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Saturday, October 31, 2026

O meu filho faz muitas birras. Devo ficar preocupado?

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Recentemente, numa consulta, a mãe de uma criança contou a Bárbara Salgueiro como o filho foi a chorar e a gritar durante uma viagem de carro de Lisboa para o Algarve. “Isto já não é uma birra, é uma desregulação intensíssima, um meltdown. Quando há estas desregulações muito intensas, muito prolongadas e muito repetidas, então temos de fazer uma avaliação para perceber o que se passa.”

Quando as birras são muito frequentes e intensas é necessário fazer muitas perguntas aos pais, para perceber as causas. Há dois mitos persistentes: achar que a criança tem alguma alguma perturbação do desenvolvimento ou que é mal educada. Mas pode haver muitas outras explicações.

Desde logo, há que olhar para um dos pilares do bem-estar, o sono, e perceber se é adequado. “Se dorme poucas horas, se tem um sono muito fragmentado, se tem apneia… Isto pode ter impacto no comportamento durante o dia, porque a criança não descansou bem.”

Depois é preciso perceber como é o comportamento geral da criança: “É muito agitada? Parece distraída? Interage pouco com os outros? Está permanentemente a testar os limites?” Estas são respostas que podem apontar na direção de diagnósticos como a perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA), a perturbação do espetro do autismo (PEA) ou a perturbação de oposição e desafio (POD), mas também para outras alterações do processamento sensorial que não se enquadrem num diagnóstico.

Também importa avaliar a linguagem. “Aos três anos é esperado que haja já uma linguagem com erros, mas fluida. Se a criança não tem linguagem suficiente para expressar o que sente e quer, isso pode comprometer muito a capacidade de autorregulação.” E por fim, é preciso perceber o contexto familiar: “é importante avaliar, por exemplo, se existem conflitos familiares, se os pais têm alguma condição do ponto de vista neurodesenvolvimental ou psiquiátrico, porque isso pode afetar a criança.”

A pediatra frisa que é frequente os pais chegarem à consulta cheios de sentimentos de culpa ou vergonha, quando as birras dos filhos são muitas, mas gosta sempre de lhes lembrar que estão, certamente, a fazer o melhor que podem e sabem. Apesar disso, como especialista, estes são alguns dos conselhos que transmite, para os ajudar a lidar com uma criança em plena birra:

  • Ter presente que cabe aos adultos manter a calma. Se a criança grita, devemos fazer o oposto: diminuir o tom de voz e falar calmamente.
  • É útil agacharmo-nos ao nível da criança e olhá-la nos olhos, para garantir que nos está a ver e ouvir. Em algumas situações, pode ser eficaz não reforçar o comportamento com atenção. Ninguém faz uma birra se não tiver público e, sem ninguém a assistir, por norma, o episódio extingue-se.
  • Quando a criança tem uma perturbação de neurodesenvolvimento (PHDA, PEA, POD) faz sentido seguir estratégias mais individuais, indicadas pelos profissionais que a acompanham: pode ser eficaz colocá-la num ambiente mais calmo ou dar-lhe um abraço com alguma pressão, por exemplo.
  • Bater e gritar nunca são uma resposta adequada. A criança não aprende a regular-se através do medo. Pelo contrário, estas reações podem agravar a desregulação e transmitir a ideia de que a força física é uma forma aceitável de resolver conflitos.
  • Dizer “não” e ser assertivo. Os limites e a firmeza criam segurança e ajudam a criança a ter balizas que vão ser essenciais para construir a sua capacidade de atenção, planeamento e controlo da impulsividade.
  • Não usar tablets e telemóveis para distrair a criança durante as birras. As atuais recomendações das principais sociedades pediátricas e neuropediátricas são claras: até aos três anos, os ecrãs táteis devem ser evitados, sendo a exceção a realização de videochamadas com familiares distantes.

Bárbara Salgueiro é pediatra do neurodesenvolvimento no Centro de Neurodesenvolvimento e Comportamento da Criança e do Adolescente do Hospital da Luz Lisboa.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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