Biotech vai faturar R$ 48 milhões levando a medicina de precisão pelo Brasil com ajuda de IA
Um exame genético levou o publicitário Raphael Pelegrino a mudar seus hábitos. Anos depois, a experiência também o levaria a mudar de carreira. Ao descobrir uma predisposição elevada ao Alzheimer, doença que havia causado a morte de sua avó, o então executivo da área de comunicação começou a explorar um mercado em que o desafio vai além de produzir dados sobre o organismo: é preciso ajudar os profissionais de saúde a interpretá-los.
Dessa trajetória nasceu, em 2023, a Ciera Genomics, biotech brasileira que combina inteligência artificial (IA) e bioinformática para integrar informações genéticas, metabólicas e da microbiota. A companhia faturou R$ 3 milhões em 2024 e pretende alcançar R$ 48 milhões até 2028, com a ampliação do portfólio de exames e o uso da tecnologia por médicos e nutricionistas.
“Hoje, 100% do nosso faturamento vem do processamento de exames. Não olhamos para a IA como um produto que rentabilizamos, mas como uma ferramenta para o profissional e uma alavanca de crescimento da Ciera”, afirma Pelegrino, em entrevista à EXAME.
Fundada pelo publicitário e empreendedor em parceria com especialistas da área da saúde, a empresa desenvolveu um sistema que reúne resultados de diferentes exames biológicos e organiza as informações para auxiliar na identificação de predisposições, avaliação de riscos e definição de estratégias individualizadas de cuidado.
Após faturar R$ 5,9 milhões em 2025, a companhia projeta alcançar R$ 12 milhões em 2026. A meta para 2028 representa uma receita 16 vezes superior à registrada em 2024.
O primeiro contato de Pelegrino com os exames de precisão ocorreu durante uma rotina intensa de trabalho como executivo da Eletromidia. Ele procurou um médico para lidar com dificuldades de sono e, após receber o resultado da análise genética, passou a rever seu estilo de vida.
Pelegrino conta que, à época, era sedentário e obeso e passou a praticar exercícios, cuidar da alimentação e melhorar o sono.
“A genética mudou a minha vida, com as informações que tive para tomar decisões diferentes”, diz.
A experiência despertou seu interesse pela medicina de precisão, abordagem que considera características biológicas individuais para orientar avaliações e estratégias de saúde. Depois de deixar a Eletromidia, em 2021, Pelegrino passou a estudar o mercado e visitar polos de biotecnologia no exterior.
Nesse processo, identificou uma dificuldade: diferentes exames forneciam informações sobre o organismo, mas a interpretação conjunta exigia tempo e conhecimento especializado.
“Se você pega dois ou três laudos desses, são mais de 100 páginas. Nosso desafio foi reunir essas ciências em uma única plataforma, com laudos didáticos e capacitação para os profissionais da saúde”, afirma.
Como a Ciera Genomics usa IA para interpretar dados biológicos

Raphael Pelegrino: fundador da Ciera Genomics aposta em exames de precisão e IA para expandir o negócio (Divulgação)
O avanço das tecnologias de sequenciamento genético e de análise molecular ampliou a quantidade de informações disponíveis sobre o organismo humano. A proposta da Ciera é organizar esses dados e facilitar seu uso pelos profissionais de saúde.
A plataforma reúne informações de genômica, área dedicada ao estudo do material genético; metabolômica, que analisa moléculas envolvidas nos processos metabólicos; e microbiota, conjunto de microrganismos presentes em diferentes partes do corpo.
Para processar essas informações, a companhia desenvolveu um software próprio de bioinformática, campo que combina biologia, computação e análise de dados. A inteligência artificial atua na correlação dos resultados com informações clínicas fornecidas pelo profissional.
“A gente correlaciona o histórico clínico, as queixas e o estilo de vida com todas essas análises”, explica Pelegrino.
A ferramenta de IA fica dentro da plataforma utilizada pelos prescritores. Ao acessar os exames, médicos e nutricionistas podem analisar o caso clínico com o auxílio do sistema.
Segundo o fundador, o desenvolvimento envolveu uma equipe de especialistas que treinou e validou as respostas antes de disponibilizar a ferramenta aos clientes. A empresa utiliza dados gerados a partir dos exames que processa para alimentar essa estrutura.
“Coletamos a amostra do paciente, transformamos essa amostra biológica em dados e, dentro do nosso software de bioinformática, esses dados viram resultados. A IA acessa essas informações e é treinada com dados reais gerados por nós”, afirma.
O sistema foi concebido para apoiar o trabalho dos profissionais. “A última decisão é do profissional da área da saúde”, diz Pelegrino.
Biotech quer multiplicar receita por 16 até 2028
A estratégia de expansão combina novos exames, maior utilização da plataforma pelos clientes e entrada em outras especialidades médicas.
Segundo Pelegrino, a companhia trabalha com cinco produtos no portfólio em 2026 e pretende chegar a 12 até o fim do primeiro trimestre de 2027. Entre as frentes de desenvolvimento estão exames voltados à pediatria, à saúde da mulher e ao acompanhamento de pacientes após tratamentos oncológicos.
A carteira está concentrada em nutrólogos, endocrinologistas, gastroenterologistas e nutricionistas. Com os novos produtos, a empresa busca ampliar a presença entre dermatologistas, ginecologistas, obstetras, neurologistas e pediatras.
A IA também faz parte dessa estratégia. Segundo o empreendedor, seu lançamento levou clientes que utilizavam apenas uma categoria de exame a incorporar outras análises à prática clínica.
“Profissionais que antes só pediam um exame de microbioma intestinal começaram a pedir o genético porque se sentem mais seguros para usar a plataforma, correlacionar os resultados e atuar”, afirma.
A Ciera tem menos de 300 profissionais ativos, definidos pela empresa como aqueles que solicitaram pelo menos um exame nos últimos três meses. Pelegrino vê espaço para ampliar essa base, embora a companhia não tenha informado uma meta de número de clientes para os próximos anos.
Outro vetor é a expansão internacional. A empresa tem representantes no Paraguai e em Portugal e estima que o mercado externo responderá por 6% a 8% do faturamento em 2026.
O modelo mantém o processamento dos exames no Brasil. As amostras são obtidas por autocoleta nos países atendidos e enviadas à operação brasileira.
“Conseguimos concentrar o parque tecnológico em um único lugar. Quanto mais volume temos, mais barato fica o processamento, e isso nos ajuda a escalar com mais rentabilidade”, diz.
A companhia também começou a estruturar uma possível frente de pesquisa com sua base de dados, voltada a setores como alimentos, suplementação, indústria farmacêutica e cosméticos. Segundo Pelegrino, uma empresa já procurou a Ciera para discutir um primeiro projeto, mas essa atividade ainda não gera receita.
“São receitas que hoje nem contamos nem provisionamos e que acreditamos que devem acontecer no médio prazo”, afirma.
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