O têxtil e a inovação dos processos

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Sejam bem-vindos. Começa aqui mais um episódio do podcast Empresas em Transformação. Esta é uma parceria entre o Novo Banco e o Observador. Nesta série falamos do que está a mudar no mundo das empresas com os novos padrões ambientais e sociais. Hoje falamos do setor têxtil e da forma também como as empresas estão a reduzir o impacto ambiental da sua produção e também a adaptar-se a exigências sociais mais fortes. Vamos fazê-lo com José Pinheiro, é chairman do Mundo Têxtil, com Pedro Silva, administrador da Tintex, e com Manuel Pacheco, é ESG Principal do Novo Banco. Eu sou o Paulo Ferreira. Dou as boas-vindas aos três, é um gosto recebê-los aqui, muito obrigado. José Pinheiro, começando por si, pedia-lhe um enquadramento muito rápido do que é o Mundo Têxtil. Já estivemos aqui a falar agora com o microfone desligado e o têxtil não é todo igual.
Muito boa tarde a todos. Na realidade, não. A Mundo Têxtil está na área dos têxteis-lar, aquilo que nós chamamos cama, mesa e banho. A Mundo Têxtil produz a toalha de felpo, tem mais de 50 anos, fez 50 anos há dois anos, portanto, é uma empresa que já vai na terceira geração e exporta cerca de 95% do que produz. E não é só o Mundo Têxtil, o próprio setor é isso. Se me permite, eu gostava de enquadrar um pouquinho aquilo que são as empresas de têxteis-lar dentro da têxtil. A têxtil em Portugal é uma indústria eminentemente exportadora, exportou no ano passado cerca de 5.400 milhões de euros. O têxtil-lar é uma parte importante da indústria têxtil, mas tem algumas diferenciações, nomeadamente a dimensão das empresas. São empresas de média dimensão. Eu diria que o número médio de empregados anda volta dos 140 e os 200, mas há grandes empresas com 400 e 500.
No vosso caso, quantas são?
Que é o nosso caso, temos cerca de 500 pessoas. Mas são empresas muito transversais. Produzem praticamente tudo dentro da fileira e, portanto, são empresas que têm que estar organizadas.
Ou seja, desde a fiação e tecidagem.
Algumas têm fiação, mas quase todas têm tinturaria, acabamentos, tecelagem, confecção e portanto cobrem praticamente todas as áreas da têxtil. O têxtil-lar português, como eu lhe disse, exporta entre 90% a 95% do que produz e, portanto, internamente não é muito conhecido. E eu queria fazer alguma diferenciação aqui, porque são empresas eminentemente exportadoras e estão no mercado há muitos anos. E o que aconteceu no mercado mundial, e sobretudo na Europa, nas últimas três décadas, fez com que Portugal se tornasse, nos têxteis-lar, o maior produtor europeu. E mesmo como exportador, está no top 10 mundial. Portugal é o quinto maior exportador de lençóis de algodão e o sexto maior exportador de felpos.
Em termos mundiais.
Em termos mundiais. Portanto, estamos a falar de uma indústria que tem muita tecnologia, mas sobretudo muito know-how.
Claro. Quando disse o que aconteceu nas últimas décadas, imagino que se refira também à abertura dos mercados.
Também, mas não só à abertura e à deslocalização.
Significa que reagiram bem a essa abertura.
À abertura e à deslocalização do mercado. Enquanto que há 40 anos e há 30 anos, a nossa preocupação era fazer o que se fazia na Itália, na Alemanha e na Bélgica e tentar chegar aos mesmos padrões de qualidade e de eficiência, neste momento, nós não temos ninguém à nossa frente e portanto somos líderes. E somos líderes não só na parte de produção e, portanto, de inovação, mas também em tudo o que se relaciona com ambiente e com certificações, porque realmente o nosso mercado é cada vez mais o topo da cadeia e, portanto, exigente.
Claro. Ligando isso à nossa questão aqui, como é que vocês na Mundo Têxtil, com esse posicionamento que têm e estão no topo também desse mercado, vocês são líderes de mercado em Portugal. Na Europa também?
Sim.
Dessa vossa posição, como é que vocês olham para estas novas exigências em termos ambientais, sociais? Acham que é uma ameaça competitiva ou pode ser até uma oportunidade de diferenciação?
Exatamente. Nós preferimos a visão otimista. Nós achamos que temos de transportar pra nossa realidade esta ameaça, que ao fim e ao cabo, é uma ameaça pras indústrias, porque estamos a falar de custos que não são rapidamente visíveis. São custos importantes, mas nós achamos que mesmo em termos de concorrência internacional, que isto joga a nosso favor. Quer como empresa, quer como cidadão, este é o caminho. E portanto, preferimos olhar pro lado positivo e achamos que de alguma forma somos protegidos e até diferenciados por este caminho que a Europa tem feito e liderado, às vezes com um bocadinho de exagero, mas de qualquer maneira, não há dúvida que é este o caminho.
Muito bem, Pedro Silva. A Tintex, boa tarde, bem-vindo também. No vosso caso, são uma referência também na busca de soluções alternativas de baixo impacto ambiental nesta área de tingimento, como é que se diz?
Sim, de malhas circulares.
Malhas circulares. Como é que estão a conseguir isso em processos que são de tingimento e de acabamento e que envolvem químicos, consomem água, enfim, todo o impacto normal desse tipo de atividade?
Também começar por dar um contexto sobre o que é a Tintex. A Tintex é uma empresa têxtil que se dedica à produção de malhas circulares, desde a tricotagem até tingimento, acabamento e revestimento. E é uma empresa de ultimação que utiliza vários processos essencialmente úmidos.
E depois fornecem o vosso produto a outras empresas do setor?
Sim, exatamente. Ou vendemos rolos de malha acabada para confecções ou diretamente às marcas, também faz parte do nosso processo comercial. Como disse, e bem, nesses processos em úmido, utilizamos água, utilizamos químicos, auxiliares químicos, para fazer a tinturaria, o tingimento e o acabamento. Como é que se evolui, como é que se diminui esse impacto? Eu não vou dizer que somos os melhores, nem que temos o menor impacto. Somos melhores naquilo que fazemos, eu creio. Passa, primeiro, por ser especialista em algo. Nós nos últimos cinco a 10 anos, fomos nos especializando num tipo de malhas muito próprias, que são as celulósicas, e portanto, pomos de parte um número de processos que poderiam incrementar este impacto ambiental, pegada carbônica, e especializando, pomos de parte certas fibras que nós consideramos que para nós não são vantajosas estrategicamente e que também poderiam ter outro impacto no ciclo de vida total. E depois é uma mistura, eu acho, de maquinaria, processos e pessoas.
Inovação também, imagino.
Inovação e investimento que tem de haver. Ou seja, investir em maquinaria que é mais eficiente. Ok que nós estamos a fazer investimentos cujo payback 10, 15 anos, às vezes até mais. Mas quando se chega a essa altura, há que renovar o parque de máquinas e, felizmente, a tecnologia evolui, é possível comprar máquinas cada vez mais eficientes, que fazem muito mais com muito menos. E, portanto, isso foi um passo importante que nós demos em 2017, vou dizer, marcou um antes e um depois dos processos na Tintex e o impacto que eles tinham. Depois, em termos dos próprios processos, como é que se desenham, como é que se otimizam, que tipo de químicos nós utilizamos. Há uma investigação muito doméstica, se podemos chamar assim, na Tintex, e é uma vigilância tecnológica também muito grande, que nos permite estar atentos a soluções novas que permitem baixar esse impacto. Também a escolha dos químicos e a maneira como nós testamos, ou mesmo antes de testar, que crivo é que nós implementamos na Tintex para utilizar químicos que são de menor impacto, mais seguros também. E também vai ser um tema que certamente vamos abordar, mas tem a ver com as certificações e todos os critérios que os clientes-
Todo o controlo. Sim, vamos falar um pouco da cadeia de fornecedores e clientes.
E depois as pessoas, ou seja, ter pessoas dentro da empresa que primeiro estão comprometidas com o propósito. Perceber como é que nós conseguimos baixar consumos, e não vamos ser ingênuos, não só no ponto de vista ambiental, mas também de gestão de recursos. Como é que nós conseguimos poupar, como eu disse, fazer mais com menos. Temos de ter pessoas que estão comprometidas com o processo, com o propósito e que têm, de certa forma, conhecimento, e se não o têm, estão dispostas a obtê-lo, para fazer evoluir a cada dia a maneira como fazemos as coisas na Tintex.
Claro. Até porque, como disse, são investimentos a longo prazo, não é? E o payback. Só para termos uma referência, a Tintex emprega quantas pessoas?
123. Na verdade, a Tintex são duas empresas, é a Tintex e a ATA, a ATA é a nossa trikotagem, no conjunto somos 143, 144 pessoas.
E exportam que porcentagem da vossa produção?
Diretamente, cerca de 30%. Mas no fundo, como disse o José, 99%, senão 100% daquilo que nós fazemos vai para fora.
Vai para fora indiretamente, depois. Através de outras empresas como o mundo têxtil, por exemplo. Muito bem. Manuel Pacheco, olhando agora aqui para o Novo Banco, como é que vocês hoje avaliam o risco e o desempenho dentro dos critérios ESG de empresas do setor têxtil?
Boa tarde. Estou aqui mesmo perante um painel muito interessante e com duas grandes experiências daquilo que é o dinamismo do setor têxtil nacional. O nosso desafio neste espaço e na questão da gestão do risco é o de tentar integrar riscos, que já são riscos reais para os nossos clientes, dentro dos nossos modelos de valorização, nos nossos modelos de decisão e também nos nossos modelos de preço, para ajudar a trabalhar o melhor possível com este setor e outros. Como é que nós o fazemos? Bem, para já temos que conhecer os negócios, já vimos que há muita heterogeneidade naquilo que são estes mesmos diferentes negócios. Tentamos compará-los e ver o peso ou o investimento relativo que têm que fazer para a transição versus outros competidores.
Criar benchmarks de mercado é por aí.
Exatamente. Portanto, depois temos que sistematizar a coisa, simplificar a coisa. Temos um conjunto de perguntas, questões que queremos fazer, temos comparações também de benchmarks de mercado, e o que nós reparamos é que quando falamos com o setor, nós encontramos esta maturidade. E esta maturidade surge porque ao integrar-se nestas cadeias de valor mais alargada, vender de fato com uma elevada porcentagem de exportação, com um posicionamento no mercado já perto ou dentro daquilo que é o premium do mercado, é necessário ter as certificações e a informação que muitas vezes nós não pensávamos que íamos encontrar, mas depois quando de fato começamos a implementar esses processos, fomos ver, de facto, que aqueles nossos clientes já estão muito mais acima do que nós pensávamos que deviam estar. E a identificação a nível de risco-desempenho, é mesmo a integração destes diferentes fatores de risco, quer a nível de custos de investimento e transição que possam surgir por parte das empresas, elementos de risco físico, que cada vez mais a banca também como financiadora tem que conseguir integrar. Vemos propriamente os eventos de riscos físicos agudos que surgiram também este ano em Portugal e os impactos que tiveram no país. Muitas vezes nós podemos pensar só os danos que existem nos ativos industriais, mas como podemos ver, há situações que surgem, há encomendas que ficam paradas, há negócios que ficam em risco, porque não conseguem dar resposta aos seus clientes. Nós compreendermos esta relação, esta posição, ajuda-nos também a perceber qual é o risco dos próprios clientes e podemos fazer decisões de crédito que devem ser As mais tradicionais possíveis, mas com melhor informação. Portanto, na perspectiva de integração do risco, é isto que é o nosso objetivo e fazemos também alinhamento com aquilo que são as expectativas do próprio regulador, que é tentar traduzir estes riscos cujos bancos tinham dificuldade de ver em informação que possa ser útil para o seu desempenho.
E para o regulador também.
Para responder, quer às necessidades regulamentares, mas principalmente para melhorar a nossa relação com o cliente. Para melhorar a nossa alocação de capital. Um país em que os capitais sejam alocados nas empresas com melhores desempenhos é um país que vai apresentar o melhor desempenho, portanto, é melhor para todos que isto aconteça assim.
Claro. José Pinheiro, há pouco já falámos disso, da exigência do mercado, dos consumidores, seja o consumidor final, seja o cliente industrial que está a meio da cadeia. No vosso caso, da Mundo Têxtil, vocês sentem que os vossos clientes e consumidores são exigentes a este nível ambiental e reparam de facto?
Eu não quero ser polémico, mas quero introduzir aqui algo. Os clientes, sim. Sem dúvida alguma. Nós trabalhamos com as maiores cadeias, talvez mundiais, excetuando as da China, claro. Exportar para a China ainda é um tabu para nós. Não sei até quando, mas isso é outra história. Mas quando falamos dos consumidores finais, a verdade é que eu tenho 50 anos de indústria e ser industrial não é ser empresário. Industrial tem que ser, além de empresário, outras coisas. Desculpe, só um aparte, estávamos a falar aqui de investimento contínuo em máquinas que têm "packs" de 10, 15 anos, mas que ao fim de quatro, cinco anos estão obsoletas.
Porque a tecnologia evolui.
Exatamente. Eu diria que não há sossego. Nós estamos permanentemente em evolução, seja em termos de investimento, seja em termos de transformação interna de pessoas e eu tenho 50 anos disto e assisti a muita coisa. Há aqui duas coisas que, na minha opinião, têm que ser ditas. Eu tenho muito orgulho de ser industrial em Portugal e de ser industrial têxtil. Pela evolução que a indústria têxtil, sobretudo o meu setor, teve ao longo destes 40 ou 50 anos, em que nos tornamos praticamente líderes mundiais em termos de valor, não de quantidade e de volume, mas em termos de qualidade e de preço. Como eu lhe disse, o nosso diferencial, temos abaixo de nós o país mais parecido conosco em termos de qualidade e de oferta, até porque atua na Europa como se de um país europeu se tratasse, a Turquia. A Turquia tem preços mais baixos do que nós, cerca de 20, 25, 30%. Mas se formos para a Índia, se formos para o Paquistão, estamos a falar de preços que são menos de metade. E portanto, como inovadores, nós temos que estar sempre a inovar.
E pela qualidade, também.
E pela inovação e também pela mudança das pessoas e do paradigma. Portanto, para nós, a parte de quer inovação, quer a parte de certificações, quer a parte ambiental, deixou de ser uma necessidade e passou a ser um paradigma. Portanto, isto faz parte de nós. Eu queria falar também sobre uma outra coisa, que é a perceção que se tem da têxtil. Entre outras coisas, além do trabalho infantil, do bando de escada, de ferrar aí à porta.
Mas isso foi muito anos 80. Esse estigma não passou?
Passou, mas enfim, primeiro foi pelo positato. Não era um estigma que tivéssemos lá fora. Já na altura, lá fora éramos reconhecidos. Cá dentro, infelizmente, não. Mas há uma outra coisa mais importante, que é a têxtil, sobretudo a têxtil que faz tinturaria, que faz produção ligada aos grandes consumos, ao grande consumo, por exemplo, de água. Vamos falar um pouquinho sobre isso, muito rapidamente. Eu acho que nós não somos grandes consumidores de água, nós somos grandes utilizadores de água. Não há nenhuma empresa em Portugal, neste momento, que não esteja ou ligada a um sistema de pré-tratamento e, portanto, faz um pré-tratamento ela própria e depois liga a um sistema de despoluição e paga para isso.
Depois de estar a utilizar em água.
Absolutamente. Ou que tem um sistema de tratamento completo. A Mundo Têxtil é das poucas, não há assim tantas, infelizmente, porque também há uma questão de volume. A Mundo Têxtil tem o tratamento completo, o tratamento físico e biológico. Então o processo é muito simples: nós captamos a água no rio, neste caso no rio Vizela. A água no rio não é própria para consumo, porque as centrais que existem foram mal dimensionadas e não conseguem despoluir a água, portanto a Mundo Têxtil vai buscar água ao rio, paga para isso, paga licenças para isso. Faz um pré-tratamento à água para utilizar, portanto, utilizamos essa água, reaproveitamos, enfim, regeneramos, fazemos todo aquele processo interno e devolvemos entre 95% a 98% a água ao rio tratada melhor do que a que fomos buscar.
Do que a que foram buscar. Claro.
Portanto, isto não é consumo, isto é utilização. Eu até acho que é quase serviço público.
São quase mecenas vocês também.
Mas descartem essa ideia. Não há nenhuma empresa têxtil em Portugal que faça poluição direta. Não há. Ou faz o pré-tratamento e liga ao sistema e paga para isso. E paga mais do que, por exemplo, os consumidores normais, do que os esgotos, o saneamento básico. Eu queria que isto fosse claro.
Claro, esse problema está resolvido.
Além disso, as empresas portuguesas, quase todas estão vocacionadas para exportação. Eu estive a tentar fazer umas pesquisas, mas não há números exatos. A certificação ISO 14001 é uma certificação muito complicada.
Troque isso por miúdos para quem não domina o sistema de certificação.
É uma certificação de gestão ambiental, que tem parâmetros incríveis e é muito exigente. É, digamos, o fim de linha das certificações Mas a verdade, isto não veio só pra parte ambiental e pra gestão ambiental. Isto veio também para o desenvolvimento das empresas, porque, na verdade, só podes melhorar o que podes medir. Se não medes, melhoras, ponto final.
Claro.
E o ISO e as certificações exigem medições de tudo. Quanto consumimos, quanto desperdiçamos, quanto reutilizamos, como é que fazemos, como é que reutilizamos. Portanto, essas certificações são importantes para as empresas. As empresas melhoram não só o nível de clientes e o mercado a que podem chegar, mas internamente melhoram imenso a gestão interna.
Os processos internos, claro.
Uma outra questão, já agora, se me permite também. Falou dos clientes e dos consumidores. E eu separava as duas coisas. Por quê? Porque há esse paradigma, esse estigma, temos que fazer e tudo. E às vezes eu vejo vozes vociferantes a falar contra a têxtil e contra a indústria em geral, porque poluem, não deviam cá estar, etc. Mas a verdade é que pra cumprir todos estes parâmetros que nós cumprimos, de longe, nós temos não sei quantas certificações, não sei quantas auditorias, os nossos preços aumentam. Vou lhe dar só um exemplo.
São custos, claro.
Vou lhe dar só um exemplo. No nosso caso, a matéria-prima premium é o algodão. É evidente que usamos imenso, cada vez mais, man-made fibers, celoses, que são fibras realmente com menos pegada ecológica, mas sobretudo até mesmo com mais aproveitamento e outras qualidades. Uma certificação, por exemplo, de um fair trade, de um orgânico, em relação a um algodão normal, acrescenta 30, 40% do custo. É um carimbo. Na verdade, não é só um carimbo, é algo diferente, mas é preciso pagar este custo. E quando chega a hora, o consumidor não paga. Quando chega a hora de escolher, o consumidor vai comprar o mais barato, vai comprar pelo preço.
Ou pelo menos pela relação qualidade-preço que pida.
Eu acho isto até uma hipocrisia muito grande. Pregar uma coisa e fazer outra.
Tem que haver aqui, na minha opinião, mais do que uma literacia também de consumidores.
Exatamente. Na minha opinião, isso nós, industriais, a têxtil tem, enfim, poderia fazer alguma coisa, mas acho que deve ser feito, não digo só português, mesmo em termos europeus, em termos mundiais, tem que haver educação de como consumir. Consumir melhor, consumir menos.
Sem excesso também no consumo, sim.
Senão as coisas não funcionam.
O José Pinheiro há pouco falou de grandes cadeias que são vossos clientes. Imaginava, refere-se aqui a cadeias de hotéis?
Não. Nós fazemos muito pouca hotelaria. A hotelaria que fazemos é uma hotelaria de topo de gama, sobretudo nos países árabes.
Está a falar cadeias de retalho, de comércio.
Cadeias de retalho, cadeias de distribuição, grandes marcas.
São exigentes a esse nível de critérios e etc.?
Mas são exigentes de uma forma incrível. Quer dizer, há alguns episódios nas certificações anedóticos. Por exemplo, nós já tivemos não conformidades por não ter estacionamentos suficientes pros empregados nos carros. O que eu acho é que vai haver um momento em que isto vai ter que ser transversal, como é evidente, não podemos ser só exigentes conosco. Mas primeiro temos que ser exigentes conosco. Mas volto a dizer, a mim preocupa-me mais não este caminho, o caminho das certificações, o caminho da inovação, o caminho de consumir menos. Em 10 anos, por exemplo, a minha empresa diminuiu 45% da pegada carbônica. Em 10 anos. Portanto, nós estamos a fazer o nosso trabalho. Os consumidores têm que fazer o trabalho deles. O legislador está a fazer também o seu trabalho. Umas vezes bem, outras vezes melhor, umas vezes com mais vírgulas, outras vezes com menos vírgulas, mas o caminho é este. Agora, este caminho não se faz sem uma conscientização do consumo, ponto final.
Claro, que tudo começa e acaba aí no limite. Pedro Silva, sente o mesmo para os vossos clientes, são sobretudo industriais, não é? Sente que, de facto, ao longo da cadeia, há uma exigência cada vez maior para verificar a proveniência dos produtos, como é que são fabricados, o cumprimento de regras ambientais e sociais?
Sim. Pegando no que o José estava a dizer, quem pensa, quem está de fora e olha pra indústria têxtil, pensa que é uma indústria antiquada, como eu pensava antes de entrar também pra este mundo. E quem está cá dentro percebe que, e eu não conheço as outras, também se calhar vou falar do alto da burra, mas honestamente eu acho que a indústria têxtil deve ser daquelas em que mais transparência tem de haver em todos os elos da cadeia. Nós hoje sabemos, e somos obrigados a isso, em grande parte, ou para grande parte dos nossos clientes, somos obrigados a saber de onde é que vem o algodão, onde é que o algodão é cultivado.
Claro.
Em alguns casos, quanta água é que aquele lote de algodão que foi cultivado naquela quinta, na Grécia, na Turquia, nos Estados Unidos, onde seja, consumiu de água. Nós chegamos a esse ponto.
E essa informação existe?
Existe quando existe.
Certo.
Existe quando existe. E nós estamos a caminhar para cada vez mais ter acesso a essa informação e conseguir providenciar essa informação total, transparente aos clientes, tanto os industriais como as marcas com quem trabalhamos diretamente. Mas de facto, há muitos requisitos que são pedidos, que são requeridos e que não alinham com a realidade do setor mundial.
A realidade muitas vezes não está preparada para responder a esses requisitos.
Voltando um bocado atrás à pergunta, nós sentimos cada vez mais estes requisitos a apertar, até nem tanto pelos nossos clientes industriais, mais pelas marcas.
Quando fala de marcas, fala de marcas de vestuário, por exemplo?
Sim, marcas de vestuário.
Que fabricam e vendem com a sua marca, a marca delas.
Exato, claro. No entanto, também há que dizer que as marcas maiores ou as mais estabelecidas, as que realmente percebem do assunto, tendem a não ter requisitos tão restritos.
Tão exigentes.
Quanto marcas novas que estão a começar. E há marcas a serem criadas aos pontapés, como cogumelos, cada vez mais. Desde o Covid.
Marcas de roupa?
Sim, marcas de roupa. Hoje em dia é muito fácil criar uma marca de roupa. Criá-la.
Com a venda eletrônica também, claro.
Criá-la ou pelo menos idealizá-la. Chegar ao ponto de a ter e começar a vender e que ela seja sustentável, é diferente. Mas o que é certo é que há cada vez mais marcas a serem criadas, há cada vez mais informação na internet, verdade ou não. Eu nem queria falar de inteligência artificial, porque já estou um bocado farto, mas a verdade é que sentimos cada vez mais, e nós temos acesso a esses dados, 20% das leads, dos contactos orgânicos que nós temos, vêm de inteligência artificial, ou pelo menos foram recomendados através de inteligência artificial.
Isto é alguém que vai a um motor—
Vai a um ChatGPT, um Claude.
E pergunta quais são as empresas que-
Eu estou a criar uma marca de roupa. Quero encontrar um fornecedor em Portugal ou na Europa que cumpra estes requisitos. Sugere-me. E a Tintex aparece lá.
Aparecem lá, claro.
E somos recomendados.
Mas isso é bom para vocês, claro. São bem referenciados.
É bom, em certa medida. É bom porque me dá um certo orgulho, em que sei que há um reconhecimento da Tintex e estamos posicionados onde nós queremos estar posicionados. Mas depois tenho 600, 700, 800 contactos anuais de qualidade muito baixa, com um custo acrescido.
Claro.
Ou seja, está a haver uma atomização muito grande do canal comercial.
E vocês precisam de recursos para responder a esses pedidos todos.
Isto para dizer o quê? Que estas novas marcas, estes novos potenciais clientes têm estes requisitos porque não são habituados, não conhecem o setor, não conhecem a realidade, a prática de realmente construir uma malha, construir uma marca, construir uma peça ou atoalhados, o que quer que seja. E no fundo, dependem desta informação barata, muito acessível, e depois metem a fasquia lá em cima quando isso nem sequer é viável, não é razoável.
No fundo, vocês têm que permanentemente encontrar um equilíbrio racional entre aquilo que são exigências cumpríveis e que fazem sentido e outras que eventualmente não fazem muito sentido.
Eu olho para este tipo de contactos e para este fenómeno, para esta realidade nova que enfrentamos, que estamos a ver, e penso: estas novas marcas, que nascem como elas, como eu disse, são de consumidores, que por uma razão ou outra, não encontraram aquilo que estavam à procura no mercado atual. Ou seja, eles são consumidores que se tornaram eles próprios empresários.
Para satisfazer antecipadamente uma necessidade que eles próprios tinham.
E o que é certo é que há certos requisitos que são transversais a todos os contactos que nós recebemos. Da sustentabilidade, da transparência, da rastreabilidade e tudo mais.
Claro.
Voltando à pergunta que fez ao José, a diferença entre cliente e consumidor. Estes são consumidores que se tornaram clientes e que estão a demonstrar que há uma falha no mercado. Não há disponibilidade de certos produtos no mercado e, portanto, empreenderam e quiseram começar uma marca, eles próprios supriram essa necessidade. Eu olho para isso e apesar de dar muito trabalho e ter custo e não ter o retorno que eu gostaria de ter, pelo menos a curto prazo, no fundo, eu permito-me olhar e perceber: "Ok, isto é uma necessidade que está a surgir, é a nova geração, há um novo consumidor, há um novo paradigma e se eu for e atacar esta necessidade mais rápido, se calhar há cinco anos, não sei, as coisas agora andam cada vez mais depressa, mas três a cinco anos, eu se calhar já vou estar mais bem preparado para quando isto se tornar algo-
Quando tiver um volume.
Exatamente. Global.
Claro, global. Pegando neste ponto, Manuel Pacheco, na questão dos indicadores e dos requisitos e por aí fora, quando uma empresa quer financiar-se para comprar e investir num novo equipamento, para modernizar processos, quais são as métricas que vocês utilizam? Têm também, imagino, uma série de métricas para avaliar o comportamento ambiental, se quisermos, daquela empresa.
Eu se calhar, até utilizando a riqueza dessa conversa anterior, separava esta questão também em duas. Por um lado Nós já reparamos que do ponto de vista da análise da natureza dos riscos a que o setor está sujeito, o fato do setor têxtil nacional estar essencialmente exposto ao exterior, exposto a esta concorrência, exposto a estas exigências, faz com que o mesmo esteja provavelmente para além daquilo que é a fronteira até esperada e necessária da transição. Portanto, é um tema que também nos deve deixar bem, ou seja, o risco de transição real do setor para a economia nacional não é muito elevado, porque ele estando sujeito a todas estas concorrências, a ter este posicionamento a nível de produto, faz com que já esteja apto a dar resposta a esses mesmos. Nós não somos tão exigentes, certamente, como as marcas ou os consumidores, principalmente consumidores a nível B2B, que vamos aqui falar.
Business to business, empresa a empresa.
Empresa a empresa, exatamente, em que há essas exigências naturais também de consumo. Então, se eu tivesse que pensar a nível daquilo que nós procuramos fazer a nível de financiamento sustentável, ele está normalmente mais ligado à natureza do investimento e não a critérios a priori daquilo que é a qualificação propriamente da empresa. Equipamentos novos que aportem maior eficiência, neste caso, essencialmente eficiência energética, que é também para aí que as principais estruturas de classificação de riscos verdes, de financiamentos sustentáveis apontam. Equipamentos transversais, nem que sejam material de transporte, nem que seja também componentes ligados às próprias instalações, são tipicamente os investimentos que nós conseguimos enquadrar enquanto financiamento sustentável. Dentro do mercado e para empresas maiores, também há por vezes ou empréstimos ou emissões obrigacionistas que têm estes critérios de sustainable linked. Para nós, também os podemos enquadrar como financiamento sustentável e a diferença entre este financiamento e outros é que uns procuram financiar objetivamente, têm um uso definido propriamente dos fins do financiamento. Este sustainable linked são compromissos que as próprias empresas fazem, que depois são traduzidos em potenciais bonificadores ou penalizadores, face ao cumprimento ou não destes mesmos objetivos. Quando é feito o financiamento nessas condições, procuramos ser muito objetivo e procurar também que os compromissos que a empresa tenha, estejam ligados diretamente ou com consumos que a empresa tenha. Normalmente, apesar de tudo, para o setor ainda é importante, estamos falando aqui muito mais na área propriamente da energia, mas o consumo energético, porque todos estes fatores, a taxonomia está preparada e orientada da União Europeia para esta questão da mitigação. Está mais virada para esses fins.
Claro. José Fernandos, diga.
Em relação a isto e ao financiamento, eu não tenho grandes dúvidas, as métricas existem e existem as normas, existem estas coisas. Há duas coisas aqui que eu vejo. É evidente que financiar máquinas é importante, porque é uma grande parte da poupança ou da inovação ou da melhoria que se vai fazer. A outra componente, que na minha opinião é muito mais importante, existe só para as grandes empresas e para os grandes projetos, e acho que essa parte deveria ser mais racionalizada e chegar mais às empresas, que é financiar objetivos, através de métricas. Porque eu compro uma máquina, mas tenho que dizer o meu objetivo. Eu estou aqui, mas o meu objetivo é chegar acolá. E se eu daqui a dois ou três anos chegar acolá, por que eu não hei de ter uma bonificação de 1%, 2% ou 3% nos juros? E isso, esse terra a terra não existe, é tudo muito no livro, muito no papel. Eu não vejo isso chegar à indústria, pelo menos às médias, já nem falo das pequenas, mesmo às médias empresas. E há muito caminho. Isso já está a ser feito lá fora. Muito. E é preciso fazê-lo cá dentro também. A Mondesteil, porque conseguimos, temos essas métricas, há mais de 30 anos que andamos a fazer certificações. E nós passamos de uma preocupação de certificar o produto há muito tempo. A nossa preocupação era certificar o produto. Ponto final, era aquilo que a gente vendia. Neste momento, nós certificamos a empresa, certificamos as pessoas, certificamos os processos, certificamos o ambiente, nós certificamos tudo. E volto a repetir o fator da medição, e tudo isto é mensurável. A partir daqui para chegar acolá. E se lá chegarmos, temos que ser premiados. Isso daria muita motivação às empresas para saírem do investimento puro. Esse é um fator.
Para pensarem mais nos tais objetivos.
E a outra coisa, basicamente, eu não sei se eu ia introduzir isso, começou por introduzir a parte energética. A parte energética é um grande disparate. Os tiros no pé que a Comunidade Europeia tem dado. E Portugal ainda dá mais, porque às regras que vêm da comunidade, Portugal acrescenta umas vírgulas que dão jeito a muita gente aqui, porque não deixemos de conversas. Em Portugal, a energia, como já viram, não é uma matéria-prima, não é uma commodity. Energia é uma forma do Estado ir buscar impostos, ponto final. Deixemos de coisas. E quer os investimentos, quer a forma como eles são feitos em Portugal, são exponenciados para pior em relação à Europa.
Está falando os investimentos energéticos.
Energéticos.
Que aumentam a capacidade.
Eu vou te dar um exemplo. Numa indústria como a nossa, têxtil-lar, é energeticamente intensiva, ponto final. Mas 70% da energia que nós consumimos não é eletricidade, é energia térmica, água quente e vapor. Para produzir água quente e vapor, só há três ou quatro formas: acender uma fogueira, o que não dá. E então a forma mais eficiente de produzir energia térmica, água quente e vapor, a forma mais eficiente, isto está testado, é através da cogeração. O que é isso? É um sistema duplo de produção de eletricidade e com o arrefecimento dos motores, produz água quente e vapor. De tal forma que nas cogerações, a água quente e o vapor representam cerca de 30% do total da produção.
O custo? Está a falar de custo?
Não, do total da produção.
Do total da produção, muito bem.
30% do total de uma produção numa cogeração é energia térmica, água quente e vapor, que é gratuita. Por exemplo, em relação às centrais de ciclo combinado que temos em Portugal, que produzem eletricidade com gás, mas que deitam água quente e vapor para o ar. Nós aproveitamos de uma forma eficiente. Isso não é só uma questão de custo, é uma questão ambiental. Nós, cogeradores, produzimos eletricidade 30% mais eficiente em termos ambientais e de custo do que as grandes centrais de ciclo combinado. No entanto, em Portugal, nos últimos cinco anos fecharam 47 cogerações, por problemas de legislação, de custos, etc. E nunca mais se legislou em relação a isto neste país. Em janeiro de 2026, em Espanha, e basta ir à internet para ver, a Espanha conseguiu passar na União Europeia, portanto a União Europeia acabou de aprovar, e foi aprovado em janeiro de 2026, um apoio de 3,1 mil milhões de euros para as cogerações. Por quê? Porque a Espanha viu uma coisa muito simples: além de ser a forma mais barata, mais eficiente, permite, através das cogerações, regularizar as redes.
Certo.
Estabilizar as redes. E nós aqui andamos nisto.
E nós matamos quantos?
Volto a repetir, 47 cogerações. Estamos a falar de um número impressionante. E isto por causa de uma vírgula.
O tal problema das vírgulas, da legislação e da regulação. Nós estamos já a chegar ao fim do nosso tempo, vamos começar aqui uma breve ronda final. No fundo, uma pergunta para os três: se pudessem apontar uma única prioridade crítica para o têxtil português, qual seria? Pedro Silva, é difícil escolher uma?
É difícil escolher uma. Acho que há várias.
Duas ou três, vá lá, então.
Ok.
Mas de forma muito telegráfica.
Primeiro, especialização. Acredito mesmo que a têxtil portuguesa-
Especialização, que é o que vocês já fazem.
Sim, por isso é que eu também acho isso.
Claro.
Não ficava mal. E acho que a indústria têxtil portuguesa, no seu todo, também já faz isso, mais ou menos. Mas acho que ainda há ali uma franja da indústria que precisa se despegar de um certo tipo de cliente ou de um certo tipo de serviço, é difícil, eu sei, mas que faz com que não dependa do dia a dia e possa ter investimentos mais a longo prazo. Claro que isso é muito bonito falar, pôr na prática é muito mais difícil. Por isso é que depois leva a outras urgências. Ajuda ao investimento. É impossível fazer essa transição se não houver uma ajuda ao investimento, porque eu tenho maquinaria, tenho pessoas e tenho um processo produtivo que está alinhado com certo tipo de cliente, de produto, de mentalidade. Se eu quiser fazer algo diferente, eu vou precisar de investimento sim ou sim.
Vai mudar, claro.
Ou seja, quem está habituado a receber quase ao dia, e esta é a realidade, principalmente na confecção, de muitas empresas portuguesas, ao dia, e hoje em dia estão a passar muito mal, como é que eles conseguem fazer essa transição? É impossível se não houver algum tipo de apoio. Claro que o apoio precisa ser bem feito. Eu também não estou aqui para dizer nem estabelecer esses critérios, mas se quisermos fazer essa transição, temos que pensar num todo. E depois, para serem três, a comunicação, que já falámos em off. A comunicação é essencial. Nós somos vistos em Portugal-
Comunicação de setores. A perceção pública que há do setor têxtil.
Desde o Made in Portugal e desde o Made in Italy, que parece que é a última bolacha do pacote, tudo que é italiano. E o Made in Portugal é muito melhor que o italiano, só que nós não conseguimos vender nos da maneira que os italianos conseguem. Hoje em dia, eu falo do vestuário, e se andarmos pelas ruas de Amsterdão, de Berlim, de Copenhague, nós vemos lojas, ou nos sites dessas marcas, a publicitar o Made in Portugal, como se fosse uma característica do produto, como qualquer outra. Ou seja, eles usam um algodão premium e é feito em Portugal. Isso é, muitas vezes, os dois critérios de venda que eles aplicam para conseguir vender mais.
É altamente valorizado. E nós cá não valorizamos isso da mesma forma.
Sim, nós cá, o consumidor português não valoriza. Essa era outra, não temos marcas portuguesas ou temos muito poucas. Nós produzimos tanto e vendemos tudo para fora. Como é que é possível?
Claro.
Mas depois, eu digo isto, como um Estado, Portugal devia comunicar o Made in Portugal, a indústria, ou seja, o vestuário têxtil-lar, calçado.
Calçado, claro.
Como o turismo, por exemplo. Por que não se fazem campanhas de publicidade no exterior? Quais são os nossos principais mercados? Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Suécia, Copenhague, Dinamarca, Holanda, esse tipo de países. Por que nós não fazemos campanhas que são altamente direcionadas para promover a indústria têxtil?
Que valoriza e que no fundo permite também aumentar preços.
Se é algo que eles já percepcionam como positivo, como maior valor acrescentado, vamos forçar isso, mas não, não se faz nada disso. É o turismo.
Muito bem, José Pinheiro, telegraficamente, também.
Muito rapidamente. Eu, ao longo destas décadas de trabalho e de alguma intervenção nas associações onde participei, a primeira pergunta que me fazem há décadas é: por que Portugal não tem marca?
Sem fazer a questão, claro.
Essa é uma pergunta. Não temos marcas porque não temos dimensão.
Alugamos ora marca, ora fábrica.
Exatamente. O primeiro ponto é que não temos dimensão. O segundo ponto, não nos estruturamos para isso. Por que a Itália tem marcas? A Itália tem marcas porque tem muitas Tintex.
Mas deixa-me só dizer uma coisa, José. Eu não estou a dizer fazer marcas para o mercado doméstico.
Sim, estamos a falar de marcas.
Tudo o que é de fora.
Eu estou a falar de marcas mundiais, evidentemente, para o mercado doméstico, é relativamente pequeno.
E temos duas ou três. E temos uma muito grande.
Sim, temos aí algumas que se fixaram no mercado, mas que não deram o salto lá para fora. Eu estou a me referir marcas internacionais. Por exemplo, por que há uma Zara em Espanha? Primeiro, há uma Zara em Espanha.
A Helisa também não é muito grande.
Porque fica a 150 km de Portugal, não é azara, começa logo por aí.
Por quê? Porque eles vão fabricar ou iam fabricar em Portugal.
Mas por que não temos marcas em Portugal? Primeiro, porque não temos dimensão e segundo, o caminho que fizemos em termos de indústria foi mal feito. Não houve uma organização. Por que a Itália tem marcas? Porque a Itália tem meia dúzia de empresas. E quando eu digo meia dúzia, não são assim tantas como isso. São algumas dezenas de empresas de grande dimensão que se especializaram naquilo. Tem uma empresa que produz tecidos de alta qualidade para vestidos, outra que produz tecidos de alta qualidade para roupa, para fatos, outra, uma grande estamparia, por exemplo, a Marzotto, outra que faz tinturaria e as pequenas marcas não têm que investir na indústria. As pequenas marcas investem nas marcas, ponto final, porque têm ali o produto ao lado, mas é um produto. Não é um produto qualquer, é um produto certificado, porque eles fazem questão de fazer isso. Nós tentamos fazer como? Importando umas coisas da Ásia, da China, disso, e depois só há duas hipóteses: ou fazemos um produto igual ao dos outros ou enganamos e pomos um carimbo a dizer que é feito em Portugal e não é. Eu concordo e vejo isso. Se for aos Estados Unidos, se falar a qualquer dona de casa sobre roupa de cama, sobre toalháos de felpo, é Portugal, é marca. Se for ao Canadá, então, onde temos o chamado mercado da saudade, que ajuda também. É uma coisa que ninguém faz ideia. Eu ando por lá, nós andamos por lá, a nossa empresa anda por lá todos os dias, este momento a minha filha, evidente, já não sou eu. É impressionante como nós somos acolhidos, quer pelos clientes, quer pelos consumidores. Eu vim na semana passada do Canadá. Estive no Canadá em termos pessoais, meio turismo, e visitei alguns clientes, por exemplo, um department store, o mayor do Canadá. E uma das paredes com aquelas toalhas de felpos todas, aquelas coisas todas, era da Montextil. E eu fui falar com a vendedora e disse: "Então, que tal esta toalha?", "Isto é muito bom, feito em Portugal". E eu apresentei-me: "Olá, sou o José Pinheiro", e a senhora quase caía. Porque a verdade é esta. Nós temos culpa. Eu vou dizer uma coisa, isto já foi feito. Portugal está no turismo como está, porque há uns governos atrás, houve um grande secretário de Estado que arranjou com que se alguém clicasse na internet "o melhor destino para turismo para famílias", Portugal aparecia. "O melhor destino para golfe", Portugal aparecia. E conseguimos fazer isto. Se conseguimos fazer isto, por que não nos juntamos, primeiro nós, já agora, primeiro nós industriais. Mas depois não temos fundos. Em vez de andar a desperdiçar fundos em coisinhas, panfletos, palestras, etc, concentrar-nos, orientar-nos, assumir aquilo que somos. Um país pequeno, que tem grandes coisas em termos mundiais, desde logo o futebol, a cortiça, os tecidos lãs, os felpos também. Estamos no top 10 mundial e outras coisas por aí fora.
Vista Alegre.
Por exemplo.
Muitas marcas.
Claro, e outras que não vou falar, mas devemos assumir-nos. Eu tenho muito orgulho em ser português e tenho orgulho naquilo que estamos a fazer em termos industriais, dentro da indústria têxtil. Eu concordo com o que disse. Somos, talvez, a indústria que tem tido, porque somos internacionais e exportamos, tem tido um caminho mais interessante no tema da certificação. E estamos a liderar também, por exemplo, agora, que é o futuro, penso eu, que tem a ver com a reciclagem, com fechar os processos produtivos, com reprocessar produtos, porque a verdade é que consumimos demais e mal.
Certo. Manuel Pacheco, para fechar também. Tem alguma ideia para o têxtil?
Eu aqui sequer terminava com aquilo que é objeto também que nos levou aqui. Eu acho que a sustentabilidade é mais relevante quando cria valor real. E nós vemos que a sustentabilidade aqui é posicionamento estratégico. Se eu melhorar o meu produto, de facto, isto diferencia-me no preço, coloca-me na posição. Nós não queremos concorrer com o Paquistão, nem com a Índia, nem podemos, porque não podemos pagar salários desse valor. Não queremos conseguir. O único caminho é para cima. Portanto, se o caminho é para cima, temos que ver quais é que são os fatores que diferenciam o nosso produto para lá chegar. Essas certificações, aqui neste caso, nós vemos no contexto da banca, e como eu já falei, a banca vindo de fora, este setor é muito bom a nível propriamente da área de sustentabilidade, porque de facto já passou os desafios que nós achamos que são os mais relevantes. Outros, quer da indústria nacional, ainda estão a chegar. E o fato de ter-se tido esta exposição externa, de ter esta visão também de ser puxada pelas cadeias grandes, pelas empresas, forçou o setor a correr, que agora nós estamos quase que a andar atrás, nós os bancos. Mas acaba por ser um caminho também semelhante e que pode ser importado também noutros diferentes setores. Aqui a sustentabilidade foi um fator diferenciador. Traz custos, também traz aumento de preço.
Muito bem. Essa mensagem então de qualidade, de subida na cadeia de valor, criação de marca também, foi um gosto Manuel Pacheco, Pedro Silva, José Pinheiro, estar convosco aqui neste episódio de Empresas em Transformação. Esta é uma parceria entre o Novo Banco e o Observador. Hoje falámos do têxtil, sobretudo do caminho que o têxtil já fez e continua a fazer no cumprimento de critérios ambientais cada vez mais exigentes. A conversa resvalou também, e muito bem, para outras ações importantes do setor. Nós voltaremos proximamente com outro episódio, outros convidados e outro tema. Até lá. Obrigado.
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