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Tuesday, October 6, 2026

França: uma sociedade em fragmentação

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Há muito que o colapso social em França é claro à vista de todos. A não ser aqueles que, de maneira voluntária ou por cegueira ideológica, pretendem não ver, qualquer pessoa com o mínimo de coragem intelectual tem a oportunidade de constatar que o país está em franca queda, como, de resto, grande parte dos países ocidentais. Mas, em França, tal como no Reino Unido, esta queda é acompanhada por níveis de violência social que apenas vão crescendo a cada ano que passa… A sociedade está mergulhada numa espiral de violência. Quer seja por causa do terrorismo islamista, da violência cometida por antifas (que este ano mataram um jovem, o Quentin Deranque), da violência ligada ao tráfico de droga, ou dos motins nos bairros islamizados no dia de Ano Novo ou no feriado francês de 14 de Julho. As elites francesas têm-se mostrado incapazes de solucionar esta situação, por cobardia e cegueira ideológica. Desta vez, a violência veio pela mão dos estudantes…

Há uma semana, vários sindicatos de estudantes – da esquerda à extrema-esquerda – apelaram a uma greve contra as alegadas difíceis condições no ensino secundário: falta de professores e horários sobrecarregados. Logo no primeiro dia, terça-feira, dia 29/09, eclodiram os primeiros episódios de violência. No terceiro dia da greve geral, a violência atingiu um nível tal que o Governo francês afirmou considerar os acontecimentos como sendo “graves violências urbanas”. No momento em que este texto é redigido (domingo, 04/10), as autoridades tornaram públicos os números relativos aos quatro primeiros dias da greve. Em muitos casos, os polícias afirmaram ter falta de meios perante o número de pessoas que participavam nos motins e a violência das exacções. Houve destruição de mobiliário urbano, escolas e igrejas, bem como violência contra pessoas. Alunos que se opunham à greve, agentes das forças de segurança e membros do corpo docente foram agredidos. Ou seja, contrariamente à palavra utilizada pela Lusa em Portugal, não se trata de “protestos”, mas sim de violência urbana.

Vejamos… No que toca à destruição de estabelecimentos e de mobiliário urbano, o custo já ronda as dezenas de milhões de euros. Desde liceus fortemente danificados por incêndios criminosos como em Nantes ou Metz — alguns dos quais tinham sido renovados no ano passado, renovações que tinham custado milhões de euros —, a jovens vindos dos bairros “norte” de Marselha (bairros sociais fortemente islamizados) que atacaram autocarros com pedras e destruíram um veículo de bombeiros, passando pela Igreja de Sainte-Madeleine em Estrasburgo, contra a qual um grupo de arruaceiros atirou caixotes do lixo em chamas, as destruições materiais foram importantes. Mas, mais do que as destruições, foram os ataques contra pessoas que chocaram muitos franceses. Vários polícias foram atacados, sendo os dois casos mais chocantes o de um agente da polícia de Belfort, espancado com pontapés na cabeça por vários jovens — tendo perdido a consciência — depois de ter ficado isolado, só devendo a sua salvação aos colegas que conseguiram intervir a tempo; e o de uma agente da polícia estagiária em Paris, perseguida, empurrada e espancada sob gritos de “Wallah, tue-la” (“Wallah, matem-na”).

E se os polícias passaram quatro dias complicados, o mesmo se aplica aos membros do corpo docente, aos funcionários e directores das escolas, bem como a simples cidadãos que tentavam pôr termo às violências. Um professor foi agredido com um pontapé nas costas por jovens com a cara coberta e perseguido na rua, em Lille, ao som de gritos de “Wesh, Wallah, niquez-le” (demasiado vulgar para ser traduzido). Outro professor, em Angers, levou com uma barra de ferro na cabeça, tendo ficado ferido com alguma gravidade. Em Toulouse, um membro da direcção de um liceu da cidade foi espancado por dezenas de jovens depois de tentar apagar um fogo. Em Marselha, um jornalista do canal M6 foi agredido, e uma senhora que tentava proteger o abrigo de uma paragem de autocarro foi atacada por um jovem de 15 anos, que lhe incendiou o rosto e parte dos cabelos utilizando um spray e um isqueiro. Em La Rochelle, um estudante que se opunha às violências foi espancado por vários jovens em frente a um liceu. Na cidade de La Ciotat, um professor que tentava apagar um fogo foi agredido e salpicado com gasolina, tendo os polícias conseguido evitar o pior ao deter o agressor. Além das destruições e da violência contra pessoas, também houve roubos em lojas, bem como caixotes do lixo atirados contra carros.

Sim, uma parte importante dos detidos por violência contra pessoas ou por actos de vandalismo são estudantes. Tal como disse, a maioria não quis participar nas violências. Mas uma minoria importante participou de bom grado. Contudo… virá dos estudantes a ideia destas violências? Pelos vistos, a resposta não é assim tão simples. O que interessa saber é quem se esconde por detrás do apelo à greve e quem agitou os alunos e os convenceu a recorrer à violência. Quem levou os petardos? Quem levou os líquidos inflamáveis? Quem preparou os cocktails Molotov? E aí, a resposta é, segundo os próprios Renseignements Territoriaux (DNRT) — um serviço especial da polícia cujo papel é observar, analisar e antecipar ameaças à segurança pública — e os serviços secretos internos (DGSI), apenas uma: a extrema-esquerda. Os sindicatos de estudantes que convocaram a greve foram influenciados, quando não completamente dominados, por grupos e partidos de extrema-esquerda: grupos antifas, o partido Révolution Permanente e, sobretudo, o partido La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon.

De facto, o governo francês acusa o partido de extrema-esquerda LFI (La France Insoumise), de Jean-Luc Mélenchon, de utilizar os seus “proxies”, ou seja, grupos antifas, para tornar a situação ainda mais violenta. Entre os detidos encontram-se adultos pertencentes a grupos de extrema-esquerda. A LFI e o partido Révolution Permanente estiveram presentes nas manifestações desde o primeiro dia. Levaram consigo militantes “habituados” aos bloqueios, às greves e às manifestações mais “movimentadas” (os grevistas profissionais), para incentivar os alunos a cometer actos de violência. Além dos seus proxies, vários deputados e presidentes de câmara da LFI foram apoiar os estudantes. Por exemplo, Bally Bagayoko, membro do partido LFI e presidente da Câmara Municipal de Saint-Denis, decidiu apoiar os estudantes em greve, tendo sido filmado a dançar com alunos que tinham acabado de queimar um caixote do lixo. Tentou ainda retirar o microfone a um jornalista do média Frontières, acusando-o de estar a “provocar” os jovens. O deputado Thomas Portes foi visto a tentar impedir polícias de intervir contra jovens violentos; o deputado Louis Boyard foi visto a festejar com alunos grevistas; o deputado Aurélien Le Coq também impediu a polícia de realizar detenções, entre muitos outros.

Há um outro grupo que se juntou aos estudantes: jovens adultos e adultos vindos dos bairros problemáticos das grandes cidades. Jovens e menos jovens de origem extra-europeia que nutrem, explicava o jornalista vedeta Ivan Rioufol, um profundo ódio pela França — e que utilizam todo o tipo de acontecimentos sociais para o demonstrar. Assim, muitos estudantes afirmam que apareceram grupos vindos de bairros problemáticos ou mesmo de outras cidades, apenas para causar danos materiais e confrontar-se com a polícia. É aí que a situação se torna ainda mais complexa e, sobretudo, mais perigosa. Como afirmou, e bem, o colunista Guillaume Tabard, no Le Figaro, a aposta da LFI em agravar a violência para depois se apresentar como salvadora dos jovens e dos oprimidos pode acabar mal. Utilizar grupos antifas e jovens dos bairros problemáticos, muitas vezes islamizados, como tem feito a extrema-esquerda, pode, a prazo, revelar-se uma estratégia muito perigosa. A criatura pode acabar por escapar ao criador. Os próprios serviços secretos franceses, as forças de segurança e o governo estarão extremamente preocupados com uma situação que poderá, ou não, explodir a qualquer momento:

Em círculos restritos, as fontes ligadas à segurança consideram que o movimento, “instrumentalizado pela esquerda e pelos desordeiros”, chegou a um “ponto de viragem”. A mais pequena faísca poderá conduzir ao caos. Enquanto os liceus estão em convulsão há 48 horas, as autoridades vêem-se confrontadas com o cenário de uma onda de agitação generalizada em todo o país. Em círculos restritos, uma fonte ligada à segurança confidenciou esta quinta-feira que o conflito em torno dos bloqueios chegou a um “ponto de viragem”, com acontecimentos que se assemelham cada vez mais a fenómenos de violência urbana. «Até aqui confinados às imediações dos estabelecimentos de ensino, os incidentes parecem estar cada vez mais a desligar-se da questão dos estudantes do ensino secundário, para se transformarem em fenómenos de motins nos centros das cidades, com desordeiros que atacam agora outros representantes do Estado ou agentes da vida económica», afirma a mesma fonte, em tom confidencial. Em termos claros, já não é possível afastar verdadeiramente o cenário de um caos generalizado, como aconteceu no caso de Nahel Merzouk, morto durante uma tentativa de fuga a uma operação de fiscalização rodoviária, a 27 de junho de 2023, em Nanterre.

Um ensaio geral antes da explosão?

A conclusão que podemos retirar deste acontecimento é a de que, tal como uma boneca russa, ele esconde várias camadas. À primeira vista, temos uma simples greve estudantil, motivada por alegadas dificuldades no ensino secundário. Mas, à medida que retiramos cada uma dessas camadas, encontramos realidades muito diferentes. A primeira camada é, portanto, a da própria greve dos estudantes, que acaba por se revelar bastante superficial quando comparada com aquilo que se encontra por detrás dela. A segunda é a da extrema-esquerda, que mobiliza os seus militantes e as suas milícias — os grupos antifas, como a Jeune Garde, cujos membros foram acusados de envolvimento na morte de Quentin Deranque este ano — para participar nos confrontos e, segundo os serviços de segurança, contribuir para o caos. A terceira camada é a de uma parte da juventude extra-europeia, estrangeira ou de nacionalidade francesa, nascida em França, mas que, ao que parece, nutre um profundo e visceral ressentimento em relação ao país. Esta realidade revela uma fractura cada vez mais profunda na sociedade francesa: de um lado, uma juventude que acolheu pacificamente o Papa Leão XIV, com cânticos, alegria, bandeiras francesas e cruzes ao peito — uma juventude que não era exclusivamente nativa, já que muitos dos que foram ver o Papa eram eles próprios de origem extra-europeia, e entre a multidão havia até judeus e ateus que quiseram saudar a sua chegada. Do outro lado, uma juventude marcada pelo ressentimento contra a França, o Cristianismo, a Civilização Ocidental e tudo aquilo que estes representam. E há ainda uma quarta camada, mais escondida, mas que não terá passado despercebida aos serviços de segurança: a dos islamistas. Desde o primeiro dia da greve, e mesmo antes, surgiram sindicatos próximos de sectores ligados à Irmandade Muçulmana, como o sindicato Étudiants musulmans de France (EMF), cujas reivindicações, segundo as informações disponíveis, não se centram apenas nas questões das condições de ensino, mas também em questões como a criação de horários que permitam aos alunos muçulmanos rezar, a autorização do véu e do hijab nas escolas ou a disponibilização de comida halal. Ou seja, por detrás da reivindicação de melhores condições existe uma realidade bem mais profunda: a vontade por parte dos islamistas de infiltrar e dominar a escola republicana e laica, e propor um outro modelo, o modelo de ensino islâmico.

Diria que há forças que se estão a preparar para algo mais em 2027. Há linhas de separação que se estão a desenhar entre estas forças. A extrema-esquerda, os antifas e o partido LFI querem o caos. Sempre viveram do caos, e este dá-lhes força. Nas palavras do intelectual Matthieu Bock-Côté, estas violências urbanas são uma espécie de “grande ensaio geral antes das eleições presidenciais de 2027”. Os jovens de origem extra-europeia (uma minoria é verdade, mas uma minoria importante), vindos dos bairros problemáticos, que participaram nas violências querem apenas mostrar o seu ódio à França, bem como a sua força, tal como fizeram nos motins de 2023 ou de 2005. Não se trata de “luta pela justiça”; trata-se de mostrar que são eles que mandam em certos territórios. Daí as bandeiras palestinas, argelinas, sírias e marroquinas que levaram nas manifestações, ou as palavras de ordem contra Israel e os sionistas. Nada disto tem algo a ver com a greve dos estudantes. Quanto aos islamistas, são pacientes e perigosos. Pouco a pouco, através dos seus aliados da extrema-esquerda, tratam de ganhar espaço e força nas escolas, nos clubes de desporto, nos jornais de esquerda e nas associações culturais para, um dia, nem que seja daqui a 70 anos, conquistar o poder.

Que acontecerá em 2027 quando Marine Le Pen vencer as eleições? É dada como vencedora em todas as sondagens, sem excepção. Contra Jean-Luc Mélenchon, venceria por 67.5% contra 32.5%. Como irá reagir a extrema-esquerda? E os jovens dos bairros problemáticos que causaram actos de violência durante a greve dos estudantes, como irão reagir? E os islamistas? Como não ficar preocupado com a possibilidade de haver motins que, perante uma violência cada vez maior, possam dar origem a algo diferente, algo da ordem de uma guerra civil? É o que pensa o antigo jurista especializado em terrorismo Thibault de Montbrial. Para o antigo jurista, a extrema-esquerda, aliada aos movimentos islamistas, prepara algo terrível para 2027, já que o próprio partido afirmou que não iria aceitar a vitória do RN, como ele bem relembra: “Logo após a sua eleição, Bally Bagayoko, o presidente da Câmara de Saint-Denis, afirmou por várias vezes que, em caso de vitória da direita em 2027, essa vitória seria ilegítima. (…) Portanto, afirmo-o diante de vocês: a LFI está a preparar-se para tomar o poder, pelas urnas… ou pelas armas”. Preocupante, de facto…

Por fim, acabaria por dizer que existe ainda uma camada mais profunda nestes acontecimentos — a mais profunda de todas. Todos estes eventos — a violência de certos estudantes; a violência de uma parte dos jovens vindos dos bairros islamizados; a violência da extrema-esquerda; e a tentativa dos islamistas de fazer da França um emirado — têm, no fundo, a mesma origem: o Declínio do Ocidente. Porque um país forte, com uma sociedade forte, segura de si mesma, inserida numa Civilização forte, que olha para o passado com orgulho e para o futuro com sonhos e esperança — como é o caso da China — dificilmente teria sucumbido a este tipo de acontecimentos. Só as nações que se encontram numa fase avançada de colapso social se deixam destruir por dentro por grupos antagónicos, sem sequer encontrar forças para lhes dar luta. Quanto à juventude ocidental, é preciso, mais do que nunca, salvá-la de si mesma, do marxismo cultural e do declínio mental em que se encontra. E, quando relemos o intelectual francês Louis Pauwels a propósito da greve estudantil de 1986, apercebemo-nos de que o declínio mental da juventude vem de longe.

São os filhos do rock idiota, os alunos da vulgaridade pedagógica, os deslumbrados alimentados com uma sopa infra-ideológica cozinhada pelo show-biz (…). Receberam uma impregnação moral que os leva a tomar o “baixo” pelo “alto”. Nada lhes parece melhor do que não ser nada, mas todos juntos, sem chegar a lado nenhum. O seu sonho é um mundo indiferenciado onde vegetar morosamente. Estão embriagados de uma generosidade reduzida ao grau zero, que se assemelha ao amor, mas que se vira contra qualquer exemplo ou projecto de ordem. Todas as medidas que a sociedade toma para não acabar por se dissolver — selecção, valorização do esforço pessoal e da responsabilidade individual, código da nacionalidade, luta contra a droga, etc. — revoltam-nos. Este regresso à realidade é, para eles, um escândalo. (…) Eis todo o seu sentimento revolucionário. É uma juventude atingida por uma espécie de SIDA mental. Perdeu as suas imunidades naturais; todos os vírus da decomposição a atingem. Perguntamo-nos o que se passa dentro das suas cabeças. Nada. Mas esse nada devora-os. Bastaram cinco anos para fabricar uma geração assim. Será toda a juventude? Certamente que não. Ousemos dizer que é a escória com que o socialismo faz o seu vinagre.

(Louis PAUWELS, Le Monome des Zombies, Éditorial do Figaro Magazine sobre a greve estudantil de 1986)

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