir do momento em que Pedro Proença disse a Cristiano Ronaldo que Jorge Jesus seria sempre o selecionador nacional, Ronaldo percebeu que então teria de ser ele a sair pelo próprio pé.
Eu sei que estamos a falar de Cristiano Ronaldo, mas confesso que não estava no meu totobola que tu citasses Elma Aveiro, mas aqui está, e foi uma citação bem apropriada. Mariana, tu há pouco dizias que Cristiano Ronaldo comunicou uns minutos antes a sua decisão, antes de a tornar pública, a Pedro Proença, mas não falou com Jorge Jesus. Qual é que é o estado da relação deles neste momento? Não há sequer conversa entre um e outro?
Não, o estado da relação é absolutamente inexistente. Pedro Proença alimentava ainda a esperança, até este anúncio de ontem, alimentava a esperança de, tendo em conta que Jorge Jesus insistia na ideia de convocar Cristiano Ronaldo, mediar uma conversa, uma videoconferência, uma chamada telefônica entre os dois. Era essa a ideia de Pedro Proença. Fosse ontem, durante o dia, fosse ainda esta manhã antes da convocatória, a ideia de Pedro Proença era servir um bocadinho como um elo de ligação entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo e colocar as duas partes a falar antes de Jorge Jesus surgir na conferência de imprensa e dizer que Cristiano Ronaldo estava novamente convocado para a Seleção Nacional. Essa conversa não chegou a acontecer e Cristiano Ronaldo deixou bem claro a Pedro Proença que não queria falar com Jorge Jesus antes ainda deste vídeo, antes ainda de abandonar a seleção, e também não o fez na altura, na antecâmara da publicação do vídeo, ou seja, informou Pedro Proença de uma forma até quase institucional, informou a Federação Portuguesa de Futebol de que iria abandonar a seleção. Não falou com Jorge Jesus durante todo o processo.
E agora, há um vencedor claro deste duelo, que é Jorge Jesus, também por força dos resultados que conseguiu obter ao longo das últimas jornadas da seleção. Ele sai reforçado disto. Ele sai reforçado como líder, do teu ponto de vista?
Jorge Jesus sai absolutamente reforçado desta pequena batalha por ganhar. Falou-se muito na altura em que Jorge Jesus foi escolhido para substituir Roberto Martinez, que Cristiano Ronaldo, pela primeira vez na carreira, ou pelo menos na primeira vez na sua carreira internacional, na Seleção Nacional, tinha pela sua frente um ego tão grande ou maior do que o seu. Ou seja, Jorge Jesus muito dificilmente, ou quase de forma impossível, iria pôr os interesses de Cristiano Ronaldo à frente dos seus próprios interesses, portanto, neste caso, dos interesses da Seleção Nacional, na medida em que o sucesso da seleção é o sucesso de Jorge Jesus. E isso ficou muito claro ao longo de todo este processo. Por muito que Jorge Jesus tenha tentado, à sua maneira, na sua característica maneira de comunicar, pedir desculpa ou pelo menos dizer que errou na questão de ter posto Cristiano Ronaldo a aquecer durante meia hora e não o ter colocado no jogo contra a Noruega, ter tentado aqui sempre elogiar Cristiano Ronaldo, dizer que é uma figura. Ao mesmo tempo, Jorge Jesus disse sempre que ter um estatuto é muito diferente de ter um tratamento especial e que era ele que estava ali para liderar aquela equipe, que é ele agora o líder daquela equipe. E durante décadas foi Cristiano Ronaldo o líder das equipes, independentemente dos selecionadores que lá estavam. E eu acho que foi isso que mudou nessa equipe. Fala-se muito, ou já ouvimos muita gente dizer ao longo do dia, que há um vazio ou que vai existir um vazio de liderança nesta Seleção Nacional. Eu não poderia estar mais em desacordo, porque não só esta Seleção Nacional finalmente tem um líder sentado no banco de suplentes, em Jorge Jesus, como tem vários líderes que já surgiram dentro do plantel e que acabavam por não ter espaço, porque Cristiano Ronaldo obviamente escava tudo à sua volta. E aqui estou a falar, evidentemente, de Bruno Fernandes, de Bernardo Silva, de Rúben Dias. Se há coisa que Portugal tem são líderes. Perdeu o seu maior líder, perdeu a sua maior figura, isso é claro e evidente, obviamente, mas não está, nem nunca estará, órfã de líderes.
Para terminar, nós vimos há coisa de um mês o jogo de despedida de Lionel Messi, para fazer aqui comparação de super grandes estrelas. O que vai acontecer agora na despedida de Cristiano Ronaldo? Vamos ter uma despedida simbólica? Vamos ter um jogo, os fãs podem despedir-se dele ou isto vai acabar assim?
Eu acho que essa é a maior incógnita nesta altura. A Federação Portuguesa de Futebol, no comunicado que acaba por publicar no seu site oficial, diz claramente que se recusa a aceitar esta despedida de Cristiano Ronaldo sem que seja devidamente homenageado, sem um tributo devido a tudo aquilo que fez ao longo de mais de 20 anos pela Seleção Nacional. Cristiano Ronaldo também deixou muito claro naquela carta que se voltasse, ia voltar, seria sempre a competir. Portanto, deixa também bastante vincado que não queria voltar para jogos de despedida, que se voltasse, seria sempre a competir e seria sempre para jogar. Eu acho que Cristiano Ronaldo não quer fazer um jogo de despedida, ou seja, não quer voltar para jogar durante 20 minutos, meia hora, uma primeira ou uma segunda parte para fazer o último jogo. Acho que o último jogo de Cristiano Ronaldo já aconteceu e foi contra o País de Gales no final de setembro, acredite-se ou não. Acho, obviamente, que existirá sempre um momento de tributo, um momento de homenagem. Cristiano Ronaldo voltará sempre a algum jogo da Seleção Nacional para ser homenageado de alguma maneira e a Federação Portuguesa de Futebol e Pedro Proença irão sempre insistir para que isso aconteça. Resta saber em que moldes. Agora tenho muitas dificuldades em acreditar nesse cenário, que Cristiano Ronaldo voltará a vestir a camisola e voltará a entrar em campo pela Seleção Nacional.
Mariana, obrigado.
Obrigada.
Eu conversei hoje com a jornalista de desporto do Observador sobre o anúncio de Cristiano Ronaldo, que foi feito de surpresa na manhã de quinta-feira. Uma despedida oficial da Seleção Nacional que em menos de seis horas já tinha mais de 20 milhões de visualizações. Na primeira reação depois deste anúncio, Jorge Jesus explicou que a decisão é exclusivamente de Ronaldo. Garantiu ter pedido ao capitão para continuar porque precisava dele, mas terminou a dizer que aceitava a decisão. Portugal joga mais uma partida da fase de grupos da Liga das Nações dia 14 de novembro, frente à Dinamarca. Uma nova era começa na seleção, agora já sem Cristiano Ronaldo. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.
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