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Wednesday, September 16, 2026

O cinema chegou a Viseu 1.ª parte (1897-1912)

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Olá, seja bem-vindo à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e claro, estou à espera de ouvir Jorge Adolfo Marques, em Viseu. Hoje ele é mestre arqueólogo, mas vai nos falar de uma coisa um pouquinho mais recente. Vai nos falar do cinema. É uma história tão rica e tão curiosa que o Jorge vai dividi-la em duas partes. Hoje vamos à parte um, que vai até o primeiro capítulo, porque vamos fazer o intervalo de um dia, mas vamos então saber: o cinema chegou a Viseu. Primeira parte, vamos falar nos inícios do cinema, penso, se não me engano, nos finais de 1800. Estamos aí, Jorge? Bem-vindo.

Olá, João. É para os nossos ouvintes não pensarem que nós só falamos aqui de calhaus, de monumentos megalíticos, de castelos e coisas assim. E podíamos até, a propósito de Trancoso, termos falado da famosa sardinha de Trancoso, que é um doce muito especial.

Icônico da região. Exato.

Que se faz em Trancoso e que todos os visitantes têm que provar. Como tal, hoje vamos dar aqui um salto no tempo e fazer uma incursão por outro tipo de documentos e histórias que remetem para os finais do século 19 e inícios do século 20. Como aqui alguns aspectos interessantes talvez queiram ouvir, dividimos em dois momentos hoje e depois amanhã falamos novamente. Eu começaria por dizer que foi no dia 4 de fevereiro de 1897, que decorreu a primeira projeção cinematográfica na cidade de Viseu, no então Teatro Boa União, que ficava no Largo das Freiras. O animatógrafo, as pessoas quando falam animatógrafo percebem perfeitamente. Em Lisboa temos lá ainda o animatógrafo, não é?

É do Rossio, exato.

Exatamente. O animatógrafo, que estivera no Teatro Dona Amélia, em Lisboa, viera com a Trupe da Distinta Chanteuse. Eu vou utilizar aqui uns termos que são recolhidos nos documentos da época e que descrevem este acontecimento.

Muito bom.

E que vem com a Trupe da Distinta Chanteuse carioca Cirina Polônio, artista já bem conhecida do público viseense. Embora se desconheça o programa cinematográfico apresentado nesse dia, é possível que alguns dos filmes realizados por Aurélio da Paz dos Reis, um dos nossos pioneiros do cinema, nomeadamente "A Dança da Serpentina", protagonizada por Cirina Polônio, e "Cirina Dizendo uma Cançoneta" tinham sido projetados. Portanto, talvez tenham sido projetados estes filmes realizados pelo Aurélio Paz dos Reis e que Cirina era a protagonista.

Eu lembro-me bem disto, Jorge. Eu estou a visualizar este filme, que é uma mulher. Isto é o cinema mudo. Uma mulher às danças, à volta, com vestido, onde dá uns pulitos, que andam à volta e fazem a serpentina.

Felizmente, hoje, online, encontramos muitos destes filmes antigos do cinema mudo.

Exatamente.

Ao contrário da sessão inaugural, a projeção não decorreu no segundo dia da melhor maneira, devido a dificuldades do aparelho, dizem, não especificadas na notícia do Comércio de Viseu. Apesar do percalço, não se deixou de realçar que o invento do célebre Edison causou admiração, pedindo o público mais quadros que não estavam no programa e sendo repetidos alguns. Portanto, temos que ter em conta que o público pedia filmes. "Queremos mais um."

Era a grande novidade. Claro.

Sendo que estes filmes eram pequeninos, não eram como estes, que agora são projetados-

Não eram longas-metragens

...que duram uma hora, duas horas, três horas e às vezes até mais. O público da cidade, como já sucedera anteriormente noutras localidades, rendeu-se totalmente àquela que era considerada de forma entusiástica como a última maravilha do século atual, e que os irmãos Lumière tinham, dois anos antes-- temos que ter em conta isto. Nós estamos em 1897. Dois anos antes, os irmãos Lumière tinham inaugurado o cinema como espetáculo em Paris.

Era tudo muito recente.

Era tudo muito recente.

Foi muito próximo, Jorge. Normalmente até adotamos essas modas uns anos depois. Dessa vez foi muito em cima.

Eu disse esta data para as pessoas pensarem isto: em 1895, há a primeira projeção em Paris. Em 97, estamos em Viseu. Agora, temos que ter em conta a época. Na altura não havia autoestradas, havia comboios e a bitola era diferente, a ibérica da europeia.

Exato.

Portanto, se calhar o mais rápido era vir de barco. Não temos aviões. Podiam vir de balão.

Dirigíveis.

Não havia internet, não havia nada disso. O público da cidade, como já sucedera, gostou desta última maravilha. Apesar de maravilhosa, a máquina voltou a não projetar nas melhores condições e a derradeira noite no Cine Teatro Boa União motivou protestos por parte do público. No dia seguinte, a Cirina Polônio e a sua trupe foram para a vizinha vila de Tondela para apresentarem o seu espetáculo teatral e provavelmente também levaram o cinematógrafo e provavelmente também apresentaram lá.

Curioso.

No final dessa semana, a famosa artista brasileira partiu, levando na bagagem essa máquina maravilhosa. Apesar dos problemas técnicos verificados, o público viseense Que teve a oportunidade de assistir pela primeira vez na cidade a essa nova forma de espetáculo, ficou entusiasmado com o que viu. Os jornais só voltariam a noticiar o espetáculo de cinema 11 anos depois destas primeiras projeções no Teatro Boa União. A 14 de abril de 1908, repare, o ano do regicídio, e já estamos no século XX. A 14 de abril, o bi-semanário "A Beira", publicava-se aqui em Viseu, noticiava que o cinematógrafo visense continuava a funcionar no novo bairro de Maçorim, onde se tinha projetado recentemente a fita colorida "Vida de Jesus", da Pathé. Estamos aqui num cinema que já existia noutro ponto da cidade, o novo bairro de Maçorim. Este que terá sido o primeiro cinematógrafo estabelecido na cidade, porque enquanto que o outro veio com a trupe, este estava sediado, estava instalado.

Já cá estava.

Foi certamente construído pouco tempo depois de se ter iniciado a urbanização daquele bairro, porque aquele bairro começou a ser construído em 1904. Esta notícia é de 1908. Porque em janeiro de 1908, o que acontece? Há uma notícia que diz que o barracão ameaçava ruir, portanto, o cinema era um barracão, era uma tenda, certamente desgastada por quatro anos de utilização. Esta construção caracterizada, sobretudo pela sua fragilidade arquitetónica, seria em tudo semelhante a tantos outros cinematógrafos que se foram instalando temporariamente noutras localidades.

Lisboa, Beja, Évora.

Onde havia festas populares, feiras, como esses animatógrafos que fizeste referência em Lisboa. O Salão High Life, na Feira de São Miguel, no Porto, no Teatro Chalé. Enfim, por todo o país havia estes cineminhas em barracas, em tendas. Mas era curioso, porque o pessoal que ia ver, entrava a qualquer hora, de chapéu na cabeça, de cigarro aceso, como aliás referia Carlos Malheiro Dias em 1908. Era um espaço muito dinâmico.

Sim.

Em maio de 1908, foi inaugurado outro cinema, com as mesmas características deste, de tenda, de barraca, no Largo Alves Martins, o cinematógrafo Salão Santa Cristina, que era propriedade do senhor Fonseca, e que vai também exibir vários filmes de curta duração. Temos o programa de um desses dias em que foi exibido. E eu vou vos dizer qual é o programa, uma série de fitas. A fita número um era exibição de vistas fixas. A segunda era visão extraordinária, fita dramática. A terceira era: por uma flor. Quarto: morto misterioso, que era cômica. As pessoas apreciavam muito fitas ou de coisas exóticas, portanto, que não estavam aqui à mão, ou cenas cômicas. Por isso é que o Charlot vai ter tanto sucesso.

E o Buster Keaton, exato.

E o Buster Keaton e tantos outros da era do cinema mudo. Em 1910, 13 anos depois, sobre a primeira sessão em Viseu, o recém-batizado Teatro Viriato, o Teatro Boa União passou a chamar-se Teatro Viriato. Que hoje existe em Viseu, o Teatro Viriato, Teatro Municipal Viriato. Ele também exibiu fitas modernas a 40 reis. A máquina de projetar era desse tal Fonseca, que tinha o tal Salão de Santa Cristina. Portanto, o tempo vai passando, o cinema vai ganhando raízes na cidade e nos primeiros dias de 1912, a cidade assistiu à inauguração do cinematógrafo Paraíso de Viseu, localizado num edifício de um médico radiologista, Casimiro de Vasconcelos, ali juntinho ao Rossio de Viseu, atrás da Câmara Municipal. Diga-se que esse edifício ainda existe, é hoje um banco. E que ficou ali, que dizia-se com requintado luxo, portanto, era um novo e moderno cinema, ou seja, um espaço para cinema. Apesar da qualidade anunciada desse Paraíso de Viseu, ele fechou as portas pouco tempo depois. Olha, um ano depois, sensivelmente. E um ano após a sua inauguração, de fato, tendo aquela empresa depois prosseguido a sua atividade com espetáculos apenas de teatro e de música numa outra rua da cidade. Portanto, esta dinâmica do cinema como um novo espetáculo, que vem com uma trupe de teatro, vai ganhar raízes e não vai mais parar. Estamos a falar no cinema mudo, fitas pequeninas, mas que o público de Viseu adorou e nunca mais largou.

Que bela história e amanhã há mais, vamos continuar com essa história. Só vou referir, dentro deste programa que tu falaste, que tinha estes primeiros filmes, havia o oitavo momento, estou aqui a ler, Jorge, falava da apresentação de duas formosas, estou a ler: "Apresentação de duas formosas mademoiselles, que cumprimentarão o respeitável público e lhe darão as boas noites". Isto é extraordinário. Temos de adaptar e dizer a apresentação de um famoso toureiro e um radialista, que cumprimentam também aqui o público e desejamos até amanhã, onde vamos ouvir então a segunda parte do "O Cinema Chegou a Viseu". Até amanhã, Jorge. Um abraço.

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