Três filmes para ver esta semana

O documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor, premiado no Festival de Veneza e que levou o governo de Benjamin Netanyahu a ameaçar tirar a cidadania aos realizadores e investigá-los por traição, vem acrescentar ao que já se sabia sobre o recurso à IA e a política de tiro indiscriminado das forças armadas de Israel em Gaza, abrangendo civis e não só militantes e operacionais do Hamas, uma série de depoimentos arrepiantes, filmados de noite e sob anonimato em telhados de prédios de Telavive, de 24 oficiais dos Serviços de Informações envolvidos nas operações militares, sobre o funcionamento dos sistemas de bombardeamento e os critérios neles utilizados (o “NAZA” do título é um acrónimo para as baixas colaterais, friamente desconsideradas); e revela as atitudes e as justificações daqueles perante o terrível resultado dos seus atos. A necessidade do recurso ao total anonimato dos participantes põe o problema da credibilidade das fontes, pelo que temos que confiar na boa fé dos realizadores de NAZA, ao qual falta mais contexto: como é que Abraham e Szor chegaram à fala com estas pessoas? Como é que as convenceram a falar? Podemos acreditar em absolutamente tudo o que dizem? O que lhes pode suceder se forem identificados? As respostas a estas perguntas teriam feito de NAZA um trabalho mais completo e mais sólido.
“Um Fantasma Útil”
Este filme de estreia do tailandês Ratchapoom Boonbunchachoke, vencedor da Semana da Crítica no Festival de Cannes de 2025, é parte história de fantasmas cómico-dramática com um elemento de nonsense, parte alegoria sobre os acontecimentos políticos das últimas três décadas na Tailândia e a presente situação do país, contendo ainda alusões ocasionais à forma como a homossexualidade é ali encarada. Se a componente de comentário político de Um Fantasma Útil escapará aos espectadores que não estão a par da história tailandesa recente, o enredo sobrenatural servirá de compensação, envolvendo dois aspiradores possuídos respetivamente pelo operário de uma empresa onde eram fabricados e que se quer vingar da patroa porque morreu devido às más condições de trabalho, e por uma mulher recentemente falecida e que regressa sob a forma deste eletrodoméstico para cuidar da alergia ao pó do marido. Ao que parece, os espectros na Tailândia são encarados com naturalidade pelos locais: ver a sequência em que a enfermeira de piquete na receção do hospital, posta perante o fantasma da senhora que habita o aspirador e quer saber em que quarto está o marido, lhe responde com toda a calma e compostura que as horas de visita acabaram e que terá que esperar até de manhã.
“Digger”
Maquilhado para parecer mais velho e mais pançudo, Tom Cruise interpreta Digger Rockwell, a personagem do título deste novo filme do realizador mexicano Alejandro González Iñarrítu, autor de Birdman, The Revenant: O Renascido, ou Bardo, Falsa Crónica de Umas Tantas Verdades. Digger é um poderoso e bronco magnata do petróleo que trata o Presidente dos EUA por tu, só tem olhos para a sua moribunda e incontinente gata de estimação e é temido pelos seus empregados. A história passa-se num futuro próximo, em que existe uma série de novos gadgets de comunicação e computacionais, e Digger é informado de que houve um grave acidente numa das suas plataformas de exploração de petróleo no Ártico, que levou ao desprendimento de uma colossal massa de gelo. Se as correntes e os ventos não a desviarem, a bisarma poderá atingir a Noruega e provocar um megadesastre na Europa, e o governo e Digger juntam-se numa reunião de emergência para tentarem salvar a situação. Digger foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.
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