“E se…?” A pergunta antecipa uma possibilidade arrojada e difícil, mas é já um clássico entre a equipa do Observador. Na segunda-feira, ao final da manhã, lançámos a ideia: “E se… fôssemos a Nova Iorque na sexta-feira fazer uma emissão especial da Tarde em Direto para assinalar os 25 anos do 11 de setembro?” As primeiras reações de “se calhar… já vamos tarde” ou “é muito em cima” passaram a “não custa tentar” e “podemos ver se é possível”. 24 horas depois, a decisão foi “vamos” — sim, na terça-feira.
Não tínhamos convidados, local ou acreditações; contávamos apenas com dois ou três contactos, que, invariavelmente, nos responderam com aqueles silêncios de poucos segundos que significam: “Perderam o juízo. Faltam 3 dias!” Porém, conseguimos ser persuasivos a convencer a equipa e os parceiros a entrar em missões quase impossíveis. Os jornalistas luso-americanos Henrique Mano e Ricky Durães foram a chave para desbloquear a emissão especial que fizemos esta tarde a partir de Newark e de Manhattan.
Raquel Nascimento, do Pão da Terra, na Ferry Street, em Newark, foi uma anfitriã quase “à força”. Foi surpreendida pela nossa chegada madrugadora e aceitou o desafio de instalar um estúdio em plena sala da pastelaria, onde, além de pão de água, mil-folhas e pastéis de nata, há um caldo verde daqueles. A Raquel transformou-se em produtora. Arranjou rede Wi-Fi, mesas e ainda ajudou a organizar os convidados e a sentá-los ao lado da Judite França, que estava sozinha em Newark.
A emissão foi preparada no voo de mais de 7 horas, esta quinta-feira, entre Lisboa e Nova Iorque. No avião e sem ligação ao exterior, não tínhamos ainda a certeza sobre o local escolhido para instalar o equipamento, nem se todos os convidados estavam assegurados. O “arame” é uma palavra que usamos frequentemente na rádio para designar os momentos em que controlamos muito pouco do que está a acontecer. A probabilidade de erros e problemas é elevada e, abusivamente, comparamo-nos aos artistas que atuam no arame. A probabilidade de falhas é gigante — e confirmou-se neste caso.
O aparelho que usamos para transmissões fora não funcionava. Nuno Serra Fernandes, que estava em Amesterdão, conseguiu ligar-se através do nosso computador em Newark e lá desbloqueou a situação. Depois, os hotspots não se ligaram à rede móvel. Tivemos de usar a rede do café, que flutuava. A Judite França — que não gosta muito de máquinas — estava sozinha em Newark e eu em Manhattan. Durante mais de 3 horas tropeçámos em problemas atrás de problemas com os equipamentos. Foi preciso tomar a decisão radical de fazer a emissão, a mais de 5 mil quilómetros de distância, com um microfone ligado a um telemóvel. Foi assim, com dois telemóveis e um grande apoio de Lisboa, que fizemos uma emissão de 3 horas, na qual recebemos 11 convidados. Como é fácil de perceber e para usar uma expressão muito lusa, fizemos tudo com o credo nas mãos.
Os testemunhos que ouvimos e a possibilidade de estar onde a história e a notícia acontecem fazem uma enorme diferença. Acompanhamos o mundo com grande atenção e empenho, mas a possibilidade de sentir os cheiros, a temperatura e estar olhos nos olhos faz toda a diferença. Mostra-nos a perspetiva de quem vive e viveu o momento — e isso é fundamental para a qualidade do jornalismo que defendemos. |