Mortes: Gentil, dominava as artes plásticas e reconhecia a inovação inesperada
Ronald Cavalieri era um grandalhão gentil. Doce, generoso. Sabia da estética. Foi o arquiteto-chefe da 22ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1994.
Entre os seus trabalhos, por anos, com a Fundação Bienal de São Paulo, destacam-se as reformas no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, prédio projetado por Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera.
Ronald sabia das artes plásticas. Reconhecia a inovação inesperada. Há 30 anos, aprendi com ele a arte que se declarava no grafite, me apresentando os trabalhos de Basquiat.
Tudo em meio a conversas deliciosas sobre os detalhes sutis da arte brasileira dos anos 1950. Ele sabia das artes e da conversa.
A sutileza de Ronald incluía labirintos nos diálogos. Muitas sugestões, caminhos aparentados, e de repente a surpresa. Ele sugeria e esperava que você compreendesse. Ou ao menos assim me parece.
Nosso grupo de amigos, naquele Leblon do fim dos anos 1990, tinha rituais. Começávamos em botequins no sábado com toalha na mesa. Para quem não é carioca, tratava-se de reverência para quem quase virou sócio. Seguíamos entre restaurantes e andanças.
Por vezes, cozinhávamos. Na casa de um ou outro. Por vezes, restaurantes nos acolhiam, e um dos amigos ia para a cozinha preparar os pratos estranhos que inventávamos. O almoço com tornozelos de porco, cozidos por horas, foi memorável.
O cassoulet de Ronald era de entortar. A receita foi impecavelmente escrita em campos alternados da página. A arte contamina até as suas anotações de culinária.
Na sua casa restaram estantes seguidas de livros de culinárias; de muitos e muitos países.
Ronald cuidava dos afetos. E cozinhava admiravelmente. Ele sabia dos detalhes e dos tempos. A comida seduzia.
Era razoavelmente obsessivo. A imensa coleção de discos de vinil é um dos exemplos. Jazz e música brasileira.
Gestos cuidadosos; a fala delicada e gentil.
Cuidar do mundano, contudo, não era a sua praia. Comentava com precisão sobre a estética. Estudava com cuidado o urbanismo. E descobria o inusitado em meio a ideias surpreendentes. Mas tinha que ter alguém ao lado para transformar a sua impressionante curiosidade e criatividade em resultado.
Esse era Ronald, com seus talentos e inibições.
Seu cotidiano era generoso com suas pequenas delicadezas.
Ronald vivenciou com Daphne um afeto encantador por mais de 20 anos. Ela tentou dar alguma capacidade prática para Ronald (nem sempre com sucesso).
Ela me escreveu: "Homem, parceiro e companheiro; seus pensamentos sei de cor, mas são as mãos que mais me faltam".
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