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Saturday, September 19, 2026

Lula muda estratégia, parte para o ataque contra Flávio e aposta em propostas populares

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Em meio à crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e sob pressão das pesquisas de intenção de voto, que mostram um empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu principal rival nas eleições, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a campanha de Lula mudou sua estratégia: o presidente passou  a fazer críticas diretas a Flávio e, para ganhar votos, vai enfatizar novas propostas com apelo popular.

Membros da campanha já admitem, inclusive publicamente, que a campanha sofreu um desgaste nas últimas semanas em razão das suspeitas sobre a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro e a uma campanha tida até por aliados de Lula como excessivamente focada em realizações do governo e menos em propostas futuras. O enfoque, considerado um erro, foi mudado para priorizar propostas novas. 

Em uma entrevista na sexta-feira, 18, o presidente do PT, Edinho Silva, afirmou que é inegável que a crise institucional atingiu a campanha, mas que Lula tem respondido de forma coerente.

Crise no STF e defesa das investigações

A nova estratégia de Lula tem duas frentes. No âmbito do STF, o presidente tem defendiso uma reforma do Judiciário com limitação de mandatos a membros das cortes superiores e, ao comentar diretamente a crise, tem afirmado que responsáveis por crimes têm de ser penalizados por sua ações, ao mesmo tempo em que critica o que tem classificado como atuação política do ministro André Mendonça, ex-relator do caso Master, com o suposto intuito de beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Há o entendimento entre aliados próximos a Lula e mebros da campanha ouvidos pela EXAME que a postura de Lula estava muito defensiva em relação à narrativa do bolsonarismo de ligá-lo à crise. Por isso, na última semana, o próprio presidente tem feito críticas diretas a Flávio Bolsonaro, buscando atribuir o caso Master ao governo de Jair Bolsonaro. Lula tem repetido, em discursos e declarações públicas, que Flávio "está nervosinho" com a possibilidade de surgirem mais indícios de sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. 

O presidente também tem repetido, como mantra, a declaração de que "na época deles (os Bolsonaro), o bandido virou banqueiro. No meu mandato, ele virou prisioneiro".

Além disso, Lula também já afirmou nesta semana, sem citar nomes, que há cinco ministros do STF citados em conversas com Vorcaro e afirmou que todos devem ser investigados.

Até duas semanas atrás, a campanha concentrava toda a crítica a Flávio Bolsonaro em aliados de Lula e em pequenas inserções no programa eleitoral, sem críticas vocalizadas pelo próprio presidente. Após pressões de aliados, inclusive em reuniões com Edinho Silva, a estratégia agora é partir para o ataque.

De acordo com um integrante da campanha de Lula ouvido sob reserva, a ofensiva busca estancar o crescimento de Flávio. Para fazer Lula crescer, entra em cena um arsenal de novas propostas com apelo popular que têm sido anunciadas uma a uma.

Propostas para subir nas pesquisas

Fora do âmbito das propostas, a principal ferramenta para turbinar o apoio popular de Lula foi o reajuste do Bolsa Família anunciado nesta quinta-feira, 17, que  repõe a inflação acumulada entre março de 2023, quando o programa foi relançado, até agosto deste ano. 

Embora o governo negue o caráter eleitoreiro, na avaliação de aliados de Lula ouvidos pela EXAME, a medida deve solidificar ou até ampliar o apoio de beneficiários do programa à reeleição do presidente. De acordo com a mais recente pesquisa Datafolha, divulgada no dia do reajuste do programa, em 17 de setembro, Lula tem 53% das intenções de voto entre quem recebe o Bolsa Família no primeiro turno, ante 28% de Flávio Bolsonaro. O primeiro pagamento reajustado do Bolsa Família começa a ser feito em 19 de outubro, depois do primeiro turno, mas antes do segundo.

Canetas emagrecedoras no SUS

No mesmo dia do anúncio do reajuste nos valores do Bolsa Família, Lula afirmou, durante uma visita a uma fábrica do laboratório farmacêutico Eurofarma, em Montes Claros (MG), que o Sistema Único de Saúde (SUS) vai fornecer as chamadas canetas emagrecedoras no sistema público de saúde a pacientes que tenham obesidade. 

"As canetas emagrecedoras vão ser oferecidas no SUS, elas vão ampliar o acesso ao tratamento da obesidade, sempre com muita responsabilidade e protocolos médicos rigorosos, e proporcionar maior qualidade de vida para a população", disse o presidente em uma postagem nas redes sociais logo após a sua fala.

O uso de medicamentos com semaglutida ou tirzepatida como princípio ativo tem mostrado eficácia no tratamento da obesidade, mas não estão disponíveis na rede pública e têm custos elevados. O preço de uma caneta do Ozempic, por exemplo, supera R$ 850.

O anúncio de Lula ocorre após o Ministério da Saúde e a Anvisa terem iniciado, no ano passado, a quebra de patentes desses medicamentos, o que reduz os preços. A pasta também conduz um estudo sobre o uso de canetas em um grupo de pacientes com obesidade grave.

Além dos discursos, a campanha de Lula passou a exibir, antes de cada comício do presidente, um QR code e links para uma página com propostas de Lula para o próximo governo. O site destaca as propostas já anunciadas, como o fim da escala 6x1 e a criação do Ministério da Segurança Pública.

Fim das bets na mira

Em Guarulhos, nesta sexta-feira, Lula anunciou mais uma proposta. Pela primeira vez, disse que “vai acabar” com as casas de aposta no país. A proposta, que já estava em discussão há meses no governo, enfrenta a resistência de parte da base aliada e da equipe econômica, dado que a regulamentação das bets hoje permite que o governo arrecade impostos com a atividade. 

Entre janeiro e julho deste ano, a União arrecadou R$ 8,75 bilhões com a tributação de jogos e apostas, de acordo com dados da Receita Federal. O montante representa um crescimento de 76% em relação ao ano passado.

Lula tem engrossado o discurso contra bets desde antes da campanha, mas ainda não se havia comprometido com a proibição da atividade no Brasil. Nesta sexta, o presidente disse, durante um comício, que vai vedar as apostas online no país em um novo governo.

“Essa jogatina na internet é um vício, é uma doença. A gente vai acabar com as bets e vai acabar com a lavagem de dinheiro, a safadeza e a roubalheira. Pode se preparar”, disse Lula.

O presidente já havia dito que, se dependesse só dele, já teria proibido a atividade. Um integrante da campanha diz que Lula pediu mais dados e ponderou entre restringir ainda mais a atividade e proibí-la de vez. No PT, aliados próximos ao presidente já vinham defendendo que Lula anunciasse uma proibição drástica, o que, argumentam, poderia lhe render votos entre o público contrário à jogatina.

Pesquisas como a da AtlasIntel, de abril deste ano, em que 86,7% disseram ser contrários as bets no país e 35,3% atribuíam a disseminação dos jogos online ao governo Lula, são citadas por petistas que defendem um banimento dessas plataformas. O cálculo de um ex-dirigente petista é que a promessa de proibição possa ajudar a conquistar, em especial, o voto de mulheres e de evangélicos.

O governo também prepara um novo pacote voltado para reduzir o envividamento das famílias que seria complementar ao Desenrola. Essa medida permitiria a recompra da dívida de pessoas físicas pelo governo, mas ainda há debate na equipe econômica e na Casa Civil quanto à viabilidade jurídica de se lançar um programa do tipo a menos de 16 dias do primeiro turno.

Na segurança pública, Lula passou a enfatizar, além da necessidade da aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública — que dá poder à União para apoiar estados no combate ao crime —, uma proposta de retomada do controle de territórios hoje tomados por facções criminosas. A promessa, que ainda carece de detalhamento, foi repetida diversas vezes durante a visita de Lula ao Rio de Janeiro, na sexta-feira, 18. 

Para o cientista político Aldo Fornazieri, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a mudança de estratégia de Lula é bem-vinda, mas pode ter chegado tarde demais.

“A campanha do PT e do Lula ainda sofre pela baixa capacidade de reação. Deveria ter partido para o ataque mais cedo e, em vez de dar explicações, Lula deveria buscar se descolar de Alexandre de Moraes e deixar claro que o STF não é um problema do Executivo. Quando Moraes é visto como aliado de Lula, isso joga contra a campanha”, afirma ele.

Fornazieri afirma que a campanha de Flácio, que fala, em linguagem simples, sobre o aumento do custo de vida, teve como resposta o reconhecimento, por parte de Lula, de que o custo de vida não está bom. “O reajuste do Bolsa Família, que também é uma resposta, pode ter impacto eleitoral, mas limitado, porque os beneficiários já votam majoritariamente em Lula”, diz ele.

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