Distopia S.A.: você quer suas notícias com ou sem alucinações?

Todos nos lembramos da euforia da Revolução do Twitter no Irã, em 2009, e da Primavera Árabe que veio na sequência pelo Facebook (2010-2012). Era inebriante ver o fluxo livre de informação nas redes sociais, vindo de cidadãos na linha de frente.
Mas também nos lembramos da ressaca brutal. O que acontece quando os autocratas derrubam a internet ou jogam seus cidadãos na cadeia? Quem continua documentando a história no Irã, no Egito ou na Síria para o resto do mundo?
Descobriu-se que os algoritmos das redes sociais não eram movidos pela busca da verdade.
O Vale do Silício percebeu que ganharia mais dinheiro promovendo raiva e indignação. Descobriu-se também que agentes mal-intencionados podiam manipular esses algoritmos para promover mentiras. Não surpreende que cidadãos sem formação não estivessem preparados para ajudar a sociedade a navegar pela poluição do nosso ecossistema de informação.
Avance mais uma década e cá estamos de novo, diante de mais um "assassino das agências de notícias": o futuro utópico da inteligência artificial.
ChatGPT, Claude, Gemini ou Grok conseguem varrer em segundos toda a produção jornalística do mundo e cuspir cinco parágrafos suculentos sobre qualquer coisa que esteja acontecendo no planeta.
É o chamado AI Overview, o resumo gerado por IA. Ele está derrubando o tráfego de sites de jornalismo confiável no mundo todo e raramente paga pelo jornalismo profissional, caro de produzir, que ele suga.
E, mais uma vez, nos perguntam: por que pagar pelo seu jornalismo profissional se a informação chega de graça e em tempo real? Por que gastar dinheiro com jornalistas para apurar informação que nossos novos amigos chatbots podem agregar?
Parte da resposta está no pequeno aviso do chatbot dizendo que a informação do seu resumo de IA pode, na verdade, estar errada. Você quer suas notícias com ou sem alucinações?
Chegar aos fatos custa dinheiro, tempo, conhecimento e esforço.
Quando um enorme colapso glacial no fim de agosto provocou enchentes repentinas e devastadoras na fronteira entre Nepal e Tibete, deixando mais de 1.300 mortos, a AFP enviou uma equipe de 11 jornalistas para regiões remotas do Nepal e da Índia.
Uma hora depois de a polícia confirmar as primeiras grandes inundações, três dos nossos jornalistas baseados em Katmandu já estavam na estrada.
Prakash Mathema, Anup Ojha e Prabin Ranabhat são nepaleses. Conhecem a língua, o terreno e as pessoas. Levavam câmeras e drones caros.
Um de nossos fotógrafos viajou 13 horas de moto e caminhão para chegar à principal zona do desastre. Depois, usou seus contatos para embarcar num helicóptero de ajuda humanitária e avançar ainda mais na área atingida. Suas impressionantes imagens de drone de vilarejos destruídos foram vistas no mundo inteiro.
Numa catástrofe em regiões remotas do planeta, muitas vezes não há internet. É preciso ter jornalistas no local, às vezes correndo grande risco pessoal, para testemunhar os acontecimentos.
Também é preciso ter jornalistas que conheçam o país e possam recorrer a uma rede de fontes confiáveis. Enquanto parte da nossa equipe no Nepal seguia para as montanhas, o restante ficou em Katmandu separando fato de boato à medida que surgiam relatos de mortos e desaparecidos.
Muitas das primeiras palavras e imagens confiáveis publicadas pela imprensa mundial vieram de agências como a AFP e de nossos colegas da Reuters e da AP.
Nossos clientes usam o conteúdo sem hesitar porque sabem que ele foi apurado de forma ética, seguindo os estatutos transparentes e os princípios de confiança que orientam o trabalho de todos os nossos jornalistas.
Sabem que empregamos jornalistas profissionais para apurar a informação e que investimos em treinamento e conhecimento para garantir que as pessoas que enviamos a situações de risco estejam bem preparadas.
Os clientes pagam pelo produto porque entendem que apuração de qualidade não é barata. Entendem também que seguimos as mesmas diretrizes éticas em qualquer lugar do planeta. Não faz diferença se o conteúdo vem do Nepal, de Nova York ou de Gaza: ele carrega o mesmo selo de qualidade.
Por outro lado, inventar coisas não custa nada. Lado a lado com as imagens jornalísticas reais da zona do desastre no Nepal, circulavam montes de deepfakes mostrando vilarejos destruídos e corpos enfileirados para sepultamento, tudo gerado artificialmente.
As ferramentas que nos deram os resumos de IA também deram a qualquer ser humano do planeta a capacidade de criar imagens falsas, confusas e nocivas, que entopem nossos feeds de notícias e muitas vezes viralizam nas redes sociais.
Na AFP, temos mais de 100 jornalistas dedicados exclusivamente a desmentir e checar essa maré crescente de falsidades. Combater a mentira e a manipulação se tornou um complemento jornalístico essencial à busca pela verdade.
Defender a verdade e os fatos custa dinheiro e exige valores. As redes globais das agências internacionais continuam sendo parte essencial do tecido do sistema global de informação. Elas devem ser valorizadas e defendidas.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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