Documentário investiga como Jair Bolsonaro decifrou o código para a vitória: ‘Bolsonaro é fascista, mas não é burro’

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Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Miguel Antunes Ramos detalha a realização de Dragões, que estreou no Festival do Rio 2026 e também passa pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Henrique Nascimento (@hc_nascimento)
Nascido no pequeno munícipio de Glicério, no interior do estado de São Paulo, mas radicado no Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro passou despercebido por muitos anos. Militar reformado, ele entrou para a política em 1990 e, de lá, nunca mais saiu, apesar de nunca ter provido grandes realizações para os seus eleitores.
Em 2010, aliou-se às redes sociais para se projetar nacionalmente. Do estado fluminense, passou a falar com o Brasil inteiro. À fama de ser um homem que fala o que pensa, adicionou carisma e humildade, o que o levou a conquistar diversos seguidores.
Das redes, passou a ser figurinha carimbada em programas de TV. Apesar de desbocado e, muitas vezes, preconceituoso, passou a ser a voz de muitos brasileiros, que se identificavam com as suas promessas à favor da família tradicional brasileira — homem com mulher e nada além disso — e do mote “bandido bom, é bandido morto”.
Nunca foi levado a sério por seus adversários políticos até ser tarde demais. Oito anos após publicar o primeiro vídeo em seu canal no YouTube, Jair Bolsonaro foi eleito o 38º presidente do Brasil. Mas como isso aconteceu?
Em Dragões, que estreou no Festival do Rio 2026 e agora passa pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Miguel Antunes Ramos investiga como Bolsonaro desvendou as redes sociais, utilizando-as para galgar uma rápida ascensão política, e cooptou milhões de seguidores, que mantêm a sua máquina girando até hoje:
“Todo mundo à minha volta sempre teve muito desprezo [pelo Bolsonaro]. Se alguém falava que o Bolsonaro era burro, eu falava: ‘Não, burro ele não é’. Ele é fascista, é assassino, obviamente tem todos os defeitos possíveis, mas burro não é”, conta Ramos à Rolling Stone Brasil, ao explicar como surgiu a ideia para o documentário. “Eu lembro de ver essas imagens [produzidas e publicadas por Bolsonaro em suas redes sociais] e pensar: ‘Essas imagens são bem feitas’. Diante do bombardeio de imagens que vivemos, eu passei a olhar e pensar: ‘Tem algo aqui que a gente precisa conversar sobre. A gente não pode ignorar isso aqui, porque é eficaz, é eficiente”.
Dividido em três atos, Dragões começa falando sobre “O Cinema do Mito” e discorre sobre como Bolsonaro dirigiu a narrativa sobre si mesmo, para apresentar exatamente o que ele gostaria, não o que a mídia ou seus adversários políticos poderiam achar dele: “Ele construiu um personagem de si mesmo”, acrescenta o cineasta.
Segundo Ramos, a ideia para o filme nasceu há dez anos, próximo ao início da ascensão política de Bolsonaro, mas ganhou corpo a partir de 2018, quando foi eleito presidente do Brasil. O diretor começou a acompanhar cada passo do político, vigiando as suas redes sociais, salvando os vídeos que ele publicava e tentando entender como alguém como Bolsonaro havia chegado tão longe em tão pouco tempo:
“Entre 2021 e 2022, eu tinha entendido a linha geral do filme. Ele deveria pensar como [Bolsonaro] ascende ao poder com essas imagens. Depois, como ele governa com essas imagens, [como] essas imagens se tornam instrumento de governo. E, por fim, como ele encenava a própria ausência”, continua o cineasta, explicando os capítulos seguintes de Dragões, “O Cinema do Presidente” e “O Cinema dos Novos Dragões” — esse último sobre os seguidores de Bolsonaro, que ajudam a preservar a criatura mitológica criada pelo político.
Exibido para o público pela primeira vez no último dia 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições, Dragões chega em um período em que Bolsonaro não só desvendou o código para a vitória, mas construiu um legado, que ajudou a colocar aliados no topo da cadeia política:
“A primeira sessão foi no dia da eleição. Foi um dia muito louco. Estava muito difícil ver o filme como um filme, [porque] ele estava muito atravessado pelo real”, relembra Ramos. “Nos últimos quatro anos, parecia que a gente estava distante dessas imagens. Mas, de repente, [o filme] é lançado no dia em que percebemos que talvez vivamos algo próximo daqui muito em breve.”
“Para mim, diante de tudo o que a gente viveu e o horror dos anos de Bolsonaro [como presidente], o filme tem a importância de propor que a gente pense em coisas que não queremos pensar, como a inteligência da direita. Só se fala na burrice da direita, mas a gente deveria estar falando da inteligência, da eficácia. É uma conversa que a gente tem que ter”, completa o cineasta.
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Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, em São Paulo, Henrique Nascimento começou como estagiário na Veja São Paulo e passou por veículos como SBT, Exitoína, Yahoo! Brasil e UOL antes de se tornar coordenador do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo.
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