Por que shows sem smartphones se tornaram um negócio milionário
RESUMO +
Shows sem celular ganham espaço entre artistas que querem recuperar a atenção do público e transformar a apresentação em uma experiência mais imersiva. Phoebe Bridgers adotou a prática em sua nova turnê, seguindo nomes como Dave Chappelle, Jack White, Tool e Madonna. A empresa Yondr transformou o bloqueio de aparelhos em um negócio usado em shows, clubes e eventos.
Esqueça as trends do TikTok ou os stories do Instagram — em um show com cerca de 18 mil pessoas no Madison Square Garden, em Nova York, em junho deste ano, nenhum dos fãs presentes podia estar com o celular nas mãos.
Na entrada, todos os aparelhos, relógios inteligentes e acessórios tecnológicos foram trancados em bolsas, que o público manteve consigo até o fim da apresentação, quando foram destravadas. Quem fosse visto usando um dispositivo seria retirado da arena.
A regra era da cantora americana Phoebe Bridgers, um dos nomes mais populares entre os jovens da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012). O show surpresa, com ingressos de US$ 1 a US$ 20 e renda revertida para um fundo de apoio a imigrantes, reuniu uma plateia que não tinha para onde olhar a não ser para o palco, onde ela apresentou oito músicas — até então — inéditas.
A experiência deu tão certo que virou política da "The Lost Tour", turnê de arenas que a artista começou em 14 de setembro, em Indianápolis, nos Estados Unidos, também sem celulares.
Na quinta-feira, 24, Bridgers voltou a se apresentar em Nova York e, novamente, sem smartphones permitidos na plateia. Em entrevista à EXAME, a jornalista Isabela Fleischmann contou que a experiência a fez se sentir "extraordinariamente presente".
"Eu tenho muito esse 'FOMO' [medo de ficar de fora, na sigla em inglês]. E no meu trabalho existe uma sensação de que você precisa estar disponível o tempo inteiro, porque alguma coisa pode acontecer a qualquer momento", diz. "Depois que você aceita que não vai olhar o celular, você fica extraordinariamente presente. Você está realmente assistindo ao show pelo qual pagou. Não está pensando em filmar, postar, responder mensagem ou conferir alguma notificação."
Fleischmann conta que a ausência dos celulares mudou "completamente a experiência visual" do show. "Sem milhares de telas e luzes na frente do palco, os efeitos de iluminação funcionaram exatamente como foram pensados. Foi uma experiência muito imersiva", afirma.
Uma tendência entre gerações
Bridgers não está sozinha nessa tendência. Depois de uma década em que a imagem mais comum de um show foi uma multidão filmando o palco pela tela do celular, uma parte crescente da indústria da música aposta em esconder o aparelho e vender a experiência de estar presente.
O primeiro grande artista a adotar o sistema foi o comediante Dave Chappelle, em 2015, preocupado com piadas vazadas nas redes antes de estrearem oficialmente. Naquele ano, cerca de 25 mil pessoas trancaram seus celulares.
A lista de artistas que aderiram é longa. Em 2018, Jack White anunciou que sua turnê americana seria uma experiência "100% humana". "Você vai ao cinema e todo mundo desliga o telefone. Na orquestra, sem celular. Na igreja, sem celular. Vamos tentar num show de rock e ver o que acontece", disse ele na época ao jornal Toronto Star.
A banda Tool ameaça retirar sem reembolso quem usar o aparelho, e o Ghost adotou a mesma regra em Los Angeles, com expulsão para quem descumprir. O Iron Maiden fechou parceria com a Yondr para lacrar os celulares da pista em um show em Paris.
Madonna também virou uma das vozes mais ativas contra o hábito. Na pré-estreia do filme Confessions II, em junho, em Nova York, o público precisou guardar os celulares em bolsas lacradas.
"Larguem esses malditos celulares e interajam uns com os outros", disse a cantora ao jornalista Anderson Cooper, depois de se impressionar com a quantidade de pessoas filmando sua participação no show de Sabrina Carpenter no Coachella, em abril deste ano.
Nem sempre é preciso uma bolsa para esconder a tecnologia. Em clubes de música eletrônica de Berlim, o padrão é colar um adesivo sobre a câmera do celular na entrada, tanto para preservar a experiência quanto a privacidade de quem frequenta.
Na Holanda, o Offline Club, criado em 2024, cobra 14 euros para que as pessoas passem algumas horas em cafés e bibliotecas com o celular lacrado, lendo, conversando ou ouvindo música. O projeto já chegou à França e ao Reino Unido.
A 'dona da bolsa'
Por trás de boa parte desses shows está a Yondr, empresa americana fundada em 2014, em São Francisco, pelo ex-jogador de futebol profissional Graham Dugoni, que fabrica bolsas com trava magnética para celulares.
Na entrada, o público guarda o aparelho numa capa que se fecha sozinha e só pode ser aberta em pontos específicos, geralmente na saída. A pessoa continua com o celular no bolso, mas não consegue usá-lo durante a apresentação.
A ideia nasceu em um festival de música em 2012, quando Dugoni viu um homem bêbado sendo filmado pela plateia. Nos primeiros anos, cerca de 70% da receita da Yondr vinha de shows e apresentações — hoje, o negócio inverteu por completo e as escolas se tornaram o principal mercado da empresa.
As bolsas já são usadas diariamente por cerca de 3 milhões de estudantes em todos os 50 estados americanos e mais de 45 países, a um custo de US$ 20 a US$ 30 por aluno.
Segundo a consultoria GovSpend, que rastreia contratos públicos, a Yondr faturou US$ 19 milhões só com escolas públicas americanas em 2025 — uma alta de mais de dez vezes desde 2021, quando o faturamento com contratos governamentais era de cerca de US$ 174 mil.
A empresa, hoje com cerca de 150 funcionários, não divulga faturamento total nem avaliação de mercado, mas diz registrar "crescimento sustentado de três dígitos" nos últimos três anos. Seu fundador afirma que a companhia já é lucrativa. Segundo o próprio Dugoni, os próximos mercados de crescimento da empresa devem ser tribunais e creches.
A gen Z quer ser analógica
O apetite por trancar o próprio celular não se limita à bolsa da Yondr. Uma fatia crescente de jovens tem trocado o smartphone por aparelhos mais simples.
As vendas de flip phones e celulares sem internet entre usuários de 18 a 24 anos cresceram 148% entre 2021 e 2024 nos Estados Unidos, segundo dados citados pela revista BGR.
O mercado global de celulares básicos deve saltar de US$ 39,11 bilhões em 2025 para US$ 49,66 bilhões em 2030, de acordo com a consultoria Research and Markets, em um movimento turbinado por hashtags como #bringbackflipphones. Se trancar o smartphone numa bolsa é uma solução temporária, para essas pessoas a resposta tem sido mais radical — simplesmente não carregar um smartphone o tempo todo.
As vendas de vinil nos Estados Unidos ultrapassaram US$ 1 bilhão em 2025 — a primeira vez que o mercado supera essa marca desde 1983 —, no décimo nono ano consecutivo de crescimento, segundo dados da Recording Industry Association of America (RIAA) compilados pelo jornal britânico The Guardian.
A febre também alcançou câmeras. O interesse por equipamentos analógicos e digitais compactos entre a geração Z é puxado por tendências das redes sociais, mesmo com smartphones capazes de fotos em alta resolução.
Para o autor americano David Marx, esse apego generalizado ao passado tem uma explicação que vai além da estética: é sintoma de uma cultura viciada na própria nostalgia.
Em seu livro Blank Space, Marx argumenta que o século XXI abandonou a ideia de progresso cultural e passou a operar em modo de reciclagem permanente, movido por três fatores centrais. São eles a acessibilidade digital ilimitada, estratégias de mercado de baixo risco e a busca por autenticidade num cenário dominado pela cultura "plástica" do presente.
"O que é interessante no século 21 é o quanto o passado parecia mais interessante em comparação com o presente. Os Beatles se recusavam a ouvir jazz; eles estavam focados apenas na música contemporânea e empurrando o rock para frente. Hoje, somos muito mais onívoros no modo como consumimos: cultura alta e baixa, passado e presente", afirmou Marx em entrevista à EXAME no ano passado.
A disponibilidade total do passado nas plataformas digitais ajuda a explicar por que ele nunca envelhece de fato. Spotify e YouTube tratam álbuns antigos com o mesmo destaque que os lançamentos atuais, o que, segundo Marx, impede que estilos musicais se tornem obsoletos — e cria um ambiente de exaustão criativa em que ganchos e melodias de sucessos antigos são reciclados em novas músicas.
É a mesma lógica, aplicada ao objeto físico, que explica a busca por um vinil, uma câmera analógica ou um celular sem internet. Não é apenas nostalgia de uma época vivida, mas o desejo de uma experiência concreta, deliberadamente mais lenta, num mundo em que tudo o que já existiu continua disponível a um clique de distância.
O Brasil ainda engatinha
No Brasil, a tendência de não levar smartphones em shows ainda é tímida. Por aqui, os eventos sem celular se concentram em espetáculos de teatro, audições de discos e gravações em que o registro poderia estragar o ineditismo, como as do Tiny Desk Brasil, em que a plateia lacra os aparelhos antes de entrar no estúdio, segundo a revista Noize.
Um dos artistas brasileiros que já falou publicamente sobre o tema foi Emicida. Em entrevista ao PodPah, o rapper explicou que filmar não é o problema em si, mas sim quando o excesso de telas e os pedidos por gravações de vídeo quebram a conexão direta com o público durante o show.
Ele reconhece um paradoxo na própria posição: sua trajetória ganhou força justamente graças a registros feitos e compartilhados na internet, mas aponta que viver o show apenas pela tela do celular diminui a troca ao vivo com a plateia.
Para ele, o incômodo surge quando fãs passam do ponto — jogando aparelhos no palco ou tentando produzir conteúdo a qualquer custo —, perdendo de vista a própria experiência presencial que foram buscar no show.

Emicida: cantor afirmou que se incomoda quando fãs 'passam do ponto' com smartphones em shows (Reprodução)
Algumas iniciativas começam a testar o formato de forma mais estruturada. O Festival Contra.Cena, marcado para 16 de outubro na Casa Rockambole, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, vai colar um adesivo sobre a câmera dos celulares na entrada, ideia da produtora Ray Sanchez, idealizadora do festival.
Festas como a ERRORR já testaram o modelo, e a Heineken promoveu no Rio de Janeiro um evento secreto com show surpresa de Joss Stone em que os convidados usavam celulares sem redes sociais.
A resistência tem explicação. O brasileiro passa mais de cinco horas por dia no celular, e 88,9% da população com 10 anos ou mais tinha um aparelho para uso pessoal em 2024, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para uma geração que cresceu cronicamente online, ficar duas horas sem tela pode parecer punição. Para quem já experimentou, porém, pode ser justamente o contrário.
"Saí de lá pensando que gostaria que mais shows fossem assim. É uma experiência que obriga você a fazer uma coisa que hoje parece cada vez mais difícil: simplesmente viver o presente", diz.
Perguntas frequentes
Por que alguns shows estão proibindo celulares? +
Artistas passaram a restringir celulares para evitar gravações, vazamentos e distrações durante as apresentações. A proposta é fazer o público acompanhar o espetáculo sem olhar para a tela e aumentar a sensação de presença no evento.
Como funciona um show sem celular? +
Na maioria dos casos, os aparelhos são guardados em bolsas com trava na entrada. O público continua com o celular, mas só consegue desbloqueá-lo em áreas específicas ou após o fim do evento.
O que é a Yondr, empresa que bloqueia celulares em eventos? +
A Yondr é uma empresa americana que fabrica bolsas com trava magnética para impedir o uso de celulares durante eventos. A tecnologia foi criada por Graham Dugoni e começou a ganhar destaque em shows e apresentações de comédia.
Quais artistas já fizeram shows sem celulares? +
Dave Chappelle foi um dos primeiros grandes nomes a adotar o sistema, em 2015. Artistas como Phoebe Bridgers, Jack White, Tool, Ghost, Iron Maiden e Madonna também já restringiram o uso de celulares em apresentações ou eventos.
Por que Phoebe Bridgers proibiu celulares em seus shows? +
Phoebe Bridgers adotou a regra para criar uma experiência mais concentrada para o público. A decisão começou em um show beneficente no Madison Square Garden e depois virou política da turnê The Lost Tour.
Shows sem celular já existem no Brasil? +
A prática ainda é pouco comum no Brasil. Algumas iniciativas usam restrições semelhantes em eventos específicos, como gravações musicais, espetáculos de teatro e festivais que cobrem a câmera do celular ou lacram aparelhos.
Por que a tendência dos shows sem celular cresce agora? +
A popularização dos smartphones transformou o público de shows em produtores de conteúdo, mas artistas e produtores passaram a buscar formas de recuperar a atenção presencial. O movimento acompanha debates sobre excesso de telas e uso constante de dispositivos digitais.
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