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Tuesday, September 22, 2026

Jorge Palma, o cantor que já em criança "tinha bom ouvido"

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Não se fala de outra coisa. O país, a cultura portuguesa está de luto. Morreu esta noite o cantor e compositor Jorge Palma, aos 76 anos, vítima de paragem cardiorrespiratória. Ícone da música nacional, deixa um patrimônio incalculável de 14 discos originais, mais de meio século de canções que definiram o espírito de liberdade de várias gerações. A família e a equipe do artista já reagiram, pedem que o país continue a celebrar a vida de Jorge Palma através da música e das palavras que nos deixou.

Enquanto houver estrada pra andar, a gente vai continuar. Enquanto houver estrada pra andar. Enquanto houver ventos e mar, a gente não vai parar. Enquanto houver ventos e mar.

Começou a ter aulas de piano aos seis anos. Entrou no Conservatório de Música de Lisboa aos 10, mas começou a tocar antes disso, em casa, onde havia um piano. Disse numa entrevista: "Era o meu brinquedo, tinha bom ouvido e as coisas que eu ouvia na rádio e no giradiscos reproduzia no piano. Tinha jeito pra aquilo e as pessoas repararam, a começar pela minha mãe, que também tinha estudado piano". Aos 14, abandonou a música clássica pra se dedicar ao pop rock e em 72 gravou o primeiro single em nome próprio, "The Nine Billion Names of God". O pagamento? Uma máquina de lavar roupa.

Eletrodomésticos.

E um frigorífico, que deu um jeitão, não é? Porque na altura tinha acabado de casar com a primeira mulher. Pouco depois, já em 73, foi convocado pro serviço militar, mas decidiu abandonar o país e instalar-se na Dinamarca. Antes de partir, leiloou o tal pagamento dos eletrodomésticos pelos amigos. Em Copenhaga, trabalhou num hotel, na manutenção, na lavagem dos elevadores e na limpeza dos quartos. Regressou a Portugal logo a seguir, ao 25 de Abril.

Músico de rua.

Exatamente, também.

Depois tocava Dylan, Leonard Cohen, e a coisa rendia.

Ele diz que tinha um repertório muito variado.

Pois foi.

Para aí umas 40 canções que podia tocar. Ele diz que nunca tocava duas vezes a mesma canção no mesmo dia. Isto pra variar, quando tocava na rua, no metrô, em Paris. E também fez amizade com muitos outros artistas de rua. Conta essas histórias nas várias entrevistas que deu ao longo do tempo, também aqui ao "Observador". Fala dessa importância de um café, o Mazé, ele diz, em Paris, onde se juntavam.

Ia gastar uma parte daquilo.

Exatamente. E iam trocar também as moedas que recebiam e que o dono do café os incentivava muito, porque eram clientes fixos. Tinham ali sempre algum rendimento. E essa experiência também. Eu acho que isso é uma das coisas mais interessantes no percurso do Jorge Palma, é que ele mistura esse lado da erudição, dos estudos clássicos do piano, depois com uma experiência de rua, pra além das suas próprias influências, que tu estavas a falar do Leonard Cohen.

Vagabundo, não é?

Exatamente. Eu acho que era isso uma das principais razões do fascínio do Jorge Palma, de misturar esses dois universos à partida, tão diferentes. Ele disse isso várias vezes na entrevista, ali nos anos 80, em que tem os seus álbuns mais marcantes e das músicas que todos nós conhecemos, não era um grande sucesso de vendas. As músicas instalaram-se no nosso patrimônio coletivo.

Lentamente.

Lentamente, foram se consolidando.

Foram se instalando. É, de fato. Com o tempo.

Não são aqueles sucessos imediatos.

Exatamente.

Vão crescendo, vão entrando. Vão crescendo e fazendo parte do cancioneiro, mas devagarinho.

O que também é um bom teste do algodão pra música de qualidade, não é? É aquela que resiste e até se reforça ao longo do tempo.

E que entra quase sem nós darmos por isso. Hoje, seria viral.

Patrimônio.

Hoje seria viral.

Seria viral. O "Deixa-me Rir", o "Bairro do Amor".

É mais o conceito do Paulo, de patrimônio, porque sobrevive a essa moda. Não é? Sobrevive às modas.

Sobrevive, mas toda gente as conhecia. Ou seja, eu acho isso muito curioso e estava a ler as entrevistas dele. Ele dizer que não vendia muito, não eram grandes sucessos de vendas, chegavam muito lentamente ali ao disco de prata, ao disco de ouro, mas as canções já estavam a circular e ficaram. E depois há outra curiosidade em relação ao percurso do Jorge Palma, é que ele lança um álbum de originais, eu creio que é o "Bairro do Amor", em 1989. Depois lança o "Só", que não é um best of, porque são novas versões, novos arranjos.

É uma roupagem diferente, muito mais intimista, só ao piano.

Em 91, mas depois fica até 2001 sem lançar álbuns de originais.

E ainda assim, se calhar, no período de maior notoriedade.

Ele faz parte dos Rio Grande. Eu vi os Rio Grande no primeiro festival do Sudoeste, onde eles participaram. Isto pra se ter noção também do alcance, do sucesso que tiveram os Rio Grande nessa altura. Mas ele nessa década de 90, que é uma década muito importante pra música portuguesa, com grandes mudanças na música portuguesa, ele não lança nenhum álbum de originais. E eu lembro-me da expectativa que vi em 2001, quando sai o disco Jorge Palma, que é também conhecido como "É Proibido Fumar", por ter aquele letreiro atrás na fotografia. Havia uma grande expectativa em relação a esse regresso aos originais do Jorge Palma, mas ele, na verdade, nunca nos tinha abandonado. As canções dele estavam sempre aí.

E agora? Foi um autor que inspirou muitos outros, colaborou com muitos outros, trabalhou com muitos, nunca teve dificuldade, provavelmente muito prazer, em juntar-se a outras sonoridades, a outros ambientes, a outras inspirações.

Sim.

As músicas dele foram sendo também muito reinterpretadas e é isso também que faz dele alguém que fica pra além deste dia em que morre.

E ele próprio a colaborar em vários projetos pra dar novas roupagens a essas canções. Desde logo, o "Só", mas aí era ele sozinho, mas o Palmas Gang também, com o Zé Pedro, por exemplo, em que também faziam versões mais rock das suas próprias canções. E haverá aqui o que é uma aparente contradição da forma como ele se definia, como um individualista romântico, mas é um individualista Que tinha tantas colaborações, estava tão ligado a tantas figuras: o Zé Pedro, o Tim, o Sérgio Godinho

"O Irmão do Meio", esse grande álbum e que é uma mistura de êxitos dos dois.

Dos dois. Duas figuras gêmeas. Muito parecidas, claro, com trajetos muito diferentes, mas que tinham essas afinidades. Toda a gente estava à espera do dia em que eles se juntassem. E foram um enorme sucesso, os concertos.

Sim, foram. De certeza que foram sempre muito felizes.

Acho que um dos concertos é um álbum ao vivo.

Ao vivo.

Claro, de ambos. Tenho ideia disso. E depois os projetos coletivos. Já falaste dos Rio Grande, também esteve nos Cabeças no Ar.

Cabeças no Ar, creio que por volta de 2001, 2002.

Aqueles projetos coletivos. Um traço curioso: ele regressou ao conservatório já com 30 e tal anos para concluir a licenciatura.

Já estava a vender bem.

Era consagrado.

Sim, já era consagrado.

Saiu com 40 e sentou-se ao lado de

Miúdos.

Miúdos com menos 20 anos do que ele, dada a idade dele, o que também define bem uma personalidade. Ele quis acabar, e acabou com distinção, o curso de piano. Já consagrado, já não precisava do diploma para nada, se quisermos, mas foi aprender, foi concluir, foi aperfeiçoar.

Sim, quando já não precisa. Outro traço, e também temos que falar dele, aliás, porque ele também o assumiu muito e tinha a ver com uma vida que podemos chamar de boa vida ou de vícios.

Boêmia.

Boêmia, com consequências para a saúde, na verdade, que ele também assumiu, sobretudo, acho que quase desde sempre.

Desde sempre.

Nunca escondeu.

Nunca escondeu, exatamente. Nunca escondeu, foi falando mais abertamente nos últimos anos, o que também é interessante. E também é um traço de personalidade, a frontalidade com que foi falando da sua vida, de todos os aspectos, dos menos bons.

Mesmo a forma como ele se apresentava, eu ia dizer que era descuidada. Não era descuidada, era natural.

Havia ali uma vistosa.

Exatamente, não se cuidava nem para sessões fotográficas, ao meu par, nem para subir a palco. Era aquilo.

Era ele. Autêntico.

É contada uma história.

Não ia esquecer aquela aparadela no cabelo.

Exato. Sempre alinhado.

Num desses artigos que temos no Observador, e convido também os nossos ouvintes a ler, conta-se a história das fotografias tiradas pro álbum "Pro Só", em que houve o aconselhamento do Carlos Maria Trindade, que passou a ser o responsável por artistas e repertório da Polygram, substituindo o Tozé Brito, que tinha iniciado o projeto, e que foi o Carlos Maria Trindade que o levou para vestir um fato de José António Tenente. Mas mantendo ali aquela aura do Jorge Palma de desalinhado, porque era uma imagem muito associada a ele, também cultivada, sem ser demasiado pensada, mas cultivada. Aquele ar despreocupado do Jorge Palma, eu acho que está associado à imagem e à própria música, como se aquilo até fosse fácil.

Exato. É isso.

A impressão que dava, claro, e só eram composições muito elaboradas, os arranjos muito pensados, mas ele sentava-se ao piano e parece que aquilo saía naturalmente.

E as letras, um grande poeta também, parece que eram letras só à espera de ser escritas. Porque a fluidez do poema, tudo aquilo faz sentido.

De uma certa coloquialidade também, muitas das expressões.

A descontracção.

"Epá" e o "deixe-me rir".

E que ficam. E que nós usamos, se calhar, algumas delas já sem saber que somos dele.

Exatamente. Montes de canções que ele tem em que faz precisamente isso, pegar nessas expressões e depois nós vamos cantando e vamos falando, muitas vezes sem saber a origem. Deixa-me só dizer em relação à questão de ele ter voltado ao conservatório. Ele diz que isso foi muito importante na conceção desse álbum, só ele e um piano. O "Só", em que faz as novas versões dos seus grandes sucessos na altura, das músicas mais conhecidas. Ele diz que o fato de ter voltado ao conservatório, ter voltado à música clássica, o ajudou bastante a encontrar o som para aquele álbum em particular, que se tornou talvez o ex-libris da sua obra.

Ele recebeu vários prêmios. Por exemplo, em 2020, mais recentemente, recebeu a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa, no final de um concerto, quando celebrava os seus 70 anos. Foi também condecorado pelo então presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Mas ficou a faltar aquela homenagem.

Há sempre. Difícil. Acho que sim. Quando se atinge esta estatura.

Não é? Parece que fica aqui um vazio em termos de homenagem. Eu não sei se vocês já o viram ao vivo alguma vez.

Sim.

Vi.

Mas há muitos anos.

Eu estou talvez há três anos, dois, três anos, que o vi num concerto com Rui Reininho. Podem imaginar? Cantaram, sobretudo, as canções do último álbum do Jorge Palma, que é 2023, deve ter sido. Portanto, nesse ano. Podem imaginar o que são aqueles dois homens em palco, aquelas duas figuras em palco. O público gostava e gosta muito dele. Não sei se seria a homenagem que o Jorge Palma merecia.

Eu acho que é um pouco por aí. O Jorge Palma, depois desse interregno ali nos anos 90, reaparece e eu acho que ele conquista, se não essas homenagens mais oficiais, conquista, de fato, o reconhecimento do público de uma forma que as canções dele pediam, que já estavam nesse tal patrimônio, mas eu acho que faltava, quer a nível de vendas, quer desse reconhecimento, pois em concertos faltava-lhe isso. Eu acho que ele obteve isso, até o fim da vida.

O último prêmio, que nós recordamos agora, o Prêmio Play. A forma como ele genuinamente estava surpreendido por ter sido reconhecido com o prêmio, significa que se calhar não contava com isso? Não era tão importante? Não sabemos. Agora não conseguimos saber.

Lá está, também daquele tipo de coisas, esse lado mais oficial não casava muito bem com o estilo, com a atitude do Jorge Palma. Eu acho que é uma coisa que é incrível em todo o percurso dele, ele transmitir esse sentimento de autenticidade. Ou seja, mesmo quando fez canções que se tornaram mais conhecidas, mais comerciais até, e que estavam em todo o lado.

"Quem Encosta, Taminha", por exemplo.

"Quem Encosta, Taminha", que foi um sucesso avassalador. Eu creio que ele nunca perdeu esse lado mais rebelde, mas autêntico, de alguém que não está a fazer as coisas a pensar no que é que vai vender. É aquela expressão que se usa muito nos Estados Unidos e Inglaterra, que é alguma desilusão que os fãs de algumas bandas e músicos têm, que é quando acham que eles se vendem.

Ou que continuam a fazer o mesmo, muitas vezes.

Começam a pensar mais no que isto vai vender, o que eu posso sacar disto. E creio que o Jorge Palma nunca foi por aí. Ele continuou a caminhar, continuou a seguir o seu caminho, mas nunca foi por aí. Eu acho que o público também reconhecia isso.

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