Jon Watts é mesmo o diretor que ‘Star Wars’ precisa para voltar aos trilhos?

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Possível escolha do cineasta para comandar o Episódio X da Saga Skywalker nos faz questionar se este é realmente o caminho que Star Wars precisa para recuperar sua força nos cinemas
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
As últimas passagens de Star Wars pelo cinema não deixaram saudades. Sete anos depois de Star Wars: Episódio IX – A Ascensão Skywalker, a franquia retornou às telonas em 2026 com O Mandaloriano e Grogu e descobriu que transformar um sucesso do streaming em longa-metragem não era garantia de repetir o fenômeno comercial que a saga viveu durante décadas. O filme encerrou sua trajetória com cerca de US$ 345,6 milhões arrecadados mundialmente, diante de um orçamento de produção estimado em US$ 165 milhões.
Não se trata de um desastre absoluto, mas está muito distante do tipo de resultado que historicamente se espera de uma marca do tamanho de Star Wars. E, antes disso, a despedida da Saga Skywalker também havia deixado cicatrizes. A Ascensão Skywalker, lançado em 2019, terminou com apenas 51% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes. A recepção do público registrado pelo agregador foi consideravelmente melhor, com 86%, portanto seria impreciso dizer que o longa foi rejeitado pelos espectadores. O que ele expôs, porém, foi algo mais preocupante: a falta de uma direção criativa coesa para a conclusão — até aquele momento — da saga.
J.J. Abrams começou a trilogia em 2015 com Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força e, em 2017, Rian Johnson ficou responsável pelo tão questionado quanto aclamado Star Wars: Episódio VIII – Os Últimos Jedi — é difícil definir se existe uma parcela maior de fanáticos pelas ideias e visuais desenvolvidos neste capítulo ou de detratores. Se por um lado ambos filmes foram enormes sucessos comerciais — até hoje, as duas maiores bilheterias da franquia —, por outro lado, A Ascensão Skywalker não conseguiu repetir o sucesso, já que arrecadou pouco mais de US$ 1,077 bilhão nas bilheterias para um orçamento por volta de US$ 500 milhões. É pouco.
Pior: A Ascensão Skywalker, em diversos momentos, pareceu interessado em desmontar aquilo que Johnson havia feito no capítulo anterior. Não por acaso, parte da crítica interpretou o Episódio IX como uma espécie de correção de rota depois da reação extremamente polarizada ao Episódio VIII. Vale lembrar, inclusive, que Os Últimos Jedi registra até hoje uma diferença brutal entre crítica e público no Rotten Tomatoes: 91% entre os críticos e 41% entre os usuários. Só que o problema nunca foi simplesmente Abrams contra Johnson, ou decidir qual dos dois “entendeu” melhor Star Wars, mas permitir que três filmes apresentados como uma trilogia fossem conduzidos como uma disputa de cabo de guerra criativo.
Quando chegou ao terceiro capítulo, a Lucasfilm parecia mais preocupada em responder ao barulho provocado pelo segundo do que em concluir organicamente aquilo que havia começado no primeiro. O resultado foi um filme feito como se para atender às demandas da parcela mais ruidosa do fandom, como se isso fosse suficiente para devolver unidade a uma história que nunca pareceu saber exatamente aonde queria chegar. Na época, críticas chegaram justamente a observar que A Ascensão Skywalker gastava parte considerável de sua narrativa desfazendo decisões de Os Últimos Jedi.
É nesse contexto que surge Jon Watts, diretor da trilogia do Homem-Aranha estrelada por Tom Holland, nome dado pela imprensa norte-americana como possível escolhido para comandar o primeiro longa da nova trilogia de Star Wars, escrita por Simon Kinberg, e que deve continuar a Saga Skywalker. Embora as informações sobre a extensão de seu envolvimento ainda variem — a indicação é de que Watts comandaria inicialmente apenas o Episódio X —, sua escolha é curiosa justamente porque representa uma oportunidade de reencontro entre o cineasta e uma galáxia que ele já conhece.
Watts criou Star Wars: Skeleton Crew ao lado de Christopher Ford e dirigiu o primeiro e o último episódios da série. A produção foi muito bem recebida pela crítica — 92% de aprovação no Rotten Tomatoes —, mas seu recorte era deliberadamente juvenil. Crianças eram protagonistas e a referência às aventuras familiares dos anos 1980 estava incorporada à própria concepção do projeto. Parte significativa das críticas destacou justamente seu caráter infantil ou familiar, ainda que isso não significasse necessariamente uma produção incapaz de dialogar com adultos.
E aqui surge uma primeira dúvida: aquele que comanda Skeleton Crew funcionaria como piloto para um hipotético Episódio X? Continuar a Saga Skywalker significa carregar outro tipo de responsabilidade. Estamos falando de um público que passou anos discutindo cada escolha de Os Últimos Jedi e A Ascensão Skywalker. E o receio fica ainda maior quando se observa a carreira de Watts.
Sua filmografia recente revela um cineasta relativamente eficiente em operar dentro de máquinas industriais gigantescas, respeitando personagens, universos compartilhados, produtores, calendários e necessidades comerciais. É difícil, porém, encontrar uma assinatura visual ou temática que atravesse seus trabalhos e denuncie: “este é um filme de Jon Watts”. Ele funciona como aquilo que o cinema industrial sempre precisou e continuará precisando — um diretor de estúdio.
Isso explica sua passagem pelo Homem-Aranha do MCU. Watts dirigiu De Volta ao Lar, Longe de Casa e Sem Volta para Casa e conseguiu administrar uma quantidade progressivamente absurda de elementos dentro da engrenagem do Universo Cinematográfico Marvel. O último deles, sobretudo, exigia conciliar diferentes gerações do personagem, nostalgia, continuidade, participações especiais e as demandas narrativas do Peter Parker de Tom Holland. Watts entregou exatamente o filme que aquele momento industrial exigia. Mas a questão é justamente essa: Quanto daquela trilogia pertence realmente a Jon Watts?
A pergunta ganha contornos ainda maiores em 2026, com Destin Daniel Cretton assumindo Homem-Aranha: Um Novo Dia. Independentemente de qualquer comparação definitiva entre os dois trabalhos, a mudança evidencia como um novo — e melhor — diretor pode imediatamente alterar a personalidade visual de uma franquia. Um Novo Dia apresenta um olhar mais aprimorado sobre movimento, composição e ação, fazendo com que seja difícil não olhar retrospectivamente para a trilogia anterior e perceber o quanto Watts privilegiava funcionalidade sobre exuberância autoral.
Há ainda uma ironia interessante nesse possível retorno de Watts a um grande universo. Depois de Sem Volta para Casa, Watts deveria dirigir Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, mas deixou o projeto. Ele explicou que estava esgotado. Filmar o terceiro Homem-Aranha durante a pandemia de Covid-19, administrar os protocolos de segurança e enfrentar uma pós-produção especialmente complicada fizeram com que chegasse ao fim do processo, segundo suas próprias palavras, “sem gasolina”. Watts concluiu que não conseguiria fazer Quarteto Fantástico no nível que considerava necessário e preferiu sair.
A decisão é perfeitamente compreensível — e até responsável, mas também torna curioso vê-lo agora associado ao início de uma nova trilogia de Star Wars. Poucas propriedades intelectuais carregam um nível de cobrança comparável. Watts sabe melhor do que quase qualquer cineasta contemporâneo o que significa dirigir um blockbuster cercado por expectativas impossíveis. Agora poderá assumir uma franquia cujo fandom passou a última década transformando decisões narrativas, escalações e mudanças de cânone em campos de batalha. Só que talvez seja justamente por isso que a Lucasfilm o queira.
A empresa vive uma mudança importante. Kathleen Kennedy deixou a liderança do estúdio em janeiro de 2026 depois de 14 anos no cargo, retornando à função de produtora, enquanto Dave Filoni assumiu como presidente e diretor criativo ao lado da copresidente Lynwen Brennan. Filoni não é apenas um executivo administrando Star Wars: sua trajetória está profundamente vinculada ao universo criado por George Lucas, desde The Clone Wars até Rebels, O Mandaloriano e Ahsoka. Sua ascensão levanta a possibilidade de uma Lucasfilm ainda mais centralizada criativamente.
Filoni conhece esse universo, é um fã declarado dele e passou duas décadas contando histórias dentro dele. É razoável imaginar, portanto, uma estrutura em que o presidente e diretor criativo tenha participação considerável na definição do que Star Wars deve ser. Nesse cenário, Watts começa a fazer muito sentido. Um cineasta menos interessado em disputar autoria com a franquia e mais habilidoso em transformar uma orientação criativa maior em um blockbuster funcional pode ser exatamente aquilo que a nova Lucasfilm procura neste momento. Em outras palavras, Jon Watts talvez seja a escolha “perfeita” para o Episódio X. E é justamente isso que preocupa.
Isso porque a Disney não demonstra qualquer intenção de desacelerar a exploração de Star Wars. Star Wars: Starfighter, dirigido por Shawn Levy e estrelado por Ryan Gosling, chega aos cinemas em 28 de maio de 2027. A segunda temporada de Ahsoka estreia em 20 de janeiro do mesmo ano, enquanto uma segunda temporada da animação Maul – Shadow Lord já está em desenvolvimento. Além deles, a Lucasfilm mantém projetos cinematográficos associados a nomes como James Mangold, Taika Waititi, Sharmeen Obaid-Chinoy e ao próprio Dave Filoni, embora vários desses filmes tenham passado anos em diferentes estágios de desenvolvimento.
O objetivo é evidente: Star Wars precisa voltar a ser uma força cinematográfica. O streaming manteve a franquia culturalmente ativa e produções como Andor mostraram que ainda existem territórios novos a serem explorados dentro dessa galáxia. Entretanto, o retorno aos cinemas com O Mandaloriano e Grogu não produziu o que se esperaria de uma franquia que já fez bilhões de dólares nas bilheterias. O Episódio X, portanto, não será simplesmente mais um Star Wars. Será uma tentativa de convencer o público de que ainda existe uma razão para acompanhar uma nova Saga Skywalker.
Depois de uma trilogia marcada pela ausência de planejamento perceptível, Star Wars não precisa apenas de alguém capaz de administrar uma produção gigantesca. Precisa de uma ideia. De personalidade. De uma visão suficientemente clara para atravessar três filmes sem que o segundo precise contestar o primeiro e o terceiro precise contestar o segundo. Precisa, principalmente, que alguém saiba para onde essa história está indo antes que a primeira nave saia do chão. E para o público que espera que Star Wars volte ao cinema não apenas para continuar existindo, mas para voltar a surpreender, um nome como o de Jon Watts não é o suficiente.
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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.
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