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Saturday, November 7, 2026

Benjamin Moser: "O sionismo progressista não é possível"

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Ao recordar as vidas de Clarice Lispector, de Susan Sontag — empresa que lhe valeu um Pulitzer — e de uma série de mestres da pintura neerlandesa, Benjamin Moser grafou o seu nome como um dos mais importantes biógrafos do nosso tempo. No entanto, como já teve oportunidade de afirmar em várias ocasiões, a biografia é para o autor americano, formado em História, também um meio de discutir ideias através das figuras que as protagonizaram. Tal não podia mais claro em Antissionismo: uma história judaica, o seu mais recente livro, no qual esboça o retrato de 12 figuras — de Aaron Samuel Tamares a Nan Goldin, passando por Hannah Arendt e Felicia Langer —, unidas por duas características: todas foram judias e todas foram antissionistas.

Moser, judeu crescido no seio da diáspora de Houston, no Texas, pretende fazer parte da mesma linhagem. “O que eu e muitos outros estamos a fazer é dizer que Israel não somos nós, não nos representa. Temos horror do sionismo, é uma coisa anti-judaica e anti-palestiniana”, afirmou ao Observador em Lisboa, visita a propósito da promoção deste livro editado pela Penguin.

▲ Título: "Antissionismo" | Autor: Benjamin Moser | Tradução: Guilherme Pires | Editora: Penguin | Páginas: 416

Em Antissionismo: uma história judaica, um dos retratados, Aaron Samuel Tamares, é um rabino ortodoxo asquenaze nascido no que hoje é a Bielorrússia. O apelido sugere que a família teve origens ibéricas. Só isso dá-nos conta do que foram séculos de exílio e deslocamento das comunidades judaicas. Como é que essa condição histórica serviu de alimento para a emergência do sionismo enquanto projeto político?
Porque, justamente, havia uma dispersão. No caso dos judeus de Portugal, foram expulsos e tiveram de ir para outros países. No entanto, houve também uma imigração, em que foram migrando nos séculos que passaram. Nessas migrações, digamos, havia características judaicas que ficaram. Com algumas pessoas foi a religião, mas com outras era até mais uma sensibilidade judaica que permaneceu. Uma pessoa da Califórnia não era igual a uma do Iraque ou da Dinamarca. Portanto, o sionismo teve de reunir essas pessoas à força, porque elas não queriam, já estavam nos seus países. Era um projeto que necessitava de muita força e violência, porque não era natural. Sim, já havia desde sempre a ideia de um fim do mundo, de quando voltaria o Messias, mas isso não era um projeto enraizado no mundo real. Não podia ser: as pessoas eram diferentes, com diferentes experiências, tidas ao longo dos séculos que haviam decorrido.

Benjamin Moser e a história dos judeus que se opuseram ao sionismo

Esta figura de Tamares e outras 11 personalidades traçadas no livro fazem parte de uma longa tradição judaica de antissionismo. Para perceber as respetivas posições, é necessário perceber o que quiseram combater. Como definiria o que é o sionismo?
É muito simples. Digo que o sionismo é o desejo de estabelecer um estado judaico na Palestina. Ponto. É algo que tem muitas vertentes, muitas ideias divergentes, mas é basicamente isso. E o Tamares, por exemplo, é muito interessante, porque articula [a sua oposição] de uma maneira fantástica, é quase histérico, os seus sermões são muito poéticos e cheios de alusões bíblicas. Ele defende que a dispersão do judaísmo parece uma coisa má, mas, na verdade, se virmos do ponto de vista religioso, isso salvou os judeus, porque não estão num lugar só. Historicamente, pode acontecer algo em determinado país, mas noutro estão a salvo. Pode haver um período mau, mas também há outros bons. Com o panorama histórico de vários milénios, vê-se que isso salvou os judeus — é por isso que é preciso ter fé. Deus protege os judeus de uma forma muito perversa às vezes; houve perseguições, houve chacinas, mas afinal de contas, os judeus estão aí. E depois há outro ponto que ele aborda e que, para mim, é muito óbvio e que se aplica a quase qualquer outra religião. Um dos mandamentos do judaísmo é “não matarás”, e se constituirmos uma nação política com exército, com generais e coronéis, vai haver guerra e vamos acabar a matar pessoas. Isso vai acabar com a nossa religião, é muito simples. O judeu tinha de ser pacífico, já que o pacifismo, que parece ter-nos posto em perigo, olhando historicamente, salvou-nos.

Um dos aspetos talvez mais surpreendentes do retrato que Tamares faz das origens do sionismo é o quão crítico é da própria comunidade judaica — chega mesmo a classificá-lo como assente em pressupostos antissemitas. Em que medida?
É preciso ter em conta que ele não criticava o judaísmo em si, porque os sionistas não tiveram qualquer interesse no judaísmo religioso e tradicional. No século XIX, em Portugal e em qualquer outro país, o mundo estava a ficar moderno e as pessoas começaram a sair das aldeias, não queriam ficar com a tia a rezar oito vezes por dia. Queriam participar nesse mundo moderno e uma maneira de fazê-lo era o nacionalismo. Só que o problema dos judeus desde o início é que não tinham território. Se você fosse um húngaro a viver no Império Austro-Húngaro, aí sim, podia dizer “a Hungria é uma nação, queremos ser independentes, queremos separar-nos”. Tudo bem, porque a Hungria existia. O problema dos judeus, precisamente, é que estavam dispersos, e o território que os sionistas exigiam era ocupado por 97% de não judeus. Como é que iam apoderar-se daquele espaço? Só com uma violência imensa. Portanto, era preciso fazer uma rebelião intrajudaica destinada aos mais novos, àqueles que sonhavam com a grandeza de fazer parte do mundo moderno, que tivessem a possibilidade de se separar daquilo que consideravam antiquado, supersticioso, antigo. O Brasil pode rebelar-se contra Portugal, por exemplo, e separar-se, mas os judeus não, porque não tinham terra-mãe. Portanto, a rebelião foi contra os próprios pais, contra as autoridades religiosas. Não sei se conhece Israel, mas… não é como em Portugal, onde as pessoas podem ser católicas ou não, mas ninguém liga muito. Lá não são apenas irreligiosos, são mesmo contra, e isso vem desde muito cedo do sionismo. É por isso que os rabinos, como Tamares, disseram desde o início, que “isso vai implicar a destruição da nossa religião”. E deu no que deu.

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