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Friday, November 6, 2026

A Era de Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional

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Há momentos que ficam cravados no tempo para ecoarem pela eternidade. A era de Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional é um desses momentos. Foram 23 anos de uma viagem extraordinária, durante os quais um jogador elevou Portugal a um patamar de reconhecimento, ambição e protagonismo internacional que nunca antes tinha conhecido.

Claro que não o fez sozinho. Teve ao seu lado gerações de grandes jogadores, companheiros que contribuíram para conquistas inesquecíveis e que também fazem parte desta história. Mas nenhum atingiu o seu patamar. Ronaldo tornou-se a figura maior de sempre da Seleção e uma das maiores referências da história do desporto português.

Faço parte da geração que aprendeu a amar a Seleção com Ronaldo. Da geração que se habituou a vê-la em todos os grandes palcos, a acreditar que havia sempre uma possibilidade enquanto ele estivesse em campo. Crescemos a olhar para ele como o maior jogador de todos os tempos. Vimos golos impossíveis, noites de sofrimento, lágrimas, recordes e momentos de glória. Vimos um jovem madeirense transformar-se numa figura reconhecida em todos os cantos do planeta.

Talvez seja difícil explicar a quem não viveu esta época o que significou ter Ronaldo. Não era apenas a expectativa de um golo. Era a sensação de que o impossível podia acontecer. Era aquela vontade de ver jogar, de sentir o estádio, de acompanhar cada convocatória. Ronaldo é um daqueles jogadores que inspiram, que fazem fervilhar o sangue e que conseguem transformar um jogo numa experiência coletiva.

Também houve críticas, muitas delas legítimas, porque ninguém está acima da crítica. Mas houve igualmente uma espécie de obsessão em diminuí-lo, sobretudo por parte de comentadores que confundem opinião com verdade absoluta e que, por vezes, parecem avaliar o futebol apenas à luz das suas próprias convicções. Chegou-se ao absurdo de ouvir comparações que só fazem sentido num universo onde a realidade incomoda. Faz parte do espetáculo. Mas há uma diferença entre analisar um jogador e não conseguir reconhecer a dimensão daquilo que está diante dos nossos olhos.

Ronaldo está num patamar onde os críticos e os detratores parecem sofrer de vertigens só de olhar para cima. A sua dimensão já não depende da opinião de um painel televisivo, de uma discussão de café ou de uma comparação feita para provocar polémica. Está escrita nos números, nos títulos, nos recordes e, sobretudo, na memória de milhões de pessoas.

Há também qualquer coisa de extraordinário na forma como Ronaldo desafia a passagem do tempo. Ao contrário de Dorian Gray, de Oscar Wilde, que escondia no retrato os sinais da sua decadência, Ronaldo expõe o próprio corpo como testemunho de uma disciplina construída ao longo de décadas. O seu segredo não está num pacto com o impossível, mas numa exigência permanente consigo próprio. Talvez seja essa uma das suas maiores lições: o talento pode abrir a porta, mas é a disciplina que permite permanecer no topo. E, numa época em que tantas vezes reduzimos tudo a extremos, talvez devêssemos aceitar que Ronaldo pode já não ser o jogador de há dez anos e continuar a ser uma figura extraordinária do futebol mundial.

Talvez Cristiano Ronaldo seja a maior marca portuguesa de sempre à escala mundial, a par de símbolos históricos como a Cruz de Cristo e as caravelas. E talvez até as ultrapasse em reconhecimento global, porque vivemos num mundo muito mais conectado, onde a sua imagem e o seu nome chegaram diariamente a lugares que Portugal, enquanto país ,dificilmente alcançaria por si só. Durante mais de duas décadas, houve milhões de pessoas que souberam onde ficava Portugal porque conheciam Cristiano Ronaldo.

Agora começa outra etapa. Vou fazer parte da geração que terá de aprender a acompanhar uma Seleção sem o seu capitão.Uma Seleção que terá de voltar a fazer contas, a usar a máquina de calcular, a discutir cenários e a perceber o que precisa de acontecer para chegar a uma grande competição. Não porque Portugal deixe de ter talento, mas porque desaparece aquela referência que, durante tanto tempo, parecia tornar tudo possível.

É difícil ser Ronaldo. Mas será ainda mais difícil preencher o espaço que deixa. Porque há jogadores que passam pela Seleção e há jogadores que se confundem com a própria história dela. Ronaldo pertence à segunda categoria.

No filme Gladiador, há uma frase que atravessa o tempo: “O que fazemos em vida ecoa na eternidade”. Aplica-se-lhe como poucas. Cristiano Ronaldo deixa muito mais do que golos e recordes. Deixa uma geração inteira de portugueses que aprendeu a sonhar mais alto, uma Seleção que ajudou a colocar no centro do futebol mundial e uma marca que dificilmente voltaremos a ver nascer.
Talvez Cristiano Ronaldo tenha também qualquer coisa de Sísifo. Não porque esteja condenado a repetir eternamente o mesmo gesto, mas porque parece ter feito da repetição uma forma de afirmação. Cada recorde alcançado transforma-se numa nova meta, cada conquista, num ponto de partida. Albert Camus encontrou em Sísifo a imagem do homem que, mesmo conhecendo a inutilidade aparente do esforço, continua a empurrar a pedra. Ronaldo parece ter encontrado no futebol uma versão diferente desse desafio: sabe que nenhum golo é definitivo, que nenhum título suspende o tempo e que a grandeza de ontem não garante a de amanhã. Ainda assim, continua. Talvez a sua maior vitória não seja ter chegado tão longe, mas ter conservado a vontade de continuar quando já tinha provado quase tudo.

Obrigado, Ronaldo. Por tudo o que fizeste, por todas as emoções, por todas as alegrias e até pelos momentos de sofrimento que também fazem parte desta viagem. Foi um privilégio ver-te jogar pela minha Seleção, pela tua Seleção, pela nossa Seleção.

É difícil ser Ronaldo. Mas é ainda mais difícil dizer adeus ao melhor jogador de sempre e a uma era que não queríamos que tivesse fim.

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