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Saturday, October 17, 2026

A marca que transforma memórias em perfume

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Quem passar pelo número 30 da Cheshire Street, no leste de Londres, até 25 de outubro vai encontrar uma máquina de tubos aparentes, frascos cônicos e líquidos coloridos que pergunta ao visitante qual memória ele gostaria de reviver. Com base na resposta, o equipamento compõe uma fragrância em tempo real e a despeja em um pequeno frasco de vidro de 6 ml diante do cliente.

A instalação pertence à Index, casa de perfumes fundada em 2025 por Tigris Li e Isabella Smith, ambas de 28 anos. O endereço atual é a segunda loja temporária da marca, que estreou em setembro com uma pop-up na Columbia Road, também na capital inglesa. Em entrevista à revista britânica Dazed, Smith contou que muita gente entrou por curiosidade, vinda da rua, e terminou a experiência em lágrimas.

Como a conversa vira fórmula

Perfumes Index

A Index combina de uma a três das nove bases criadas pela perfumista Isabella Smith a partir da conversa com o cliente (Reprodução/Instagram)

O atendimento dura entre três e cinco minutos. A máquina, equipada com um agente de inteligência artificial, faz a pergunta inicial e segue com novas questões para extrair detalhes da lembrança, como as pessoas presentes, o lugar e os sons. Durante a conversa, o sistema realiza duas etapas de análise, segundo Li. Na primeira, identifica a estrutura narrativa do relato e calcula a proporção das emoções detectadas. Na segunda, mapeia os elementos físicos da história.

Os ingredientes saem de nove bases formuladas por Smith, que é a perfumista da marca. O agente recebeu um perfil detalhado de cada uma delas, com notas olfativas, o cenário a que pertencem e as emoções associadas. Se o cliente fala de uma tarde no litoral, por exemplo, a máquina tende a puxar a base que reúne brisa do mar e madeira trazida pela maré. As sócias também estabeleceram regras ao sistema, que sempre combina de uma a três bases e nunca associa uma emoção a uma única palavra. Mencionar chuva, portanto, não resulta automaticamente em um perfume melancólico.

A Index afirma que as conversas completas não ficam armazenadas. A empresa guarda apenas a fórmula de cada fragrância e um resumo da memória, para que o cliente possa repetir a compra no futuro.

Da sinestesia para o robô

O projeto nasceu como obra de arte. Li tem sinestesia, condição neurológica que provoca experiências sensoriais involuntárias, e sente gosto ao ver determinadas cores. À Dazed, ela contou que o roxo profundo tem para ela sabor de sangue e metal, e que chegou a quase desmaiar ao ver um vestido roxo vibrante. A partir disso, passou a investigar como seria provar uma memória, ideia que deu origem à instalação Emotional Alchemy, encomendada pela Converse durante a London Fashion Week da temporada outono-inverno 2024.

Como reproduzir sabores se mostrou pouco prático, o perfume virou o caminho escolhido. Novas encomendas de Google, YouTube e Replit levaram Li a converter a instalação em um robô portátil, que ela mesma soldou.

Um arquivo de lembranças

Cada fragrância recebe um nome ligado à história que a originou, e muitos desses relatos ficam reunidos em um arquivo online mantido pela marca. Uma das criações da primeira pop-up foi batizada com um palavrão dirigido ao boné de um dos envolvidos na história, inspirada no primeiro encontro de duas pessoas que se conheceram por mensagens. No fim da noite, o boné voou pela janela do carro, os dois pararam para buscá-lo e acabaram trocando um beijo na beira da estrada.

O ponto de partida também pode fugir das lembranças reais. Segundo Li, uma cliente usou como base um sonho que havia tido e se surpreendeu com a precisão das perguntas feitas pela máquina ao longo da conversa.

Sobre o papel da tecnologia no processo, Smith afirmou à Dazed que a Index não pretende substituir o trabalho do perfumista, função que ela mesma exerce, e destacou que todas as bases foram formuladas manualmente. Li acrescentou que, diferentemente de celulares e computadores, que acompanham o usuário o tempo todo, o perfume pode ser levado para casa enquanto o registro digital fica de lado, se o cliente preferir.

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