Após a quarta volta ao mundo, família Schurmann lança fundo que mira US$ 6,3 milhões para o oceano
Quatro voltas ao mundo, 42 anos no mar e, só na aventura mais recente, mais de 140 destinos percorridos em 17 países.
Nos últimos cinco anos, a Família Schurmann percorreu o mundo a bordo do veleiro Kat em uma expedição do Voz dos Oceanos, iniciativa criada para combater a poluição plástica nos mares e dar visibilidade ao problema.
“Somos testemunhas oculares. Estamos no mar há mais de quatro décadas e vemos o que está acontecendo, vemos essa evolução do problema”, diz David Schurmann, em entrevista exclusiva à EXAME.
Cineasta e CEO do Instituto Voz dos Oceanos, ele é filho dos navegadores Heloísa e Vilfredo Schurmann, casal que iniciou a trajetória marítima em 1984 e teve uma "virada de chave" ao se deparar com uma faixa de 150 metros de lixo em West Fayu, ilha desabitada próxima a Papua-Nova Guiné.
O choque provocado pela cena ajudou a dar origem ao Voz dos Oceanos, idealizado em 2016 e lançado oficialmente em 2021, quando o Kat partiu para a quarta volta ao mundo da família.
Em abril de 2026, o veleiro desembarcou em Itajaí (SC), trazendo um diagnóstico alarmante: segundo a organização, plástico e microplástico foram identificados em praticamente todos os locais visitados.
A viagem encerrou o primeiro capítulo da história do Voz dos Oceanos. Segundo David, o retorno ao Brasil marcou o momento em que a família se reuniu para decidir como levar adiante o legado construído durante as expedições.

“Este ano, a gente sentou todo mundo. Meus pais voltaram para fazermos uma avaliação do que estava acontecendo e entendermos para onde iríamos”, contou.
À EXAME, a família revelou com exclusividade os planos da nova fase. O Voz dos Oceanos passará a se chamar Vozes do Oceano e lançará um fundo patrimonial que busca captar inicialmente US$ 6,3 milhões.
O objetivo é criar uma fonte permanente de recursos para projetos científicos, educacionais e de comunicação ligados à conservação marinha, e permitir que o legado dos Schurmann avance para além das expedições.
Como financiar o legado fora do mar
A criação do fundo parte de um problema identificado ao longo dos primeiros cinco anos da organização: enquanto as expedições e grandes eventos conseguem atrair patrocinadores, projetos científicos e educacionais contínuos dependem de novas rodadas de investimento.
"Acaba que a gente gasta mais tempo captando recursos do que conseguindo fazer o que é o nosso próposito desde o início", destacou David.
Segundo ele, a dificuldade aumenta quando não existe uma nova viagem ou grande exposição em andamento.
A família afirma ter investido mais de R$ 10 milhões de recursos próprios na iniciativa, sem contar os patrocínios.
O valor inclui os dois anos anteriores ao lançamento público do movimento, período dedicado a estudar a estrutura e a necessidade de uma organização voltada à agenda oceânica.
Foi nesse contexto que os Schurmann começaram a estudar o modelo dos endowments, conhecidos no Brasil como fundos patrimoniais.
A estrutura permite que doações formem um patrimônio permanente, que é investido. Em vez de consumir o principal, a organização utiliza parte dos rendimentos para financiar suas atividades.
No modelo desenhado pela família, metade dos rendimentos anuais será destinada aos projetos e à estrutura da Vozes do Oceano. A outra metade será reinvestida, permitindo que o patrimônio continue crescendo.
“Isso vira uma forma perpétua de financiamento da iniciativa e dos projetos de impacto”, diz David.
A primeira meta é captar US$ 6,3 milhões, valor considerado necessário para que os rendimentos ajudem a sustentar as atividades. Em dez anos, a expectativa é elevar o patrimônio para US$ 20 milhões.
A organização busca grandes doadores, family offices e fundos internacionais. O modelo já foi apresentado a potenciais investidores, e a família conversa com bancos e gestores para definir onde o patrimônio será administrado.
A proposta é pedir aos doadores uma contribuição maior, que poderá ser dividida ao longo de um ou dois anos, em lugar de solicitar novos aportes anualmente.
Um fundo independente, mas ligado à família
O fundo terá estrutura independente do instituto, com conselho, comitê de investimentos e auditoria próprios. Das seis cadeiras previstas no conselho, duas serão reservadas à Família Schurmann ou a pessoas indicadas por ela.
A participação busca evitar que a entrada de novos conselheiros ou o crescimento do patrimônio levem a instituição a se afastar de sua missão original, explicou David.
“A gente quer que ela se mantenha pura. Pode se adaptar, mudar, acompanhar os tempos, mas não mudar o seu propósito”, garante.
Os recursos também deverão seguir diretrizes de investimento compatíveis com a atuação ambiental. Segundo ele, a intenção é impedir aplicações em petrolíferas, mineradoras e outras empresas consideradas prejudiciais ao meio ambiente e oceanos.
Vozes do Oceano: a mudança de nome
A mudança de nome traduz a outra parte dessa transição. Criado como um movimento conduzido pelos Schurmann, o Voz dos Oceanos passou a reunir cientistas, comunidades costeiras, pescadores, marisqueiras, estudantes, organizações ambientais e empresas.
Ao avaliar a percepção construída nos últimos anos, a família concluiu que a iniciativa ainda era vista como uma extensão de suas expedições.
“As pessoas ainda viam que a Voz dos Oceanos era da Família Schurmann. E a gente falou: ‘Sim, nós estamos por trás, mas não é nosso. Isso aqui é algo de todos nós’”, afirma David.
Por isso, “Voz” passa para o plural, como referência aos diferentes grupos envolvidos na causa. “Oceanos”, por sua vez, fica no singular, seguindo o entendimento científico de que as divisões entre Atlântico, Pacífico, Índico, Ártico e Antártico dão nomes diferentes a um único sistema conectado.
“A Voz dos Oceanos não nasceu para ser nossa. Ela nasceu para ser de todos nós”, destaca o CEO.
A mudança também permite que a família saia gradualmente do centro da narrativa sem abandonar a organização. A ideia é transformar as vozes encontradas durante as expedições em protagonistas desta próxima etapa.
“A gente partiu em busca das vozes em terra e mar, encontrou elas, agora deixa a pluralidade mais evidente.”
O trabalho continua em terra
A família ainda não definiu uma nova volta ao mundo. Vilfredo e Heloísa Schurmann seguem morando no barco, atualmente ancorado em Itajaí, em Santa Catarina. David afirma que uma nova viagem só será planejada quando houver uma "missão clara".
Enquanto os veleiros permanecem no Brasil, a organização pretende ampliar as Casas Vozes do Oceano, espaços itinerantes que combinam exposição imersiva, cinema, debates e atividades com cientistas, estudantes, universidades, organizações ambientais e empresas.
A edição realizada em Belém, durante a COP30, recebeu 100 mil visitantes. A proposta é realizar duas ou três casas por ano, inclusive fora dos grandes centros. O fundo patrimonial deverá ajudar a financiar esse calendário e dar continuidade às ações de educação ambiental.
Para ele, ampliar o público significa tirar a pauta oceânica de um circuito formado apenas por pessoas que já conhecem ou apoiam a causa: É preciso ir além.
Após quatro voltas ao mundo, a nova rota dos Schurmann não depende mais de onde o veleiro Kat poderá atracar. Com novo nome e um fundo em construção, a família tenta fazer com que o trabalho iniciado no mar continue emesmo quando seus barcos não estiverem navegando.
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