Couvert e medalhão do La Mole, no Leblon, atenuam qualquer tristeza
Crítica | RJ
La Mole
Três estrelas (Bom)
R. Dias Ferreira (lojas C e D), 147, Leblon, Rio de Janeiro. @lamolerestaurante
Passei por uma semana difícil. Após alguns dias em que não fui muito bem tratada pela vida, havia chegado a hora de voltar a escrever uma crítica gastronômica e meu estado emocional me levou a não arriscar uma possível decepção em lugares novidadeiros. Resolvi então visitar um velho conhecido: o La Mole, no Leblon.
Fui em busca não de alta gastronomia, de pratos elaborados com insumos de pequenos produtores ou algo que o valha. Eu só queria voltar a pedir o couvert (R$ 38), o filetto allegro (R$ 79) e o medalhão à piamontese (R$ 95) que fizeram minha alegria na adolescência, na gravidez, na primeira infância do meu filho.
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O couvert inclui, desde sempre, um pratinho com linguiça calabresa frita fininha, tapenade de azeitonas, manteiga, patê de fígado ao vinho, coalhada fresca, dois minicroquetes de carne (novidade), brioches, pizza branca, torradas com parmesão e grissini.
É uma instituição carioca que costuma ser devorada por famílias inteiras, com um vasto fã-clube. Antigamente ainda incluía ovinhos de codorna, salame, fatias de muçarela e cebolas em conserva —como se vê, vários ingredientes industrializados e gordurosos, com a cara de um outro tempo.
O que não significa que seja ruim, pelo contrário. Dá um prazer diferente, um chameguinho difícil de descrever. Tudo combina entre si, a linguiça é ótima, o brioche está sempre bem quentinho. Não à toa, o couvert faz sucesso há décadas nesta casa que funciona, firme e forte, desde 1958 na badalada rua Dias Ferreira.
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Segui para outro queridão de anos atrás. Além de delicioso, o filetto allegro —cubinhos de filé-mignon grelhados acompanhados de talharim salteado na manteiga com espinafre, cenoura e alho frito— era a forma como eu e meu marido encontrávamos para fazer nosso filho comer tudo o que é saudável. Ele adorava, e nós também.
Veio então o baque. Saiu do cardápio. O garçom, muito gentil, disse: imagina, se você gostava tanto, a gente faz aqui. E fez. Agradeci a delicadeza, mas a ligação afetiva não deve servir de desculpa ou de atenuante para os deslizes do La Mole. A carne veio dura, o talharim totalmente sem graça. Uma pena. Pelo que vi, podem ter perdido a mão no preparo e o prato não fará falta ao menu.
Estava decidida a seguir com meu roteiro sentimental (couvert-filetto allegro-medalhão) e quase caí em tentação ao ver um belíssimo filé de salmão com legumes de cores muito vivas e arroz sendo servido ao vizinho.
Há quem observe pássaros. Eu observo pratos. Fico sempre de olho na mesa ao lado, vou escaneando mentalmente tudo o que vejo quando percorro o salão rumo ao toalete, como aconteceu desta vez. O salmão estava lindo e o homem prestes a devorá-lo exaltou o que estava em seu prato antes de dar a primeira garfada (e depois confirmou: "Delícia").
Should I stay or should I go? Peço ou não peço? Segui firme e fui de medalhão à piamontese. A glória. Ele continua exatamente como eu me lembrava, bem alto, envolto em finas tiras de bacon, com um denso molho de vinho tinto.
O arroz à piamontese que, reza a lenda, teria sua versão brasileira criada pelo La Mole como uma adaptação ao risoto, é feito com arroz agulhinha, creme de leite e champinhom em conserva.
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Não morro de amores, acho adocicado demais, mas entendo seus devotos. O bacon e o molho se encarregam de equilibrar o ponto do sal. E a gostosa batata frita (opte pela portuguesa, que é feita na hora, e não congelada, como a palito) fecha o pacote com louvor. Era disso que eu precisava.
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