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Wednesday, October 21, 2026

Gestor de fundo do Amapá suspeito por aporte no Master mentiu sobre cargo para obter R$ 10 mi ao Carnaval

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Brasília O gestor que está no centro de uma investigação da PF (Polícia Federal) sobre aportes de recursos de aposentados no Banco Master, Jocildo Silva Lemos, mentiu sobre o cargo exercido na Amprev (Amapá Previdência) ao buscar um patrocínio de R$ 10 milhões do governo local ao Carnaval de 2026 em Macapá.

Aliado do senador Davi Alcolumbre (União-AP), Jocildo acumulou o cargo de diretor-presidente da Amprev, sendo um dos principais responsáveis por destravar a destinação de R$ 400 milhões dos servidores aposentados a letras financeiras irrecuperáveis do Master, e de presidente da Liesap (Liga Independente das Escolas de Samba do Amapá), entidade que organiza os desfiles das agremiações no sambódromo da capital.

O MP (Ministério Público) do Amapá instaurou um inquérito civil público para investigar improbidade administrativa e conflito de interesses nessa atuação dupla.

Dez pessoas formam um círculo em área externa à noite, algumas aplaudindo enquanto um homem dança no centro. Uma mulher com faixa e coroa está entre os participantes, que vestem roupas casuais e coloridas. Cadeiras brancas estão ao fundo sob árvores.
O senador Davi Alcolumbre (União-AP) e o então presidente da Amapá Previdência e da liga de escolas de samba, Jocildo Lemos, em festa antes do Carnaval de 2024 no estado - @liesapoficial no Instagram

Documentos obtidos pela Folha referentes ao patrocínio do Governo do Amapá ao Carnaval mostram que Jocildo afirmou na proposta feita à Secretaria de Turismo que era ex-diretor-presidente da Amprev. Ele assina os ofícios, propostas e projetos encaminhados à secretaria como presidente da liga das escolas de samba.

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O gestor disse no mesmo documento, para adequação a um decreto em vigor no estado, que a Liesap não tinha, entre seus diretores, "dirigentes de órgão ou entidade da administração pública estadual".

A proposta foi apresentada em 25 de junho de 2025. No mesmo dia, a capa da edição do Diário Oficial do Amapá mostra que Jocildo estava à frente da Amprev.

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A lei veda parcerias entre a administração pública e organizações da sociedade civil que tenham diretores que também sejam dirigentes de "órgão ou entidade da administração pública da mesma esfera governamental na qual será celebrado o termo de colaboração ou de fomento".

O ex-presidente da Amprev e a Liesap não responderam aos questionamentos da reportagem, enviados aos emails dos dois em 6 de outubro.

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Atas públicas sobre a atuação de Jocildo no comitê de investimentos da Amprev e no Conselho Estadual de Previdência –que também foi presidido por ele– registram ações do gestor nas instituições vinculadas ao Governo do Amapá no mesmo momento em que buscava dinheiro público para financiar o desfile das escolas de samba.

Em 26 de junho, ele presidiu uma reunião do Conselho de Previdência. O Master foi assunto nessa reunião: "O presidente Jocildo Lemos comunicou que foi agendada reunião extraordinária com a diretoria do Banco Master, com a finalidade de prestar esclarecimentos acerca dos investimentos realizados pela Amprev."

Atas das reuniões do comitê de investimentos da Amprev mostram que Jocildo participou de deliberações em 29 de maio, 13 e 27 de junho e 15 de julho de 2025.

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O pedido dos R$ 10 milhões para o Carnaval foi feito em 25 de junho. Em 2 de julho, por unanimidade, o comitê de patrocínio do Governo do Amapá aprovou a liberação do dinheiro. O comitê é formado por sete secretários estaduais. O contrato foi assinado em 31 de julho. Do lado do governo, assinou a secretária de Turismo, Syntia Lamarão. Do lado da Liesap, Jocildo.

O dinheiro foi liberado, as escolas de samba desfilaram e já houve prestação de contas dos gastos, aprovada pelo Governo do Amapá.

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Jocildo foi nomeado diretor-presidente da Amprev pelo governador do estado, Clécio Luís (União). A indicação foi feita por Alcolumbre, para quem Jocildo já atuou como tesoureiro de campanha.

O Governo do Amapá e o senador Alcolumbre não responderam aos questionamentos sobre os documentos do patrocínio ao Carnaval. As perguntas foram enviadas ao WhatsApp das assessorias em 6 de outubro.

A gestão estadual afirma que não existiu conflito de interesses. "O convênio foi firmado com o governo, não com a Amprev, inviabilizando qualquer tipo de ingerência direta do gestor sobre o repasse dos recursos", disse. "A aplicação dos recursos seguiu rigorosamente os parâmetros técnicos e legais estabelecidos."

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O presidente do Senado disse que atuou no Carnaval por meio de "articulação institucional" e que isso é reconhecido pelas escolas de samba e pela liga, uma vez que houve uma retomada dos desfiles após anos sem a realização do evento.

"O senador não participa da gestão administrativa ou financeira da Liesap nem interfere na escolha de seus dirigentes", afirmou a assessoria.

No andamento da proposta de patrocínio ao Carnaval, Jocildo foi cobrado a apresentar cotações de mercado que embasassem a estimativa de custos da liga, organizadora do evento, e das escolas de samba, que receberam a maior parte do dinheiro, para a realização dos desfiles.

Nos documentos, ele afirmou que uma parceria anterior com o Governo do Amapá, com a mesma finalidade, foi fechada apenas com um "percentual estimado" de quanto seria gasto em fantasias, alegorias e mão de obra. O argumento foi aceito, e os R$ 10 milhões foram liberados sem cotações específicas.

Nos Carnavais de 2025 e 2026, a liga recebeu R$ 22,5 milhões; parte do dinheiro foi repassada diretamente para as escolas de samba. O montante incluiu repasses diretos dos cofres do estado e emendas parlamentares de cinco deputados estaduais.

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Em divulgações, o Governo do Amapá afirmou que Alcolumbre intermediou emendas para a Liesap. O presidente do Senado também divulgou informações sobre o desfile e sobre a destinação de dinheiro público ao Carnaval. Divulgações da liga têm a logomarca de Alcolumbre em banners e postagens em redes sociais. Jocildo disse que o apoio do senador permitiu "desfiles grandiosos".

Amprev e Liesap tinham quatro gestores em comum, como mostram os documentos do patrocínio às escolas de samba. Dois foram alvos da PF, em fevereiro, por gestão fraudulenta e temerária na destinação de dinheiro ao banco de Daniel Vorcaro; Jocildo foi um deles.

Um terceiro, que teve cargo de motorista do escritório de apoio de Alcolumbre, atuou como analista previdenciário da Amprev e aparece como um dos responsáveis pela conta bancária da liga de escolas de samba. Um quarto gestor da liga atuou como advogado da Amprev.

O vice de Jocildo na entidade de samba é Felipe Edson Pinto, o Felipe Show (União-AP), o deputado federal mais votado no Amapá no primeiro turno das eleições. O governador Clécio, que tentava a reeleição, apoiado por Alcolumbre, foi derrotado nas urnas.

Jocildo presidiu a Amprev entre 2023 e fevereiro de 2026. Ele só pediu demissão em razão da investigação da PF sobre os aportes de R$ 400 milhões no Master. O aliado de Alcolumbre permaneceu à frente da liga de escolas de samba.

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O pedido de demissão da Amprev foi feito dias após a operação da PF que cumpriu buscas em endereços de três gestores, Jocildo entre eles. Segundo a polícia, o então presidente da Amprev teve "papel central" na condução das reuniões em 2024 que decidiram validar as compras de letras financeiras.

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