Perfis evangélicos pregam veto de igrejas a ações e religiosos de esquerda

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Um monitoramento nas redes sociais identificou uma série de postagens e comentários em perfis evangélicos radicais que defendem boicotes a pessoas de esquerda em igrejas, além de apoiarem demissões de trabalhadores que votaram em Lula (PT).
O relatório da Casa Galileia e do Instituto Democracia em Xeque, que analisou publicações entre os dias 12 e 29 de outubro, cita que, após o resultado da votação, falas foram direcionadas a igrejas e lideranças para que não aceitem pregadores ou cantores de esquerda para eventos, além de proporem "cancelamento de obras sociais e distribuição de cestas básicas nas igrejas".
O monitoramento analisa 573 perfis em cinco redes (Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook) de lideranças religiosas e políticas, organizações, mídia e influenciadores evangélicos. Nesse relatório, foram analisadas 30.132 postagens, que tiveram 731 milhões de interações.
Ataque a evangélicos de esquerda
Entre as ocorrências registradas no relatório, destacam-se algumas postagens, uma delas de um pastor intitulado Laecio Pregador, que fez um apelo em suas redes, na segunda-feira, para que "não agendem esquerdistas nas vossas igrejas".
"São lobos no meio de ovelhas", afirmou, pedindo para seguir como exemplo os empresários que estão demitindo eleitores de Lula. Nesta sexta-feira (30), a postagem tinha 84,3 mil curtidas e 17 mil comentários.

Já os três perfis do portal Gospel Mais Brasil divulgou uma "nota oficial" na quarta-feira passada informando que não firmaria "novas parcerias com cantores, pregadores, pastores, igrejas e outras pessoas que se identifiquem publicamente como de esquerda ou defendam esse posicionamento político".
A postagem contava com 11,2 mil curtidas e 2.100 comentários, também com ampla maioria apoiando.
Nesta sexta-feira, esses perfis reproduziram uma postagem do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) defendendo o boicote a estabelecimentos cujo donos são de esquerda.
Um outro vídeo, da página Assembleianos de Valor, compartilhou a declaração de um pastor que pediu a mesma coisa, citando o posicionamento como "corajoso". A postagem, do dia 17, estava até esta sexta-feira com 54 mil curtidas e 11 mil comentários, grande parte deles após o resultado do segundo turno e em apoio à fala.
Em sentido oposto, lideranças evangélicas se manifestaram em repúdio a essas ações.
Uma delas foi o pastor Samuel Nova, que criticou o encerramento de auxílios sociais e as demissões, citando o "exemplo da igreja primitiva". Lembrou ainda que é dever cristão de "amar e cuidar de seus inimigos".
Outras manifestações classificaram as iniciativas de boicote a pequenos comerciantes e trabalhadores como uma "perseguição contra quem vota diferente", afirmando que essas posturas atuam para "afastar outras pessoas do Evangelho".
"A vitória de Lula levou a uma escalada de publicações em apoio ao boicote de artistas gospel e pregadores que tenham declarado voto na esquerda. No entanto, nossa análise mostra que não houve consenso sobre esse boicote entre as lideranças, houve quem repudiou e lembrou os ensinamentos cristãos de amar e cuidar de todos, inclusive dos inimigos", diz Lorena Mochel, pesquisadora que montou o relatório.
Ela diz que essa narrativa de muitos portais e lideranças apenas seguiu a segregação já vista em momentos anteriores.
Não houve necessariamente uma mudança de direcionamento do discurso do 'amor' para o do boicote. O que se observa é um alinhamento do boicote com princípios também apontados como cristãos, como a valorização da família e da palavra de Deus, além de princípios indicados como democráticos, a exemplo da liberdade de expressão.
Lorena Mochel, pesquisadora
Outras conclusões
Além dos dados sobre os boicotes, o relatório analisou o desempenho digital dos maiores líderes evangélicos.
O destaque foi, novamente, para o deputado Nikolas Ferreira, que liderou o engajamento no segmento evangélico, com quase 98 milhões de interações. Das 50 publicações com mais alcance no período, 26 foram dele.
O relatório cita que o candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) esteve mais "ausente das narrativas nas redes" nesse período e apareceu com apenas cinco publicações entre as 50 de maior engajamento, todas posicionadas na metade inferior do ranking.

Na véspera da votação, o documento cita que a direita voltou a pregar a guerra espiritual e a estigmatização religiosa. O relatório diz que registrou um aumento de convocações para "sete dias de jejum e oração" associadas à proteção de Flávio Bolsonaro.
Paralelamente, houve também alta de preconceito e intolerância religiosa, com disseminação de conteúdos de práticas religiosas afro-brasileiras e seus supostos "rituais satânicos contra Flávio Bolsonaro".
Virada à esquerda
Ao mesmo tempo, os dados apontam para um avanço da organização da esquerda evangélica no segundo turno, com engajamento em alta.
O deputado André Janones (Rede-MG) concentrou 64% das interações do segmento, com 121 milhões de interações, utilizando o canal de WhatsApp "Exército do Lula", que chegou a ter mais de 11 milhões de inscritos para missões de compartilhamento de conteúdo.
Nesse caso, destacou-se a campanha de retomada dos símbolos nacionais com a mensagem "o verde e amarelo é nosso", além da mobilização da "Caravana da Esperança / Cristãos pela Democracia" e a divulgação do fim da escala de 6x1, aprovada no Senado.

Apoio à fuga
Postagens após as eleições também capturaram apoio das principais lideranças políticas evangélicas vinculadas à extrema direita da ida de Flávio Bolsonaro e sua família para os Estados Unidos.
Entre os que tiveram postagens nesse sentido mais compartilhadas estão o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL) —que publicou vídeo que teve mais de 3 milhões de curtidas—, e o senador eleito pelo Paraná Deltan Dallagnol (Novo).
"Deputados eleitos pelo PL, como Cabo Gilberto Silva e Rafael Satie, além de candidaturas evangélicas de outros partidos alinhadas ao campo bolsonarista, como a de Clarissa Tércio, também manifestaram solidariedade ao candidato derrotado e sua família. Nas publicações, fotos da família de Flávio Bolsonaro circulam com pedidos de orações e pedidos pela intercessão divina. Magno Malta, por sua vez, também manifestou seu apoio seguindo argumentos similares, posicionando-se a favor de um 'pai que protege seus filhos'", cita o relatório.
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