"Sensibilidade e Bom Senso": uma adaptação deslavada e morna

O livro de Jane Austen com mais adaptações ao cinema é Orgulho e Preconceito: 13 filmes, séries e telefilmes, entre 1938 e 2026 (fora as versões mais “soltas”, as paródias, os pastiches, os “inspirado por” e os delírios como Orgulho e Preconceito e Guerra, que põe as personagens a combater uma praga de zombies). Sensibilidade e Bom Senso já foi vertido cinco vezes para televisão e só uma para cinema, na celebrada e oscarizada versão filmada por Ang Lee em 1995, e escrita por Emma Thompson (também uma das intérpretes), e que ficou a servir de referente para adaptações posteriores. E de cuja sombra não se poderá esquivar esta nova, assinada por Georgia Oakley, com argumento de Diana Reid.
[Veja o “trailer” de “Sensibilidade e Bom Senso”:]
A realizadora disse que o seu Sensibilidade e Bom Senso é uma “nova interpretação dirigida a uma nova geração”, começando logo pelo elenco, cheio de caras da mais recente vaga de actores britânicos, como Daisy Edgar-Jones (Elinor Dashwood), Esmée Creed-Miles (Marianne), Bodhi Rae Breathnach (Margaret), George MacKay (Edward Ferrars) ou Frank Dillane (Willoughby). Estranha mesma é a escolha do sorumbático e parado norueguês Herbert Nordrum para personificar o coronel Brandon, e que além de parecer saído de um western de Sergio Leone, não chega nem às solas das botas de Alan Rickman na versão de Ang Lee.
[Veja uma entrevista com a realizadora e a argumentista:]
Se esta não existisse, a de Georgia Oakley, produzida pela Working Title de Tim Bevan e Eric Felner, os produtores britânicos de maior sucesso da sua geração (responsáveis desde fitas como Notting Hill até às das séries de Johnny English e Bridget Jones, entre dezenas de outros), poderia ser considerada como suficientemente aplicada e correta. Até porque este Sensibilidade e Bom Senso do século XXI mantém-se relativamente fiel, no essencial, ao livro de Jane Austen, sem liberdades dramáticas ou derivas narrativas significativas (e apesar de alguns comportamentos e atitudes modernas demais aqui e ali), nem intromissões woke ou “reimaginações” na moda. Não é um mau filme. Não consegue é ser senão mediano, mesmo abstraindo do de Ang Lee.
[Veja uma conversa com o elenco principal do filme:]
Falta-lhe a luminosidade, a cor, o vigor formal, a alegria, os cambiantes visuais e dramáticos e o brilhante e distinto conjunto de intérpretes da adaptação de 1995 (além de Thompson e Rickman, Kate Winslet, Hugh Grant, Hugh Laurie, Tom Wilkinson, Gemma Jones ou Imogen Stubbs). A adaptação de Georgia Oakley é mais deslavada, enevoada, morna e moderadamente “naturalista”, com interpretações que se ficam quase todas pelo adequado. A realizadora centra-se nas duas irmãs Dashwood mais velhas, Elinor (que representa o bom senso do título) e Marianne (que personifica a sensibilidade), mas as personagens soam mais ligeiras, caricaturais e inconsistentes do que Jane Austen as construiu e caracterizou (sobretudo Marianne, que parece uma adolescente “rebelde” dos nossos dias), e de como Emma Thompson e Kate Winslet as viveram na fita de 1995.
[Veja uma sequência do filme:]
No papel da alegre, generosa e directa Sra. Jennings, o abastada e casamenteiro “anjo da guarda” das irmãs Dashwood, a veterana Fiona Shaw introduz, sempre que está em cena, uma cor humana, uma energia e uma vivacidade que Georgia Oakley não quis ou não foi capaz de instilar no filme, e de que este Sensibilidade e Bom Senso para “uma nova geração” se ressente. Falta-lhe maturidade, convicção, condimento. Quem viu a versão de Ang Lee recorda-se de várias cenas, momentos e detalhes, e revê-a sempre com gosto. Esta de Georgia Oakley não tem uma sequência memorável que seja. E é puro bom senso perdermos tempo a voltar a vê-la.
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