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Sunday, September 20, 2026

O confronto na cultura de cancelamento

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A polémica em torno de Sidney Sweeney é um exemplo revelador da transformação que atravessa a direita e a esquerda contemporâneas. Calendários de bombeiros seminus são vistos como divertidos, fotografias de atletas como Megan Rapinoe ou Serena Williams nunca provocaram crises morais, e a exposição do corpo em campanhas públicas é, em geral, tratada como irrelevante. Porém, quando Sidney Sweeney decide mostrar o seu corpo, instala‑se um escândalo: fala‑se em “perversão”, “indignidade” e “sexualização do desporto feminino”. A reação não é proporcional ao gesto, mas à identidade de quem o pratica. O problema não parece ser a nudez ou o respeito pelo corpo feminino; o problema parece ser quem se despe – e se essa pessoa é politicamente conveniente para quem se indigna ou apoia.

Este puritanismo seletivo é uma das faces da cultura de cancelamento que a esquerda desenvolveu ao longo das últimas décadas, mas que a direita passou anos a denunciar e que hoje reproduz com igual fervor – ainda que em sentido inverso. O caso Sweeney torna isso evidente: a esquerda reage com indignação moral, denunciando “perversão”, “indignidade” ou “sexualização do desporto feminino”, enquanto a direita a transforma imediatamente num símbolo anti‑woke, celebrando a mesma atitude como expressão de liberdade individual e resistência cultural.

Por outra palavras, o que ontem era celebrado pela esquerda como autonomia corporal passa a ser condenado quando protagonizado por alguém que não se enquadra no seu imaginário político; e aquilo que a direita antes criticava como “exposição indevida” passa a ser defendido quando quem o pratica é útil para a sua narrativa contra o progressismo identitário. A mesma atitude é lida de forma oposta consoante o campo ideológico: indignação quando vem do adversário, aplauso quando vem do aliado.

Portanto, o que este episódio revela não é um debate genuíno sobre nudez, sexualização ou respeito pelo corpo feminino, mas a aplicação seletiva de critérios morais conforme a identidade política de quem age. Não há qualquer princípio coerente aqui. Apenas uma moralidade instrumental, moldada pela conveniência tribal do momento.

O mesmo padrão surge noutra área ainda mais grave: a tolerância a comportamentos que a própria direita dizia considerar intoleráveis. Uma sondagem recente nos Estados Unidos revelou que dois em cada três votantes MAGA apoiarão o candidato republicano mesmo que este tenha sido acusado de agressão sexual. Nada disto é surpreendente. pois muitos dos mesmos eleitores que hoje se indignam com determinados comportamentos votaram em Donald Trump, apesar de este ter sido condenado num processo civil e obrigado a indemnizar uma mulher por abuso sexual e difamação.

A mensagem implícita é devastadora: desde que o agressor seja republicano, existe uma extraordinária capacidade para relativizar aquilo que, se fosse praticado por um adversário político, seria apresentado como prova definitiva da sua indignidade moral. Mais uma ilustração de que o problema deixou de ser o comportamento passando a ser a identidade e a afiliação política de quem o pratica.

É aqui que a transformação da direita norte‑americana se torna particularmente preocupante. O movimento MAGA não se limitou a alterar prioridades políticas; subverteu conceitos e valores que a própria direita afirmava defender: responsabilidade individual, defesa da família, moralidade, respeito pela lei, decência pública, autoridade das instituições e responsabilização pelos próprios actos. O que antes era princípio universal tornou‑se arma tribal. Aquilo que é imperdoável no adversário passa a desculpável quando praticado por alguém “do nosso lado”.

A ciência política tem a psicologia como um velho e bom aliado para a análise política. Na minha opinião, a antropologia é igualmente útil para compreender fenómenos políticos. Especialmente aqueles que hoje parecem novos, mas não o são: a cultura do cancelamento, o tribalismo político e aquilo a que tenho chamado democracia das claques. Estes comportamentos antecedem as redes sociais e atravessam séculos de vida comunitária, religiosa e política. O que mudou não foi o mecanismo, mas a velocidade, a escala e a visibilidade que a tecnologia lhes deu.

Chamo democracia das claques à lógica política em que deixamos de avaliar ideias e comportamentos pelos seus méritos e passamos a julgá‑los pela identidade de quem os pratica. A pergunta essencial – “isto é certo ou errado?” – foi substituída por outra, reveladora da nossa degradação cívica: “quem fez isto?”. Se é alguém do nosso lado, justificamos; se é alguém do lado contrário, condenamos.

Este padrão não é exclusivo de nenhuma família política. A esquerda desenvolveu a sua cultura de cancelamento, frequentemente associada ao ambiente universitário e às políticas identitárias; mas a direita, sobretudo desde o avanço dos populismos contemporâneos, construiu a sua própria versão igualmente moralista, igualmente punitiva, igualmente empenhada em silenciar dissidentes internos e externos. A direita atual replica comportamentos que antes criticava na esquerda, tal como a esquerda passou décadas a denunciar ditaduras de direita enquanto relativizava ditaduras marxistas. O problema não está no conteúdo ideológico, mas na assimetria moral: o mesmo facto é interpretado de forma oposta consoante o protagonista. Recorrendo ao contexto português, se o Chega vota com o PS, lê‑se de uma maneira; se o PSD faz o mesmo, lê‑se de outra. O facto e o tema político tornam‑se secundários.

Esta lógica converte a política num confronto tribal entre “nós” e “eles”. Já não procuramos saber se uma proposta é boa ou justa; apenas quem a apresenta. Quando é o adversário, indignamo‑nos; quando são os nossos, relativizamos ou fingimos que não vimos. A lealdade partidária passa a valer mais do que a coerência, e os princípios transformam‑se em instrumentos usados seletivamente. É assim que se corrói o pensamento crítico.

A consequência é devastadora para a vida democrática. A crítica interna torna‑se quase impossível: quem critica os adversários é aplaudido, quem critica os seus é acusado de traição. Instala‑se uma pressão permanente para defender o grupo, mesmo quando sabemos que o grupo está errado. O cidadão dá lugar ao adepto.

Como sabemos, uma democracia não vive apenas de instituições; precisa de cidadãos capazes de reconhecer erros no seu campo político e acertos no campo adversário. Ora, quando a discussão pública se reduz a aplausos e assobios, perde‑se a liberdade de pensar e de julgar independentemente da claque.

Não estou a defender política sem convicções. Antes defendo que as convicções não se transformem em fidelidades cegas. Se uma atitude é errada, é errada independentemente da camisola de quem a pratica. Se uma liberdade merece ser defendida, merece sê‑lo mesmo quando protege quem nos incomoda.

É por isso que a expressão democracia das claques descreve tão bem o debate político atual: mantemos as formas da democracia, mas o espírito crítico que deveria sustentá‑la foi substituído por tribalismo. Em vez de cidadãos, adeptos; em vez de argumentos, palavras de ordem; em vez de princípios, conveniências. Consequentemente, a democracia perde a sua essência.

O que está em causa não é apenas a coerência política, mas a integridade moral do debate público. Quando a identidade substitui o princípio, quando a lealdade partidária passa a valer mais do que a coerência, a política deixa de ser um espaço de verdade e passa a ser um campo de claques polarizadas.

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