Quanto investir por mês para um filho chegar aos 18 anos com R$ 100 mil
RESUMO +
Mais de 60 mil crianças e adolescentes de até 17 anos mantinham cerca de R$ 3,5 bilhões em renda variável em outubro, segundo a operadora da bolsa brasileira B3. Para acumular R$ 100 mil aos 18 anos, simulações dos executivos André Matos e Antônio Patrus indicam aportes mensais de R$ 215 a R$ 263 desde o nascimento, conforme a rentabilidade.
Ter ações antes mesmo de ter idade para dirigir já deixou de ser exceção no Brasil. Mais de 60 mil crianças e adolescentes de até 17 anos mantêm investimentos em renda variável e, juntos, acumulam cerca de R$ 3,5 bilhões em ativos negociados na bolsa brasileira em outubro, segundo a B3.
O número de jovens investidores cresceu 58% desde dezembro de 2022. Em vez de concentrar as economias dos filhos na poupança, parte das famílias passou a recorrer ao mercado de capitais, com investimentos em ações, fundos imobiliários e fundos que acompanham índices da bolsa (ETFs, em inglês).
A superintendente de negócios para pessoa física da B3, Christianne Bariquelli, destacou que "investir deixou de ser uma conversa restrita aos adultos", e cada vez mais famílias estão pensando no planejamento financeiro de longo prazo para os filhos terem mais oportunidades no futuro.
O crescimento desse mercado também levanta uma questão. Quanto é preciso investir por mês para que uma criança chegue aos 18 anos com R$ 100 mil? As contas feitas para esta reportagem mostram que, começando no nascimento, o valor fica entre R$ 215 e R$ 263 por mês, a depender da rentabilidade.
Começar cedo muda completamente a conta
O CEO da MA7 Capital, André Matos, usa uma rentabilidade hipotética de 8% ao ano já líquida de Imposto de Renda (IR) para fazer a simulação. Com essa premissa, quem começa a investir logo no nascimento precisaria aportar cerca de R$ 215 por mês para chegar aos R$ 100 mil aos 18 anos.
A taxa, de acordo com o especialista, busca evitar uma armadilha comum em planejamentos de longo prazo, que é projetar por quase duas décadas o nível de juros disponível hoje. Ao longo de 18 anos, a economia passa por períodos de juros altos e baixos, inflação maior ou menor e diferentes momentos do mercado.
"Prefiro uma taxa conservadora. A Selic hoje está alta (em 13,25% ao ano), mas em 18 anos os juros passam por vários ciclos, e fazer a conta com a taxa atual superestima o resultado", explica.
Já considerando rentabilidade hipotética de 6% ao ano líquida de impostos e custos, sem aporte inicial e com aplicações feitas ao fim de cada mês, seriam necessários, aproximadamente, R$ 263 mensais desde o nascimento, na avaliação do CEO da Bossa Invest, Antônio Patrus.
Patrus defende, ainda, trabalhar com diferentes cenários, entre 4% e 8% ao ano líquidos, a fim de visualizar como mudanças na rentabilidade podem alterar o patrimônio acumulado.
Aos 15 anos, aportes podem passar de R$ 2 mil
Se os R$ 215 mensais parecem um valor relativamente pequeno diante de uma meta de R$ 100 mil, há uma explicação simples. Quando o investimento começa no nascimento, são 216 meses para fazer aportes e deixar os rendimentos se acumularem.
Na simulação de Matos , o aporte necessário sobe para, aproximadamente, R$ 375 por mês quando o plano começa aos cinco anos a uma taxa de 8% ao ano. Se a família esperar até os dez anos, o valor vai para cerca de R$ 755.
Aos 15 anos, com apenas três anos disponíveis, seria necessário investir quase R$ 2.500 todos os meses.
Quem começa no nascimento colocaria do próprio bolso algo próximo de R$ 46 mil ao longo dos 18 anos, conforme a simulação. O restante viria do efeito dos rendimentos acumulados. Já quem deixa para começar aos 15 anos acaba tendo de aportar praticamente todo o valor da meta.
Os números calculados por Patrus com retorno de 6% ao ano contam a mesma história, visto que o aporte mensal ficaria próximo de R$ 263 desde o nascimento, R$ 430 a partir dos cinco anos, R$ 820 aos dez anos e R$ 2.548 para quem começasse aos 15.
"Não precisamos necessariamente começar com muito dinheiro. Precisamos começar cedo e manter a disciplina."Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest
Presentes de aniversário, dinheiro recebido dos avós e outros valores extras também podem reforçar a carteira ao longo do caminho. A lógica é fazer com que o investimento deixe de depender do dinheiro que eventualmente sobra no fim do mês e passe a fazer parte do planejamento da família.
R$ 100 mil daqui a 18 anos não serão os mesmos
Mas juntar R$ 100 mil não significa necessariamente preservar o poder de compra de R$ 100 mil atuais. Com uma inflação hipotética de 4% ao ano, Patrus calcula que seriam necessários cerca de R$ 203 mil daqui a 18 anos para comprar o equivalente ao que R$ 100 mil compram hoje.
Matos chega à mesma preocupação por outro caminho, refletindo que, com inflação próxima de 4% ao ano, R$ 100 mil recebidos daqui a 18 anos teriam poder de compra próximo de R$ 50 mil atuais.
"Se a ideia é manter o poder de compra, o aporte sobe para cerca de R$ 320 por mês, corrigido pela inflação todo ano", afirma Matos.
Essa diferença é importante porque a reserva pode ter objetivos bastante concretos. Faculdade, intercâmbio, abertura de um negócio, compra de um carro ou simplesmente uma reserva financeira para o início da vida adulta tendem a ficar mais caros ao longo do tempo.
Bolsa ou renda fixa para investir para uma criança
Os próprios dados da B3 mostram que a bolsa já faz parte da carteira de muitos menores de idade. Quase 46 mil jovens investidores têm ações, enquanto 31,5 mil possuem fundos imobiliários. ETFs e ativos ligados à diversificação internacional também aparecem entre os investimentos dessa faixa etária.
Isso não significa, porém, que todo o dinheiro destinado aos filhos precise ficar em renda variável. Como a meta tem uma data relativamente definida, a composição da carteira pode mudar à medida que os 18 anos se aproximam.
Matos considera possível manter entre 20% e 40% do patrimônio em bolsa nos primeiros anos, quando há bastante tempo para atravessar períodos de queda. À medida que a data de uso do dinheiro fica mais próxima, a recomendação é reduzir o risco e aumentar a fatia de renda fixa.
Entre as alternativas citadas por ele estão títulos como o Tesouro IPCA+ e o Tesouro Educa+, desde que os prazos estejam alinhados ao objetivo da família.
É também possível assumir mais risco e buscar valorização em ações e outros ativos de renda variável nos primeiros anos, inclusive no exterior, para Patrus. Nos últimos três a cinco anos antes da meta, porém, a prioridade deveria migrar gradualmente do crescimento para a preservação do patrimônio.
O Tesouro Direto já aparece nas carteiras de milhares de jovens, e a B3 mostra que o Tesouro Educa+ tinha 12,9 mil investidores de até 17 anos, com saldo mediano de R$ 2,5 mil. No Tesouro RendA+, para aposentadoria, eram 6,7 mil investidores nessa faixa etária, com saldo mediano de R$ 3,12 mil.
'Perguntas frequentes'
Quantas crianças e adolescentes investem em renda variável no Brasil? +
Mais de 60 mil investidores de até 17 anos mantêm aplicações em renda variável, segundo a B3. Juntos, eles acumulam cerca de R$ 3,5 bilhões em ativos negociados na bolsa, e o número de jovens investidores cresceu 58% desde dezembro de 2022.
Quanto investir por mês para uma criança ter R$ 100 mil aos 18 anos? +
O aporte mensal varia de R$ 215 a R$ 263 quando o investimento começa no nascimento. André Matos, CEO da MA7 Capital, calcula R$ 215 com retorno líquido de 8% ao ano, enquanto Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, estima R$ 263 com rentabilidade líquida de 6%.
Quanto é preciso investir ao começar aos cinco, dez ou 15 anos? +
Na simulação de André Matos, com retorno líquido de 8% ao ano, os aportes mensais sobem para R$ 375 aos cinco anos, R$ 755 aos dez e quase R$ 2.500 aos 15. Antônio Patrus estima R$ 430, R$ 820 e R$ 2.548, respectivamente, com retorno líquido de 6%.
R$ 100 mil daqui a 18 anos terão o mesmo poder de compra atual? +
Não, caso exista inflação no período. Com inflação hipotética de 4% ao ano, Antônio Patrus calcula que seriam necessários cerca de R$ 203 mil em 18 anos para preservar o poder de compra atual de R$ 100 mil.
Quais investimentos são mais comuns entre menores de idade? +
Segundo a B3, quase 46 mil jovens investidores possuem ações e 31,5 mil têm fundos imobiliários, além daqueles que aplicam em ETFs e ativos internacionais. O Tesouro Educa+ reúne 12,9 mil investidores de até 17 anos, enquanto o Tesouro RendA+ tem 6,7 mil nessa faixa etária.
Como dividir os investimentos de uma criança entre bolsa e renda fixa? +
André Matos considera possível manter de 20% a 40% do patrimônio em bolsa nos primeiros anos e ampliar a renda fixa à medida que a data de uso do dinheiro se aproxima. Antônio Patrus também defende reduzir gradualmente o risco nos últimos três a cinco anos antes da meta.
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