Defender quem protesta com o cassetete

Padeço de um problema persistente: quero sempre roubar o que é mais puro nos outros. Se virmos bem, este é o problema dos problemas. Se virmos ainda com mais rigor, este é o primeiro de todos os problemas. O Diabo foi o paciente zero a padecer dele: “elevou-se o coração” para ser quem não era.
Exemplifico o meu caso. Estou a conversar acerca de política com alguém que me diz ser de direita. Ouço essa pessoa e rapidamente concluo que não é verdadeiramente de direita; eu é que sou. Quanto mais fala o outro, mais certo fico de que eu é que tenho o conteúdo anunciado. Eleva-se-me o coração para ser quem não sou.
Outro exemplo. Estou a conversar acerca de política com alguém que diz ser de esquerda. Já estão a ver: rapidamente concluo que quem é de esquerda afinal sou eu. Quanto mais a pessoa falar, mais convicto fico. Eleva-se-me o coração para ser quem não sou, mesmo que seja o dia seguinte à conversa com quem dizia ser de direita.
E não fica por aqui. Estou a conversar acerca de futebol com uma pessoa que se dedica ao assunto quando eu desisti dele na infância. Não é preciso chegar a meio da conversa para eu já estar absolutamente certo de que se há alguém que no debate percebe de bola sou eu. Eleva-se-me o coração e estou capaz de marcar golo de cabeça furando toda a defesa.
Ainda esta semana o problema voltou a acontecer quando se discutia a crise da habitação: concluí que eu levava mais a sério a causa do que os manifestantes acampados nas praças do país, e que me indignava mais com a possibilidade de desordem do que o zelo demonstrado nas operações policiais. Vou de um extremo ao outro dependendo da pessoa com quem falo e do empenho que invisto em despojá-la do seu ideal.
Apesar de este meu problema de querer roubar o que é dos outros poder ser justamente classificado de demoníaco, tenho esperança de que possa haver alguma redenção para ele. Vejamos: se todos experimentássemos abdicar volta e meia da certeza com que defendemos as nossas razões talvez descobríssemos dentro de nós a possibilidade de outro desfecho para os nossos embates.
Quando Machado de Assis escreveu “A Igreja do Diabo”, imaginou um enredo em que se instituiu uma contra-religião crescente e animada onde os pecados passaram a ser permitidos; o que Satanás não esperava é que às escondidas os pecadores continuassem a praticar virtudes. A moral da história satânica é interessante: somos contraditórios até quando podemos ser perversos.
Talvez o melhor dos problemas que nos separam uns dos outros possa começar por separar primeiro algo dentro de nós: a monomania da certeza. Na próxima conversa quente tenta desportivamente roubar a posição ao teu adversário que talvez no fim nem ele a queira assim tanto. Com sorte, faz-se o trabalho de Deus e não do Diabo.
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