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Saturday, October 3, 2026

Termina o Verão, começa o "Protestão"?

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Tempo para dar notas nesta edição de sábado de Eu Venço Doré. Notas de 0 a 20 que vão ser dadas pela Eunice Lourenço e também o Henrique Porné. O Miguel Cordeiro conduz esta edição de Eu Venço Doré.

Mês de discussão orçamental com contestação ao governo em Portugal. Apesar desse Orçamento do Estado parece, à partida, ter já aprovação garantida. Há também fortes protestos em Espanha e protestos também em França. São temas em destaque nesta edição de Eu Venço Doré, quase um boletim do protesto. Mas vamos começar, Eunice Lourenço, antes de termos essa discussão orçamental e também da contestação que está a existir na rua e depois, juntamente com o Henrique, falarmos também do que se está a passar em França e em Espanha. Vamos falar aqui de sondagens e do estado do PSD.

Olá, bom dia. Sim, de sondagens e do estado do PSD, que vai ficando preocupado e a sentir-se numa encruzilhada, como escrevemos no Expresso esta semana, com esta persistência em terceiro lugar nas sondagens. Ainda ontem houve mais uma, ainda que seja uma tracking poll, tem um modelo um bocadinho diferente de sondagem, mas volta a acentuar esse terceiro lugar ao PSD, com o Chega a estar mais perto do PS na tracking poll da CNN. Isto por muito que a atual direção do PSD e o seu porta-voz, Sebastião Bugalho, ainda na quinta-feira falou disso, digam que sondagens em período eleitoral não contam muito e que se houvesse uma crise política e fôssemos pra eleições, o PS e o Chega seriam penalizados pela instabilidade e então o PSD ou a AD seriam beneficiados. Mas a verdade é que isto vai criando cada vez mais insegurança e instabilidade dentro do próprio PSD. As vozes que falam em alto e bom som, por assim dizer, são sobretudo de alguma oposição interna, Miguel Relvas, Miguel Morgado, David Justino, que foi da direção de Rui Rio, mas vão expondo esta fragilidade e esta encruzilhada do que é que acontece a um PSD em terceiro lugar. Uma situação em que não poderá sequer fazer aquilo que alguns ainda sonham, que é vingar a geringonça e fazer um governo de direita, mesmo numa situação de vitória do PS. E depois essa encruzilhada tem também a ver com aquilo que também um ex-ministro do PSD dizia ao Expresso com esta estratégia da espargata, de quem continua a negociar coisas com o Chega, a negociar outras com o PS. E esta semana tivemos um bocadinho das duas. Tivemos o sinal pra revisão constitucional dado ao PS, tivemos as rendas com o Chega, e o PSD está de facto aqui num momento em que muitos esperam que dê alguma volta, mas que não se está muito bem a ver que volta irá dar.

É um menu com carne e com peixe, mas que pode deixar os eleitores a decisão de comer apenas vegetais, é isso?

Ou ficar no café com leite.

Exato. Que nota tens para atribuir a esse estado?

Tenho 15 pra atribuir a David Justino, que deu uma entrevista que eu acho muito lúcida, muito interessante e que espero que fomente alguma reflexão do PSD. Deu uma entrevista à Renascença que fala disso, do PSD estar ou não a ser social-democrata, das opções, de ser só um partido preocupado com taticismo e em distribuir poder, ou ser ou não capaz de ainda vir a fazer as reformas que o país precisa.

Mas Eunice, ainda nos temas que queres abordar, esta questão do Orçamento do Estado e a forma como ele está a ser discutido, em que parece ter aprovação já garantida ainda antes de ser entregue, algo que num governo minoritário não costuma ser propriamente habitual, mas o PS, por causa da revisão constitucional e daquilo que o PSD garantiu para esse aspecto, pode ter essa aprovação. Mas o que estamos a ver nas ruas, e já prometido para este mês, é um período de contestação. É habitual, outubro já é sinônimo disso mesmo. Vimos já ontem um dia de greve com protestos. Há muitos agendados e há protestos até de setores menos habituais. Já tivemos sapadores a protestar esta semana. Há protesto da PSP e da GNR também agendados. Temos visto vários setores dos combustíveis também com os seus protestos. Como é que vês essa discussão orçamental? Este ano será mais a rua a fazer uma contestação do que propriamente a oposição?

Eu acho que sim. E já o ano passado foi assim em parte, porque no ano passado José Luís Carneiro também pré-anunciou uma viabilização do orçamento considerando a situação política. E este ano voltamos a ter uma pré-aprovação do orçamento ainda antes de ele ser conhecido, porque o PSD aceitou estas condições prévias do PS e o orçamento vai ser viabilizado porque Luís Montenegro deu esse sinal que José Luís Carneiro tanto pedia sobre revisão constitucional. Quer as condições prévias, que pareciam condições prévias prontas a usar, prontas a serem preenchidas, quer esta ideia de que o orçamento é um instrumento de política governamental e, portanto, a oposição não deve mexer muito nele, não é uma responsabilidade da oposição. Tudo isto também tem a ver com o período que os dois partidos, sobretudo PS e PSD, vivem, que ambos precisam de tempo. O PS para preparar uma alternativa, como José Luís Carneiro assumiu em agosto na sua reentrada, quando ele prometeu que daqui a um ano é que terá um quadro econômico e uma alternativa, percebe-se logo que não vai provocar qualquer crise. E José Luís Carneiro tem muito essa noção de que será prejudicado se for um fator de instabilidade. Quer o PSD, que também se sente fragilizado com o ponto em que está nas sondagens, com alguma incapacidade de fazer passar o discurso reformista. Ambos precisam de tempo e, portanto, é sobretudo isso, essa necessidade de tempo, que condiciona o processo orçamental. Quanto às contestações, de facto, outubro e novembro, como dizias, como são período orçamental, são muito meses de contestação e de manifestação nas ruas. São os setores mais ou menos habituais, mas também há setores não tão habituais. E eu aponto aqui, ou saliento aqui, as forças policiais, porque podem vir tornar a situação de Luís Neves diferente, porque uma coisa é um ministro que está acossado por um caso de antes de ser ministro, outra coisa é um ministro que nestes seis meses de cargo foi tendo uma aprovação mais ou menos dos setores que tutela e que agora começa a ser também contestado por esses setores por não dar as respostas que esperavam.

Certo. Tens nota para esta discussão do orçamental?

Tenho um 13 para José Luís Carneiro, porque acho que de facto é uma vitória para o líder do PS aquilo que Luís Montenegro disse sobre a revisão constitucional. Assumir que há um parceiro preferencial, ainda que não seja o único, mas também não pode ser o único, porque eles deixaram de conseguir fazer sozinhos uma revisão constitucional. Pela primeira vez, Luís Montenegro assumir que há um processo em que a história conta e a história destes dois partidos conta naquilo que virá a ser a revisão constitucional, eu acho que é uma vitória para José Luís Carneiro.

Enrico Burnet, vamos a esta política europeia, política internacional com protestos em Espanha, protestos em França, mas em Espanha já é uma situação mais do que focada apenas nos protestos, porque podemos estar à beira aqui de uma crise política, ou se calhar até já estamos a falar desse período de crise política, com uma decisão a aguardar-se de Pedro Sánchez quanto a um possível cenário de eleições antecipadas.

É isso, Miguel. Bom dia, Miguel, bom dia, Eunice. É o tabu de Sánchez, o segundo tabu de Sánchez. Mas antes disso, deixa-me tomar nota que, tendo em conta que esta semana que passou ficou na moda criarem-se provérbios novos, tu e Eunice Lourenço deram o mote para um novo provérbio que é: termina o verão, começa o protestão. Portanto, estamos nesse tema. Em relação à Espanha, aquilo que se está a passar é que aplicando-se a legislação espanhola sobre arrendamentos, há o episódio daquela senhora Mari Carmen, que é despejada, e isso vem associado com uma quantidade de manifestações em Espanha, vindas da esquerda, e Sánchez aproveita essa onda das manifestações para fazer um momento dramático, duas propostas legislativas chamadas, no fundo, propostas Mari Carmen, e quando chumbam no Parlamento, "Ai, Jesus, vou pensar no que é que vou fazer", sendo que quem conhece Sánchez e tem visto o que Sánchez faz normalmente, olha pra isso e diz: Sánchez quer se atirar para eleições. Por quê? Porque percebe o taticismo de Sánchez. Sánchez é profundamente populista e oportunista, e esta situação dá tudo o que Sánchez quer pra poder tentar ir a voto. Isto é, depois de estar numa situação absolutamente pantanosa, de todos os escândalos que se têm envolvido. Aliás, é gritante a falta de atenção que nós damos. Nós demos muito mais atenção, às vezes, a escândalos mais longe do que em Espanha, que é aqui ao lado, e onde têm acontecido coisas que a mim me faz muita confusão como é que pessoas equilibradas, atentas e sérias, apenas porque Sánchez é de esquerda, lhe toleram ou fazem de conta que isto é uma grande conspiração do PP, do sistema judicial e do mais que haja. E portanto, nesta situação, o Sánchez resolve aproveitar isto e atira-se pra eleições, por quê? Porque o seu aliado para governar, os Juntos pela Catalunha, não aprovou estas propostas no Parlamento O que é extraordinário é que os Juntos pela Catalunha, que para governar Espanha, sendo que é um partido que promoveu, entre outras coisas, um referendo ilegal para tentar a separação de Espanha, é perfeitamente razoável para no dia a dia governar Espanha. Mas quando aparece a opor-se a uma medida política concreta, ai de Jesus, que são os perigosos reacionários de direita, em quem não se pode confiar. Um membro do governo diz mesmo: "Era só o que faltava, agora por sete deputados não se pode pôr em prática uma política de governo." Quer dizer, os sete votos valem para o resto, quando é bom, mas quando é mau já não vale. É uma cena indecorosa que é Sánchez agarrado à pobre Mari Carmen e à sua cadeira de rodas para tentar salvar a sua carreira política. Eu acho que há aqui uma questão de fundo: Sánchez tem perfeita noção de que ele e este PSOE, no dia em que este governo acabe, será a queda não só de Sánchez, mas de toda a clique que está à sua volta e provavelmente deste PSOE. Eu acho que isso não vai ser um espetáculo bonito. E devo dizer que para nós, Portugal, que somos vizinhos, e só somos vizinhos de Espanha, não vai ser um espetáculo bonito ver a desagregação que se vai associar ao fim do PSOE. É um populismo extremo.

Enrique, se tivesses agora, ainda neste período, de fazer uma aposta sobre o que vai decidir Pedro Sánchez, achas que vai partir para eleições antecipadas ou vai tentar ao máximo segurar este governo?

Apesar da hora matinal, apostaria uma canha em como vamos a eleições.

Muito bem.

Meia depois do almoço, mas apostava já.

Enrique, podemos depois decidir onde é que se vai pagar essa aposta.

Exatamente. A nota vai no oito, porque eu acho que de facto Sánchez é um péssimo exemplo de populismo no governo.

Perdemos momentaneamente a ligação com o Enrique Bornay. Estávamos aqui já a receber a nota do Enrique, que quer ainda falar sobre os protestos em França e já lá vamos também esses protestos. Eunice, quero também colocar como tema Carlos Moedas, que tem estado na atualidade muito por causa do sistema Volta e as críticas que tem feito de forma dura a este sistema Volta. O Observador avançou ontem já ao final da tarde que Carlos Moedas integrou a comissão que criou esta diretiva que esteve na origem do sistema Volta a nível europeu. Ainda assim, Carlos Moedas rejeita ter validado esse sistema polémico.

Sim, eu quis trazer aqui Carlos Moedas precisamente por causa dessa vossa notícia do Observador, que eu acho que mostra bem como é Carlos Moedas. Claro que ele pode não se lembrar desta diretiva de quando era comissário.

Sim. Comissário europeu.

A idade também vai estragando a memória, mas além disso, ele diz que não tinha a tutela desta área. Mas quer dizer, era parte de uma comissão que aprovava diretivas. Portanto, há sempre tentativas de desresponsabilização por parte de Carlos Moedas. E ele tem sido o grande mobilizador de contestação ao sistema Volta, tentando arrastar consigo outros autarcas. E eu acho que pelos maus motivos, porque o que ele contesta não é o sistema, é aquilo que, por causa do sistema, se pode estar a agudizar em Lisboa, que é mais lixo ainda espalhado pelas ruas, porque há pessoas com dificuldades económicas à procura de garrafas para ir recolher algum dinheiro no sistema Volta. Ora, como dizia esta semana em entrevista ao Expresso o presidente da empresa que gere este sistema, não foi o Volta que criou a pobreza.

Nem a sujidade em Lisboa.

Nem a sujidade em Lisboa. Ora, tal como não se acaba com os hospitais para acabar com as doenças, também não se acaba com o sistema Volta para acabar com o lixo ou com a pobreza. E Carlos Moedas, a meu ver, tem estado muito mal neste posicionamento, porque acaba por pôr a nu as suas próprias fragilidades de conseguir resolver problemas que a cidade tem como autarca. E enquanto outros autarcas, como é um exemplo que o Expresso esta semana também traz, que é a Maia, que tem um sistema próprio de reciclagem. Enquanto outros autarcas se preocupam e se empenham em arranjar soluções, Carlos Moedas queixa-se e nunca E neste caso queixa-se de uma solução que foi ele que ajudou a criar. Que começou na comissão de que ele fazia parte e nunca assume responsabilidades. Ainda assim, o sistema, que pode ter problemas e pode ter de ser mais responsabilizado pelos efeitos que causa, é um sistema que já está a dar sinais de aumento da reciclagem e de facto nós estamos muito abaixo do que nos é exigido em termos de reciclagem.

E a tua nota é para Carlos Moedas?

Em vez de contestar, mais vale tentar arranjar soluções. A minha nota não é para Carlos Moedas, porque vou continuar a tentar cumprir a doutrina Bevides. Deixo um 14 para quem recicla.

Muito bem. Com assim volta, 14 para quem recicla. Enrique Bornay, creio que já temos conosco outra vez, já estás conosco Estavas a dar a tua nota para Pedro Sanches, depois da tua aposta de uma canha e queres falar sobre França, mas conclui a tua nota.

A nota era um oito e como temos pouco tempo, só sobre este tema que a Eunice estava a dizer, deixa-me só dizer três coisas muito rápidas. Foi sem cear a alheta, porque eu acho que aqui em abono de Carlos Moedas, eu diria apesar de tudo, três coisas. A primeira é que a legislação europeia não obriga à exata solução que foi feita em Portugal. Portanto, pode-se ter legislação europeia e não ter exatamente a solução que nós tivemos em Portugal. Há maneiras de fazer isto diferentes em vários Estados membros. Portanto, isso parece-me ser o primeiro ponto. Segundo, não há nada que não é completamente inédito, sobretudo então neste segundo mandato von der Leyen, em que estamos a assistir a desfazer várias coisas que foram feitas no primeiro mandato, Moedas é do mandato Juncker ainda, mas foram a ser desfeitas coisas que foram feitas, ou seja, não é novidade a Comissão Europeia fazer propostas, porque a Comissão só propõe, muitas das coisas depois é Parlamento e Conselho que decidem no fim e que afinal se conclui que não foram grande ideia. Este mandato está cheio de alteração do mandato anterior. Segunda nota. Terceira, que é apesar de tudo, que eu acho positivo para a política em geral, é que nós hoje em dia temos os políticos que vão para Bruxelas, já não são políticos que vão em fim de carreira, regressam. Isso é interessante, porque nós antigamente mandávamos para lá políticos que iam em fim de carreira e depois nunca mais sabíamos muito mais o que é que era feito. Agora temos a oportunidade de os reencontrar e eventualmente lhes perguntar coisas sobre o que fizeram. Isso é bom para o escrutínio da política europeia, portanto, por esse lado, acho isso bom. Indo ao tema que tu me pediste e como sei que tenho muito pouco tempo.

França, dois minutos.

Dois minutos para França, só para dizer. França está outra vez com aquelas manifestações que parecem fazer parte do ADN francês, que é não há manifestação em França sem incendiar caixotes de lixo e coisas do gênero. Os caixotes de lixo estão para as manifestações em França como a guilhotina está para a revolução. E de facto, em todas as grandes manifestações em França, elas vêm associadas normalmente com grandes momentos de violência, que são desconsiderados, vistos por nós fora de França, achamos absolutamente inconsumível. Os franceses estão mais habituados do que nós, faz-me a mim e continua a fazer muita impressão. E nos últimos tempos, estas dos liceus ainda mais chocantes são, porque são ver um bando de miúdos a deitar fogo a caixotes de lixo, que depois acabam a incendiar caminhões de bombeiros, acabam a incendiar entradas de liceus. Tudo isto é absolutamente desprezível. Mas há uma outra coisa que me parece igualmente ou mais grave ainda. É que começaram a circular na internet imagens que mostram estes miúdos a manifestarem-se, aproveitam-se o tom de pele menos claro de muitos deles e dizem: "Isto é o resultado da imigração." E depois dizem: "Descendentes da imigração incendeiam as escolas de França." Ou seja, há gente que aproveita estas manifestações, escolhe a dedo as fotografias, de preferência quando são escolas dos subúrbios onde há obviamente mais descendentes de imigração para tentar fazer de conta que o que se está a passar em França é o efeito de imigrantes. Aliás, há mesmo quem diga: "Importamos imigrantes, importamos o terceiro mundo, temos o terceiro mundo." Como se gente que obviamente não se manifestou da mesma maneira quando foram as manifestações igualmente violentas dos agricultores, as manifestações igualmente violentas dos coletes amarelos ou as manifestações igualmente violentas, em geral, quando foi contra a alteração da idade da reforma. Ou seja, a nota é baixa, não fui tocado pelo espírito Pedro Beneditos e portanto eu vou para um quatro para a desonestidade intelectual de quem aproveita estes momentos para espalhar o ódio ao diferente e ao estranho e ao que tem outra cor de pele e outra raça e outra religião. Em vez de notar, claro, isto é a França Insubmissa de extrema-esquerda a alimentar isto. É sim, senhor, como outras vezes é a extrema-direita. Mas este toquezinho do ódio racista, isto está cá e diz tudo sobre quem o faz.

Henrique, Eunice, obrigado. Bom fim de semana. O Vencedor Está de regresso amanhã.

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