O PS ficou em 3º lugar nas eleições mas quer mandar na mesma

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Começa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão, sempre com Miguel Pinheiro. Fala Miguel, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. Quem é o teu bom de hoje?
O bom de hoje são os eleitores. Eu não sei se vocês estão a ver quem são. São aquelas pessoas que votam sempre que há eleições. São umas pessoas que têm opiniões também e que são opiniões tão válidas como aquelas que são exibidas pelos manifestantes das acampadas, por exemplo. Ontem, Pedro Duarte fez mais um convite aos ativistas da acampada do Porto pra uma reunião e foi humilhado, porque disseram-lhe que não. Acho que está a correr bem a Pedro Duarte, acho que deve continuar. O Presidente da República fez um convite semelhante à acampada do Porto e à de Lisboa, e aí já ouviu Sua Excelência, o senhor Presidente da República, Sua Excelência, Vossa Excelência, Excelência. E agora a Assembleia Popular vai decidir de braço no ar o que fazer com o Presidente da República. Vamos ver. É óbvio que António José Seguro ouve muita gente todos os dias, isso faz parte do trabalho dele, claro, mas convém que o Presidente da República nunca se esqueça de uma coisa: é que a opinião dos ativistas da acampada, que exigem tetos às rendas e outras medidas semelhantes que nos trouxeram até aqui, só os representa a eles. Há muita gente que não se sente representada por essas opiniões e por isso eu espero que António José Seguro não lhes dê uma importância que não têm, porque há também os eleitores. Já agora, convém não nos esquecermos dos eleitores. Também existem.
Certo. E há várias formas de resolver isto. Não tem que ser necessariamente o Presidente da República a recebê-los, mas enfim.
Sim, imagino que mande alguém falar com eles. Mas vou te dizer, Paulo, eu acho que a bem da transparência e a bem da democracia popular, essa reunião devia ser transmitida, até porque, como se sabe, as pessoas que falam nas acampadas, os porta-vozes, tudo aquilo é muito informal, porque o povo é quem mais ordena. Portanto, eu acho que o povo devia ouvir essa reunião. Desejavelmente, aliás, os representantes do Presidente da República deviam ir a uma assembleia popular na Praça Dom João I e no Rossio, participar da assembleia popular. Acho que isso é que era a maneira de fazer isto.
Isso é que era democrático, de facto.
Eu acho que sim.
Miguel, o teu mau esteve na acampada.
Sim, os partidos de esquerda foram a correr pra acampada, tirando o PCP, que manteve alguma dignidade, mas os restantes partidos de esquerda estão desesperadamente a enviar deputados pro Rossio pra tentarem tomar conta das manifestações pela habitação. Primeiro, estiveram discretos, depois o deputado único do bloco, Fabian Figueiredo, ganhou protagonismo numa das noites em que houve intervenção policial. E a partir daí, eu imagino que os outros tenham pensado: "Meu Deus, temos que ir lá". E então este fim de semana lá foram eles marcarem-se uns aos outros pela equipa do Bloco de Esquerda, que remédio, repetiu-se Fabian Figueiredo, porque seguindo a vontade dos eleitores, o partido não tem mais nenhum deputado, é só um. Apesar disso, teve o apoio nas bancadas das irmãs Mortágua, que de resto, já agora, foram responsáveis pelo esvaziar eleitoral do Bloco, mas lá estavam. Depois tivemos também a equipa do LIVRE, com os co-líderes Isabel Mendes Lopes e Jorge Pinto. Onde vai um, vai o outro, sempre ali ao lado um do outro, não se separam. E depois uma grande novidade é que entrou em campo pela primeira vez a equipa do PS, com os deputados Pedro Delgado Alves e Eva Cruzeiro. Lá estiveram a tentar mediar as conversações. Os manifestantes gostam de usar o slogan "Cheira a ditadura", mas eu acho que também cheira a votos e por isso nenhum partido de esquerda quer ficar para trás. Lá estão eles apresentando-se ao serviço.
E ainda há quem critica a economia de mercado e a concorrência.
Não é?
Isto é ótimo. Olha como estão todos a marcarem-se uns aos outros.
É verdade. E assim, a pouco e pouco, a democracia popular transforma-se numa democracia partidária. Já viste que bonito que isto é.
Miguel, o teu vilão é o PS. Por quê?
Porque este fim de semana José Luís Carneiro falou muito. Lá está, não quer ficar para trás. Disse, por exemplo, isto, eu vou citá-lo: "Eu, se fosse primeiro-ministro, procuraria enviar uma delegação do governo pra falar com aqueles que estão nas manifestações e procurar estabelecer um canal de diálogo institucional. O diálogo é a solução." Ora, o PS não está no governo, mas eu não consigo entender o que impede José Luís Carneiro de participar ele próprio, lá está, até pedir com António José Seguro, numa assembleia popular no Rossio ou na Praça Dom João I. Por que ele não vai lá falar com os manifestantes? Ainda por cima, segundo entendi, nas assembleias populares, fala quem quer. Então por que o José Luís Carneiro não vai lá falar com eles? Precisa de estar no governo pra isso? Não precisa, ninguém o impede. Depois, outra coisa interessante que o líder do PS disse este fim de semana foi esta, vou citá-lo outra vez: "Já não sei se uma remodelação será suficiente." Estava ele a falar sobre a capacidade deste governo durar. Ora, se José Luís Carneiro já entendeu que era preciso uma remodelação e agora já acha que essa remodelação não é suficiente, ele tem um bom remédio. O orçamento de Estado foi aprovado na generalidade, agora vai ser discutido na especialidade, haverá votações finais, chumba o orçamento. É fácil. Se o PS entende que isto já não vai lá, chumba o orçamento, manda o governo abaixo, apresenta uma moção de censura ao governo. Enfim, faz tudo isso. Agora, o que não pode continuar a acontecer é o PS perder eleições e achar que pode continuar a mandar. Até porque nós estamos numa situação nova. Isto vai avançando. Porque o PS já ficou em primeiro lugar em eleições e, naturalmente, governou. Ficou em primeiro lugar. Depois, o PS já ficou em segundo lugar nas eleições e com a invenção da geringonça, continuou a governar. Portanto, primeiro lugar governou, segundo lugar governou. Agora o PS ficou em terceiro lugar nas eleições, porque tem menos deputados do que a AD e do que o Chega, e mesmo assim quer governar. Portanto, o PS, mesmo quando fica em terceiro lugar, acha que tem de mandar no governo. A dada altura, daqui a um bocado, fica em quinto lugar nas eleições e lá vamos nós pôr o PS a mandar o país na mesma. Não sei se há aqui um direito divino a governar, se calhar há.
Direito adquirido, Miguel, é assim que se chama.
O escapião.
Isso.
Já agora, pra usarmos estas expressões que nos ligam à habitação.
Vamos ao resumo: o bom de hoje são os eleitores, o mau são os partidos de esquerda e o vilão é o PS. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 300. E sentiu que também pode ouvir em podcast.
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