Por uma verdadeira casa do cinema de Coimbra

Soube-se recentemente que o executivo da Câmara Municipal de Coimbra pondera suspender o financiamento da “recuperação” dos dois espaços das Galerias Avenida afectos à Casa do Cinema de Coimbra e procurar um novo local para o efeito. O executivo questiona a viabilidade da recuperação desses dois espaços pelo enquadramento em que se situam: as decrépitas galerias. Pelo que sei de vivência própria, as Galerias já foram um imbróglio de proprietários, cada um com a sua fracção onde apenas um voto contrário podia inviabilizar a venda por atacado. Aconteceu!
Mas uns anos antes disso tudo, aquilo que vivi de forma mais próxima e sentida foi a concretização do sonho de um empresário, Pedro Mendes de Abreu, proprietário do Teatro Avenida, que acabou por encerrar em 1988. Em 1983, tinha-se atirado de corpo e alma para um projecto inovador que mudou a exibição cinematográfica em Coimbra durante quase uma década: o Cinema Girassolum trouxe para uma cidade de estreitos horizontes culturais e artísticos o conceito do cinema de bairro integrado num centro comercial que já singrava em Lisboa e no Porto. Com as cadeiras mais confortáveis da cidade, o Girassolum abriu com Gandhi e continuou com uma programação cuidada e pensada para garantir a presença semanal dos indefectíveis do cinema. Enquanto o Teatro Avenida encerrava em 1988 com o mesmo filme com que se abriu ao cinema em 1953 (A Túnica), o sucesso consecutivo do Girassolum mostrava que, não obstante as adversidades que o destino lhe apresentava, Pedro Mendes de Abreu seguia com o seu sonho de proporcionar à cidade uma experiência cinematográfica ímpar para um público que considerava exigente.
Entretanto, pela falta de apoios para recuperar o Teatro Avenida e perante o facto de a recuperação ser mais onerosa do que a demolição e subsequente construção de raíz, Pedro Mendes de Abreu acreditou que seria possível repetir naquele velho espaço o conceito de cinema de bairro integrado num centro comercial do Girassolum. Assim surgiram as Galerias Avenida, pensadas para três salas de cinema, cada uma a ser concluída e inaugurada em função da evolução do projecto.
Em 1989, pouco tempo depois de a primeira sala abrir (o Estúdio 1, no último andar), enquanto crítico de cinema da RDP Centro e do Jornal de Coimbra travei conhecimento com Pedro Mendes de Abreu para lhe pedir livre-trânsito como membro da imprensa especializada. Foi-me concedida sem termo, para qualquer sessão, em qualquer das suas salas, sempre em duplicado “para levares as namoradas”… Foi o início de uma bela amizade.
Nos anos seguintes, ao visitar de forma regular o seu escritório para recolher material promocional dos filmes, vivi por dentro as aberturas posteriores do Estúdio 2, que hoje alberga a Casa do Cinema de Coimbra, e do Cine-Teatro, a menina dos seus olhos. Durante esses anos de convívio profissional até à minha saída do semanário As Beiras, em 1994, fui percebendo nas entrelinhas as suas razões para o projecto das Galerias Avenida. Mais do que os seus detractores, ele sabia que o encerramento do Teatro Avenida não podia ter acontecido de forma mais inglória, ao ponto de lhe pesar na consciência quase como uma traição à cidade. Mas cedo achou que, em todas as suas imperfeições e características inadequadas, as Galerias Avenida eram a única forma sustentável de um exibidor independente se manter em actividade naquele local emblemático. Não foi por mal, foi a fuga em frente no seu sonho de servir a população.
Infelizmente, Pedro Mendes de Abreu não foi capaz de perceber o óbvio engano a que as Galerias Avenida o tinham levado. O edifício tinha demasiados andares, demasiadas escadas, demasiados corredores, demasiadas lojas demasiadamente pequenas e tectos demasiadamente baixos. Parecia recuperar, no final dos anos 80, um conceito que já tinha falhado rapidamente nos anos 70 com o Golden Shopping Center, na mesma avenida. Com a agravante de lhe adicionar três salas de cinema que arquitectonicamente era impossível dominarem o edifício e a circulação das pessoas, ao contrário do que se tinha conseguido no Girassolum. Quem ia ao Estúdio 1, no penúltimo andar, ou quem frequentava o grande café com esplanada no último, entrava directamente por cima e não descia para o resto das galerias. Eram claustrofóbicas, impessoais e, de novo, em demasia. Quando mais tarde abriu o Estúdio 2 no primeiro piso, ninguém subia ao resto das galerias pelas mesmas razões e cedo se percebeu que nada mais havia naquele átrio de entrada a complementar a ida ao cinema do que uns cafés manhosos. Quando em 1992 abriu finalmente o Cine-Teatro no mesmo átrio, já o primeiro piso estava arredado dos hábitos dos espectadores que, com o tempo, foram ficando pelo Estúdio 1. Além do mais, este tinha uma bela vista sobre a cidade através da sua icónica parede lateral de vidro – era uma “penthouse” nas infindáveis masmorras. Magnífica sem dúvida, mas não essencial…
O Estúdio 1 das Galerias Avenida nunca foi uma sala convenientemente desenhada para a projecção de cinema. Primeiro, porque o ângulo de anfiteatro para as cadeiras era muito reduzido. Segundo, porque o pé-direito baixo tornava impossível elevar o ecrã para uma altura mais apropriada. Em sessões com mais espectadores, a conjugação destes dois factores dificultava a visão da totalidade da imagem projectada a partir de inúmeros lugares. Havia sempre alguma cabeça à frente… Quanto ao Estúdio 2, a quase ausência de ângulo de anfiteatro obrigou a colocar o ecrã demasiado alto, sobretudo para as primeiras filas da plateia – já na altura um conceito ultrapassado porque, ao contrário das salas em verdadeiro anfiteatro, impede o pleno envolvimento do espectador com as imagens. Por seu lado, o Cine-Teatro cedo se apresentou excessivamente grande para tornar a sua exploração viável num mercado onde os hábitos dos espectadores já tinham começado a divergir para o home-video e os videoclubes. Entretanto, eu saí de Coimbra, Pedro Mendes de Abreu inteligentemente baixou os braços vítima do seu próprio sonho, novos operadores surgiram com salas modernas e as das galerias passaram por várias reencarnações, explorações e encerramentos. Até que, em Novembro de 2024, consequência da participação do meu primeiro filme Play it Again, Yuki no Festival Caminhos do Cinema Português, tomei conhecimento pela primeira vez do projecto Casa do Cinema de Coimbra, instalado no Estúdio 2.
Não ponho em causa o projecto, muito menos as suas boas intenções. No entanto, dos vinte e sete amigos de longa data que convidei para a exibição do meu filme no Estúdio 2 (para uma participação total de oitenta e dois espectadores), nenhum deles conhecia a Casa do Cinema de Coimbra, muito menos tinha voltado às Galerias Avenida desde a saída de Pedro Mendes de Abreu. Infelizmente, o panorama que todos encontrámos foi o de uma sala decrépita, insalubre, a tresandar a humidade e mofo por todos os tecidos do tratamento acústico e das cadeiras, com profundas deficiências técnicas ao nível da projecção e som, mas que por desígnios insondáveis alguém permitia que se mantivesse aberta ao público. Tive vergonha pelos meus convidados e restantes espectadores. E não foi pelo filme!
Nessa altura, também tomei conhecimento dos planos para a recuperação do Estúdio 1 com o apoio da Câmara Municipal, transformando-o numa indecifrável incubadora criativa para as artes cinematográficas. Por extenso defeito profissional, e porque tinha acabado de fazer um filme sem quaisquer apoios financeiros de entidades públicas ou privadas, e unicamente com duas pessoas na equipa, o realizador e a produtora, fiquei céptico. Normalmente, essas incubadoras dedicadas à criação de uma arte industrial e onerosa como o cinema, erigidas com o dinheiro dos outros, descambam ou em planos que não saem do papel e só servem para o sustento de um punhado de gente vulgar que se dedica à “arte” porque incapaz de ser admitida num emprego normal, ou em coisas miseráveis e amadoras que o mesmo punhado de gente vulgar gosta de nos convencer de que são criações artísticas. No meio disto tudo, obviamente que há muitos jantares, copos, charros e “convívio” inconsequente, tudo sob o manto do brainstorming criativo que a arte exige. A arte pode ser dura e dispendiosa…
Agora, depois de o executivo camarário se ter comprometido, em anteriores mandatos e no actual, a investir meio milhão de euros na reabilitação do Estúdio 1 e do Estúdio 2, a actual presidente da Câmara questiona a viabilidade daqueles espaços. Por fim, alguém de bom senso em todo o processo da Casa do Cinema de Coimbra! Pelas razões atrás apresentadas, é altura de pôr termo à utilização das Galerias Avenida enquanto espaço de projecção de cinema. Por mais obras de recuperação que se façam, a inadequação dos dois estúdios para o efeito é literalmente estrutural, sempre esteve lá, sempre estará, e os mesmos são cultural e socialmente ineptos dado o espaço em que estão integrados. Como a demolição do edifício e reconstrução não está nos planos, há que procurar alternativas de espaço. E será assim tão difícil?
Enquanto crítico de cinema em Coimbra (1988-1994) e até sair, lembro-me que a programação do TAGV era feita por elementos da Universidade, sua proprietária, diferente das do Girassolum, dos Cinemas Avenida e do Tivoli, todos eles com filmes mais mainstream (nada contra!), num registo que se manteve ao longo dos anos. Só que o aparecimento da Casa do Cinema em 2021 e a sua hábil programação, capaz de combinar o cinema mais alternativo com algum mainstream, veio criar uma redundância no mercado de exibição naquela zona da cidade. A Casa do Cinema tirou relevância ao TAGV, que de resto já a tinha tirado à Casa do Cinema. A única vantagem do TAGV é apresentar uma programação feita e explorada pelo próprio distribuidor, a Medeia Filmes (de Paulo Branco). Um programador que é também distribuidor pode garantir, se o desejar, o exclusivo dos filmes que distribui nas salas que explora, como é o caso em Coimbra. Por outro lado, sobrepondo-se ao próprio espaço de exibição, pode vedar a projecção de obras que não sejam por si distribuídas, em prejuízo do público e da diversidade. Posso falar em nome próprio: a distribuidora do meu filme Play it Again, Yuki, em contacto com a direcção do TAGV, viu-lhe negada uma exibição sob argumento de que a programação de cinema dependia da Medeia Filmes, que obviamente não se interessou por programar um filme que não distribuía…
Apesar das minhas reticências profissionais a Paulo Branco enquanto produtor, sempre o achei o mais imaginativo e ousado distribuidor/programador do mercado nacional. Descobriu e formou novos públicos, mantendo sempre a cadência e a coerência do produto que lhes prometeu desde o início. A isto se chama “visão”. Apesar de lha reconhecer, acho inusitado que a programação e exploração do TAGV esteja, há já alguns anos, a cargo da Medeia Filmes de Paulo Branco. A Universidade de Coimbra, com o seu Centro de Estudos Cinematográficos, não tem capacidade artística e de gestão para assumir essas funções? Estranho…
Seja como for, importa lembrar a extrema relevância do Gil Vicente na exibição cinematográfica da cidade desde 1961. Posso dizer que foi graças ao Gil Vicente e aos ciclos dedicados ao 70mm, sempre em Setembro, que comecei a investigar a fundo os grandes formatos de projecção, uma das principais razões por que segui uma carreira no cinema. Qualquer Conimbricense da minha geração ou anteriores tem memórias destas, e até mais interessantes, do Gil Vicente. Pela sua imponência, histórica qualidade técnica e programação, as idas ao Gil Vicente para ver um filme eram um acontecimento – que começava ao inesquecível gongo de chamada para a sala.
Menos assíduo em Coimbra desde meados dos anos 90, estive no TAGV para receber o Prémio do Público para o Play it Again, Yuki no encerramento do Festival Caminhos do Cinema Português de 2024. Dispenso a narração do impacto que teve em mim o ter decorrido naquele sítio. O mais importante foi, uns dias antes, ter subido ao bar para uma bebida nocturna e perceber que, à minha volta, grande parte das muitas mesas estava ocupada por jovens estudantes com sebentas e livros, em grupo ou individualmente. Como diz a personagem do arquitecto no Assalto e Intromissão, de Anthony Minghella, “as características de um espaço determinam a população que o habita”: o cuidado nas condições oferecidas e o bom gosto da decoração daquele bar determinaram a fixação de uma clientela sã, culta, activa e exigente. Tudo o que as Galerias Avenida nunca conseguiram e jamais conseguirão, não obstante os números de sucesso que a Casa do Cinema agora nos apresenta…
Assim, só resta fazer quatro perguntas essenciais. Por que é que se insiste nas Galerias Avenida para a Casa do Cinema de Coimbra? Por que é que se “evoluiu” para a hipótese delirante de uma incubadora criativa para um restrito bando de “iluminados” das artes cinematográficas, se o problema essencial continua sem solução e a solução original para a Casa do Cinema foi a errada desde a sua fundação? Por que é que o TAGV precisa da Medeia Filmes para a sua programação e exploração de cinema? Por último e mais importante, por que é que o executivo camarário levanta a hipótese de investir num novo espaço para a Casa do Cinema quando, num diálogo estreito e em sinergia com a Universidade, devia ter o TAGV disponível para o efeito, desde sempre a verdadeira “casa do Cinema” da cidade? Se há bom senso para questionar o investimento nas salas do Avenida, também deveria havê-lo sobre a real necessidade de investir num novo espaço para a Casa do Cinema, quando a solução sempre esteve à vista ali mesmo na Praça da República. Se não pelas razões práticas e óbvias aqui apresentadas, que seja pela memória da população. As cidades fazem-se também disso: sentirmos que Coimbra continua a ser nossa de cada vez que regressamos a ela pelos lugares que ainda lhe reconhecemos, não obstante os anos de ausência que passam de cada vez…
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