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Wednesday, September 23, 2026

O Painel de azulejos do Rossio e a Casa da Ribeira em Viseu

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Olá, sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e estou aqui a acolher Jorge Adolfo Marques. Ele em Viseu, arqueólogo, historiador. Esta semana temos vindo a falar de Viseu e hoje vamos falar do painel das Lojas do Rossio e também da Casa de Oliveira, se tivermos tempo. Vamos a isso. Jorge, bem-vindo.

Olá, João. De facto, temos vindo a falar do capitão Almeida Moreira.

Exatamente, o seu filme "Viseu".

E de toda a sua atividade do filme, e não só, e de outras atividades ligadas à Comissão de Iniciativa e Turismo de Viseu.

E de como a cidade se transformou, não é?

Nós agora, a esta distância, temos aqui um documento histórico da maior importância. Nós poderíamos ter muitos documentos escritos, descrições nos jornais. Ele que escreveu também tanto nos jornais. Podíamos ter fotografias, mas temos aqui as imagens em movimento e as imagens de pessoas na sua cidade, nas ruas, na vivência cotidiana. É um registo emocionante. Eu já vi o filme várias vezes e é curioso que cada vez que vejo este documentário, este filme de promoção da cidade, descubro sempre qualquer coisa naquelas imagens que vejo. Ainda hoje, por acaso, estava a ver e vou encontrar numa quinta que é filmada aqui na cidade, na primeira parte desse filme, em que fala sobre o Viseu antigo, e mostra esse palacete, que é a Quinta de São Miguel. É curioso que junto a uma parede do edifício que está lá, da casa que está lá ainda, e que é uma casa da mesma família, dos descendentes de algumas crianças que aparecem lá no filme.

Curioso.

A brincar. A andar com um triciclo da época, por acaso, bastante engraçado. E encostado a uma parede está um sarcófago romano, em mármore, que foi encontrado ali em frente à quinta, portanto, numa estrada que foi alargada nos finais do século XIX, e que foi encontrada uma necrópole romana que estava em torno da Igreja de São Miguel de Fetal. E um dos vestígios que apareceu foi precisamente esse sarcófago, esse túmulo em pedra, em mármore, e que se encontra ali recolhido desde essa altura. E é engraçado que o filme mostra o sarcófago exatamente no sítio onde eu, ainda há poucos anos, o fotografei.

Que giro.

Portanto, ainda está exatamente no mesmo lugar. São pequenas curiosidades aqui sobre o filme. Um dos aspectos interessantes também do filme, e podemos começar por aí, é que ele retrata o Rossio, centro da cidade, mas quando filma a parede que dá para a estrada, que dá para o Rossio, e que é fronteira com o chamado Jardim das Mães, o Jardim Major Teles, não estão lá aqueles painéis de azulejos que hoje toda a gente vai fotografar. Quem não é de cá vai fotografar aqueles painéis com imagens, onde foram feitos desenhos de atividades que, em 1930, se considerava que retratavam a região. É um ex-libris, é uma fotografia, é como um postal ilustrado. Hoje as pessoas já não mandam postais ilustrados, hoje mandam e-mails e SMS.

Exato.

A comunicação é feita de forma um pouco diferente. Mas ainda há poucos anos se mandavam muito. Íamos de férias, comprávamos um postal lá da praia onde estávamos, ou do monumento, da igreja, e mandávamos o postalzinho por correio aos amigos, aos familiares. E as pessoas recebiam aquela imagem. Esta arte pública, utilizando um suporte que é genuinamente português, os azulejos. Estão presentes na arte portuguesa.

Artes decorativas.

Exatamente. Quer no espaço público, quer no espaço privado, estão a decorar, estão a ilustrar. No fundo, às vezes até funcionam como, e perdoem-me aqui a comparação, mas um pouco como banda desenhada. Contam uma história quase que aos quadradinhos, de um acontecimento, de um milagre. Ou então tem apenas um Um caráter decorativo e de preenchimento de parede.

Exato.

E aqui, o que aconteceu? Portanto, a comissão encomendou este painel de-

Azulejos.

De azulejos. Até as próprias cores são o azul e o branco. Muito bonito. A quem? Ao mestre Joaquim Lopes.

Que era professor, não era?

Exatamente. De quem o António Álva Moreira era muito amigo.

Estás a explicar.

Aliás, há muito pouco tempo, há poucos anos, meia dúzia de anos, foi publicada a correspondência entre os dois.

Ok.

A correspondência entre os dois e que retrata um bocadinho o relacionamento que eles têm. E não só o relacionamento enquanto amigos, mas também enquanto contratual, do pedido que ele faz.

Da encomenda que ele faz.

Da encomenda.

Para revestir esta curva do Rossio, como se chamava, com este painel de azulejos. Então pronto, ele era um reputado pintor, era professor da Escola de Belas Artes do Porto e ficou com a encomenda de pintar este painel. Então isso foi feito aonde e quem é que tinha que contratar?

Foi na fábrica do Aguero.

Aguero.

Em Vila Nova.

Era em Gaia.

Em Vila Nova de Gaia. Portanto, em Gaia, uma zona com uma grande tradição de produção de azulejar.

Claro.

Ele foi inaugurado em dezembro de 1931.

Ok.

Mas há um aspeto muito importante: é que este hoje é um ícone de Viseu.

Sim, completamente.

Mas ao olhar, é interessante, e por isso é que eu gostava aqui de fazer a ponte um bocadinho não só pra sociedade. A sociedade que está ali retratada é uma sociedade rural.

Sim.

Uma sociedade rural.

Pois, porque a ideia é essa. É o que mostra.

Nós temos lá a mulher com a capucha, as capuchas que são utilizadas, por exemplo, no Caramulo, ainda hoje. Ou no Caramulo, ou aqui no Monte Muro, na serra do Monte Muro, na serra do Caramulo. Ainda hoje são vendidas lá, ainda hoje se produzem. Hoje com um preço completamente diferente.

Exatamente.

Mas que eram muito utilizadas. E ainda hoje se vê, se as pessoas no inverno forem passear pra estas zonas, ainda se cruzam em algumas aldeias com mulheres já com alguma idade que vão com a capucha à cabeça. Porque aquilo, efetivamente, é muito quente e protege do frio e da chuva.

Portanto, a ideia era ter estas figuras do mundo rural beirão e cenas de feira.

A feira, a venda da olaria, da louça de Molelos.

Exatamente. Barro negro.

Da louça de Ribolhos. Está lá o gado, a feira de gado que existia aqui em Viseu e que continua a existir, mas que era muito mais comum há umas décadas atrás. E, portanto, esse mundo rural, de um território beirão muito rural, muito marcado pela ruralidade. E nós já falamos aqui até algumas vezes no aspecto do contraste entre uma cidade onde chega tudo, até as novidades de Paris.

É verdade.

E é uma cidade que está num meio profundamente rural.

Sim.

E, portanto, esta peça de arte inaugurada em 1931, do Joaquim Lopes, é hoje um ex-libris, é hoje um ícone da cidade.

Exatamente, completamente.

E nós encontramos algumas daquelas peças que estão lá desenhadas, que estão naquela parede, podemos encontrá-las aonde? No Museu Casa da Ribeira, que é um dos museus municipais-

Exatamente.

De Viseu, onde estão retratados também as tradições artesanais, essencialmente rurais.

É aqui na Casa da Ribeira, Jorge, que funciona esta Fundação para a Proteção do Artesanato, é isso? É aqui?

Era a Fundação para a Proteção do Artesanato e a partir de 2023-

Ah, então é recente.

Evoluiu.

Tornou-se museu.

Tornou-se museu. Sendo que mantém esse aspecto de preservação, sobretudo das tradições artesanais, embora tenha um espaço de exposições temporárias aberta a outras áreas que não propriamente só a etnografia ou as tradições artesanais deste território em que nos inserimos.

Muito curioso. Fica então esta história muito bonita e, de facto, como tu dizes, é um ícone completamente do chegar ao Rossio e ter toda aquela curva revestida por estes azulejos então, do mestre Joaquim Lopes, ficamos a saber, feitos nesta fábrica do Aguero, em Gaia, e que retratam então estas figuras alegóricas do mundo rural, o Beirão, estas cenas de feira. E de facto, é um ex-libris completamente da cidade de Viseu. Muito bem. Nós temos conversado por hoje, Jorge, e marcamos encontro então amanhã. Bem-hajas.

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