'Poder à Prova': alta do custo de vida é uma das principais preocupações do eleitor americano

Este é o estilo texano de fazer churrasco: são horas e horas da carne cozinhando. Ela termina quase desmanchando. Por lá, o corte mais tradicional é o brisket. Para nós, no Brasil, o peito do boi. Mas não era o brisket que estava sendo anunciado no cartaz de uma churrascaria. Era a bochecha de boi.
Nilson Klava, correspondente: Vocês têm brisket?
Vendedor: Não temos.
Nilson Klava: Por quê?
Vendedor: Porque ficou caro demais. Então, a gente passou a trabalhar com outras carnes.
Não foi uma decisão fácil para o Andrew, que comanda o negócio.
“O brisket é o item mais popular do churrasco texano. Então, é um pouco estranho, sabe? Só que essa carne nunca esteve tão cara. Já foi metade do que está agora”, diz Andrew.
Tudo impacta. Tarifas, o preço do combustível e tem o rebanho nos Estados Unidos que vem encolhendo e diminuindo a oferta. E os problemas não param por aí.
“Esta semana, a gente não recebeu a encomenda das outras carnes porque uma das fábricas sofreu uma batida da polícia de imigração, o ICE. Aí eles nos avisaram que a fábrica foi fechada”, conta Andrew.
Cerca de 7,5 milhões de imigrantes ilegais trabalham nos Estados Unidos. Em alguns setores, como construção e agricultura, eles são mais de 10% da força de trabalho. Por isso, a crise migratória também impacta a economia. No balcão do Milton, também é o preço das coisas que domina o debate.
"Neste momento, as coisas estão difíceis. Eu votei no Trump na última eleição e não estou feliz com esse governo agora”, diz Milton.
“Precisamos acabar com essa guerra no Irã”, afirma Joseph.
Alta do custo de vida é uma das principais preocupações do eleitor americano — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução
Assim como o Joseph, a maioria dos americanos considera a guerra um erro. É que eles estão sentindo os efeitos dela ao pagar pela gasolina e pelo diesel, que encareceram muito desde o início da guerra no Irã. A gasolina subiu 34% em 12 meses. O diesel, quase 70%. A energia se tornou a grande vilã da inflação. Mas não é só ela.
“Não é um problema que começou agora. Agora, o Trump, como sempre, fez muita coisa para piorar. Entre elas, evidentemente, as tarifas, que encareceram muitas coisas. A campanha dele contra imigrantes, que em certas áreas aumentou muito o custo do trabalho. E, em terceiro lugar, um déficit muito grande”, explica José Scheinkman, economista e professor da Universidade de Columbia.
“Os números simplesmente não estão fechando”, afirma Daisy.
Uma pesquisa de outubro mostrou que 73% dos americanos estão muito preocupados com o preço da comida e de itens do dia a dia. Quase 30% não conseguem pagar todas as contas. Na pequena cidade de Perry, em Iowa, quando as contas não fecham, os moradores batem em uma porta: é uma despensa comunitária. A Amanda tem dois filhos e começou a contar com a ajuda desses voluntários.
“É que tudo está muito caro agora: aluguel, contas de luz e água, gasolina, até atendimento médico”, diz Amanda.
O bolso do americano foi decisivo para a eleição de Trump e, agora, pode ser decisivo para tirar a maioria dele no Congresso. É isso que o presidente tenta evitar.
“O que a gente está vendo como parte das ações de Trump são tentativas de modificar as regras eleitorais ou modificar uma parte delas, pelo menos, para amenizar o tamanho da derrota ou, às vezes, até evitá-la”, diz Cesar Zucco, professor de Relações Internacionais da Universidade de Columbia.
Nos Estados Unidos, o voto para a Câmara dos Deputados é distrital. Os estados são divididos em vários distritos e cada um elege um parlamentar. Trump apostou na mudança desses distritos. Para entender melhor, vamos voltar à Daisy e o bairro onde ela mora. Imagine que ele fosse dividido em dois distritos, com seis quarteirões cada. Agora, imagine que, desses seis, quatro seriam de maioria democrata e dois, de maioria republicana. Se a linha for traçada assim, cada distrito fica com dois democratas e um republicano. Resultado: democratas teriam dois deputados eleitos. Os republicanos, zero.
Mas agora olha o que acontece se a linha mudar de lugar. De um lado, temos três quarteirões democratas. Do outro, dois republicanos e só um democrata. Os eleitores são os mesmos. Mas, agora, o placar é um a um. Essa mudança nas linhas para favorecer um partido tem nome: “gerrymandering”.
“Só mudando o mapa, você muda o resultado da eleição. Não é o governo federal que desenha os mapas. São governos estaduais. Mas os governos estaduais alinhados com Trump foram muito agressivos no redesenho”, afirma Cesar Zucco.
Nos Estados Unidos, o voto para a Câmara dos Deputados é distrital. Os estados são divididos em vários distritos e cada um elege um parlamentar. — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução
O partido de Trump conseguiu aprovar o redesenho dos mapas em sete estados, entre eles o Texas. Os democratas responderam e fizeram o mesmo na Califórnia.
“Cada ciclo que muda, a gente tem cada vez menos disputas reais. Cada vez mais, a gente já sabe quem são os vencedores dos distritos antes da eleição. Então, essa é a grande mudança”, afirma Mauricio Moura, economista e professor da Universidade George Washington.
Das 435 vagas para a Câmara, só haverá competição mesmo para cerca de 20. E são essas que vão determinar o resultado da eleição.
“Pela matemática que a gente tem hoje, é altíssima a probabilidade de os democratas ganharem a Câmara”, diz Mauricio Moura.
É que não há desenho no mapa que mude um fato: os preços estão mais altos e eles podem colocar o poder do presidente à prova. No fundo, o que todos querem é uma vida melhor. É a promessa do sonho americano. O da Amanda está na despensa comunitária.
“O que eu espero é que eu não precise mais dessa ajuda e que eu possa estar aqui como voluntária”, diz Amanda.
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