A grande divisão

Há imbecis e fanáticos (qualidades que normalmente coincidem e convergem) em todos os quadrantes políticos. Talvez mais nos extremos, admito, mas, nestes tempos de bipolarizações internas, tenho visto muita gente rigorosamente ao centro extremar-se de forma cega e acéfala.
De resto, o tempo é de polarização e de vitórias ou derrotas tangenciais. E é neste tempo que vemos a Esquerda, mas também o Centro, tomados por uma obsessão contra a “extrema-direita” que parece mobilizar todas as suas energias e nortear todas as suas estratégias e tácticas políticas.
É compreensível, porque parece ser agora a dita direita radical que domina a agenda, e o Centro e a Esquerda as forças reaccionárias que se juntam e mobilizam para sobreviver, sob o slogan “Nem mais um voto para a Extrema-Direita”. Tão compreensível como era, há 52 anos, o “Nem mais um soldado para as colónias” que levou a “vanguarda esclarecida” do MFA a aplicar, sem o saber, o famoso conselho de Orwell de que a melhor forma de acabar uma guerra era perdê-la – via rápida para a “descolonização exemplar”.
Quem agora dita a agenda
Mas, feliz ou infelizmente, os “bons velhos tempos” de júbilo antifascista são hoje uma memória distante. No mundo euroamericano, as notícias não têm sido boas para as esquerdas e para os centrões, tornados seus aliados e cúmplices para reagir à vontade de mudança dessa “outra metade” que parece estar a ganhar terreno. As Américas, do Chile à Colômbia, estão a seguir a vaga direitista. As excepções são as ditaduras comunistas sobreviventes (Cuba e Nicarágua) e dois grandes países do continente – o México e o Brasil. E no Brasil, um país também dividido ao meio que vai a eleições em Outubro, qualquer vitória, da Direita ou da Esquerda, será necessariamente por uma margem mínima (as imoralidades do todo-poderoso Moraes, um juiz do Supremo Tribunal denunciado como conselheiro remunerado de um escroque, e a mão estendida de Flávio Bolsonaro para receber, do mesmo escroque, financiamento para um filme sobre o pai, não serão bem a mesma coisa, mas têm vindo a ser arremessadas como equivalentes pela esquerda lulista, o poder incumbente).
Na Europa, o movimento é paralelo. Basta ver as expectativas de Marine Le Pen para as presidenciais francesas de 2027 ou os triunfos na Saxónia-Anhalt da Alternativa para a Alemanha – que, segundo as sondagens, já será também o primeiro partido alemão. Ou, ao contrário, mas sinal da mesma polarização, a possível vitória das esquerdas na Suécia por um deputado.
Pegando num hábito da velha direita, a Esquerda e o Centro não se têm poupado a explicações conspiratórias e maniqueístas para a perda de hegemonia, mas vão também, mais pragmaticamente, cedendo discretamente às causas da “direita populista”, moderando, para fins eleitorais, a retórica da apologia do globalismo, do franqueamento das fronteiras e da defesa das minorias e das causas fraturantes. É especialmente elucidativa a escolha dos candidatos democráticos e trabalhistas para enfrentar os “populistas” e ganhar “o povo”, nos Estados Unidos e no Reino Unido, privilegiando económica em detrimento da esquerda cultural.
A verdade é que foram as elites liberais e hedonistas, os intelectuais de esquerda em delírio e os políticos instalados no “sistema”, e não sinistros grupos neofascistas e outros agentes do mal, que escavaram o fosso que a direita nacional e popular soube aproveitar, mobilizando os indignados, os “deploráveis” e os “deixados para trás” pela globalização exacerbada e por alienados “marxismos imaginários”. E eis que, estranhamente para muitos, os valores de orientação de sempre – da religião, da nação, da família, da ordem, da liberdade, da justiça – voltaram a contar.
O caso português
O caso português é também paradigmático. No fim de uma “longa noite” de direita, primeiro ditatorial (de 1926 a 1933) e depois autoritária (de 1933 a 1974), os militares, os kingmakers do poder político na modernidade nacional, protagonizaram o golpe do 25 de Abril de 1974. E, na nova ordem democrática, as causas da direita nacional-conservadora, patriota e religiosa, associadas ao autoritarismo do Estado Novo, foram votadas ao ostracismo. Porém, quando, finda a madrugada revolucionária, a situação estabilizou e o modelo democrático passou a funcionar regularmente, os dirigentes dos partidos à direita do PS (então a extrema-direita), talvez cedendo ao “espírito do tempo”, ou pressionados e assustados por um sistema intelectual e mediático que os acusaria de salazarismo, não quiseram assumir, em democracia, as causas e os valores da direita de sempre, além de algum liberalismo económico.
Mas a vaga europeia de reacção acabou por se impor. André Ventura percebeu, em 2018, qual era a equação, e lançou o Chega, um partido que iria crescer vertiginosamente, precisamente por ser contra um sistema manifestamente incompleto na oferta partidária, que, com a excepção do CDS da direcção de Manuel Monteiro, eurocrítico e popular, se ficara pelo centrismo rigoroso*.
O descontentamento nacional com o rotativismo e o compadrio ao centro-esquerda, PS-PSD, a noção clara de que, apesar da propaganda em contrário, Portugal é hoje um pequeno país na periferia europeia – um país atrasado, cada vez mais inseguro e com uma economia debilitada, de onde os jovens qualificados têm de emigrar, para onde imigram os desqualificados, muitas vezes pela mão de máfias, e onde os ricos estrangeiros compram segundas, terceiras ou quartas casas – alimentaram e vão continuar a alimentar a oposição de direita. Um país onde a ausência de reformas e situações como a continuidade do ministro da Administração Interna, manifestamente reprovada pelos eleitores, vão continuar a debilitar o governo.
A oposição à direita tem agora de se preparar para integrar na sua agenda, pela afirmativa, valores e princípios. Não porque o demérito do Centrão e das várias esquerdas, das moderadas às extremas, não vá continuar, mas porque, nestes tempos de revolução e renovação, nestes tempos pouco pensantes de grande divisão e pouco esclarecimento, a identidade de uma direita nacional e social, realista em geopolítica, sensível aos factores identitários, intransigente com a corrupção, atenta às suas congéneres euro-americanas, mas bem radicada na herança portuguesa, se impõe.
* Ao contrário do que apareceu na quarta-feira, 9 de Setembro, como legenda na SIC Notícias, durante a minha intervenção no programa “Importa-se de repetir?”, não sou do Chega. Não porque esse qualificativo seja insultuoso ou incómodo (penso que o aparecimento do Chega foi importante e útil para a Direita, como sempre deixei claro), mas porque, efectivamente, não sou do Chega, como nunca fui de partido algum.
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