Morta há 50 anos, Bertha Lutz inscreveu igualdade de gênero na Carta da ONU
Quem passasse pelo cemitério São João Batista, na zona sul do Rio de Janeiro, na manhã de 17 de setembro de 1976, veria uma cena curiosa. Um grupo de idosas carregava um caixão rumo à sua sepultura. Elas cumpriam um último combinado com a amiga Bertha Lutz: que nenhum homem tocasse em seu esquife nos momentos finais.
No dia anterior, há exatos 50 anos, morrera na capital fluminense a líder sufragista, diplomata e cientista — uma das figuras mais importantes da conquista do voto feminino no Brasil, em 1932, e também do lobby pela inclusão da igualdade de gênero na Carta das Nações Unidas, em 1945.
Quando desembarcou em San Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos, pouco mais de um mês depois do fim da Segunda Guerra Mundial no front europeu, Bertha tinha a missão de pleitear a revisão da Carta da ONU, o documento fundador da organização que seria assinado naquela conferência, em cinco anos.
"Essa era a pauta oficial, mas ela recebeu carta branca do diplomata Pedro Leão Veloso para articular outras agendas", explica a professora de história da Universidade de Brasília Teresa Cristina de Novaes Marques, que pesquisa há décadas a vida de Bertha. A feminista tinha uma intenção em particular: incluir explicitamente a igualdade de direitos entre homens e mulheres no documento.
"Ela sabia muito bem que essa história de que a palavra ‘homem’ inclui as mulheres de forma genérica não é verdade", diz a historiadora Branca Moreira Alves, que entrevistou a sufragista em 1974, pouco antes de sua morte. "Até pela experiência dela na luta pelo voto feminino, quando se usou o argumento de que ao escrever ‘cidadãos’, o legislador não estava pensando nas mulheres e, portanto, elas não teriam o direito de votar."
Portanto, Bertha não se contentou com a explicação dos delegados de que não seria necessária a inclusão da palavra "mulheres" no documento. A oposição também veio de algumas mulheres, apenas oito delegadas em meio ao mar de diplomatas homens.
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Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
Filha do cientista brasileiro Adolfo Lutz e da enfermeira inglesa Amy Fowler, Bertha havia estudado na Europa nos anos 1910. "Por uma questão de fidelidade, domínio da língua, ela acreditava que ia ter o apoio da [delegada] inglesa, Ellen Wilkinson, e da americana, Virginia Gildersleeve, e não teve apoio nenhum", conta Novaes Marques.
Ambas consideravam impalatável a proposta de Bertha, que saiu em busca de novas aliadas. Encontrou guarida na delegada mexicana, Amalia de Castillo Ledón, e na dominicana, Minerva Bernardino. "Bertha não gostava da Bernardino, mas elas trabalharam juntas nas madrugadas", completa a historiadora.
Ficou assim o preâmbulo da Carta das Nações Unidas: "Nós, os povos das Nações Unidas, resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres".
Pode parecer um detalhe, mas, para Moreira Alves —ela própria uma veterana da ONU, tendo dirigido o escritório brasileiro e depois o latino-americano do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher, órgão precursor da ONU Mulheres—, a expressão teve repercussão em políticas nacionais durante décadas.
"O documento internacional não tem força obrigatória, porque a ONU não vai lá mandar um exército, mas ele tem uma força política, simbólica, muito importante", afirma.
A participação na Conferência de San Francisco foi apenas um dos eventos marcantes da trajetória da brasileira que, à época, já tinha sobrevivido à Primeira Guerra Mundial enquanto morava em Paris, fundado a FBPF (Federação Brasileira pelo Progresso Feminino), em 1919, para capitanear o movimento sufragista, conquistado o voto feminino, assumido como deputada federal em 1936 para, no ano seguinte, ser cassada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas.
"Essa vivência da guerra, que não é tão comum entre mulheres brasileiras, foi uma experiência muito forte, importante para a formação intelectual e de valores dela, sempre muito pacifista. Nos congressos feministas que ela promove depois, sempre tem esse lugar de discussão da paz", diz a pesquisadora Karen Sacconi, autora da biografia "Bertha Lutz: Dos Anos de Formação à Conquista do Voto".
Além de tudo isso, trabalhou durante décadas no Museu Nacional, como bióloga especializada em anfíbios, sendo uma das primeiras mulheres a entrar no funcionalismo público por concurso.
Bertha, é claro, não deixa de ser uma personagem com contradições. Muito conectada a uma filantropa católica que apoiava a demanda pelo voto, a bióloga se calou em relação ao direito ao divórcio, conquistado apenas em 1977. Mulher branca e abastada, ela foi criticada por colegas por não conseguir romper as barreiras de classe em suas demandas.
Como escreve a jornalista Cibele Tenório na biografia de Almerinda Gama (1899-1999), feminista negra que integrou o núcleo duro da FBPF, "embora Bertha e a FBPF fossem engajadas na elaboração de leis para beneficiar as mulheres trabalhadoras (...), isso era feito de maneira assistencialista, sem incluir as próprias mulheres das classes operárias".
Aliás, é no livro de Tenório que podemos vislumbrar a explicação para a insólita cena do velório da ativista.
Em 1932, Almerinda levava um grupo de garçonetes para uma reunião com Bertha, então presidente da FBPF. Elas queriam o apoio da feminista para ajudá-las a reverter um decreto que proibia o trabalho feminino noturno, mas a veterana não as recebeu. O motivo? As moças estavam acompanhadas de um advogado.
"Bertha achava que a mulher não devia ser apadrinhada por homem nenhum", escreve Tenório.
O obituário de Bertha publicado na Folha no dia de seu enterro se encerra com uma fala dela que soa atual, 50 anos após sua morte: "Para a mulher vencer na vida tem que se atirar. Se erra uma vez, tem que tentar outras cem. É justamente a nova geração a responsável para levar avante a luta da mulher pela igualdade".
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