Jorge Palma. "Ele agarrava na guitarra e ia para a Europa”

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António Manuel Ribeiro é vocalista dos UHF. Bom dia, António, bem-vindo.
Bom dia.
Os UHF contaram com o Jorge Palma também, pelo menos numa actuação. Há muito tempo, 1985. Haverá mais?
Houve mais. Nos anos 90 fizemos dois Coliseus, Lisboa e Porto, e tivemos três convidados: o Jorge, o Zé Pedro, que também já não está entre nós, e a Lena d'Água. E portanto, o Jorge era uma pessoa que eu conhecia há muito tempo. Uma cara alegre, uma piada sempre pronta. Como é que eu hei de dizer? Ele era capaz de poder estar mal na vida, ou mal interiormente, não sei, mas era capaz de estar sempre simpático, divertido e ter uma alegria para nós.
E isso foi uma influência para os UHF. A vossa origem é, de facto, muito diferente. O Jorge Palma começa com música mais erudita, vira depois para o rock. Os UHF têm logo essa formação e fazem parte desse boom do rock português. Como é que se tocavam musicalmente?
O que mais me espantava no Jorge Palma logo no início. Eu conheço o Jorge Palma inicialmente com um EP, que era um disco pequenino de quatro canções, em que ele já tinha duas letras dele e duas composições musicais, e depois no outro lado tinha dois poemas do Ary dos Santos, que ele musicou. E mais tarde, quando sai o primeiro disco grande dele, o LP, em 75, logo no ano a seguir ao 25 de Abril, com "Uma Viagem na Palma da Mão", está ali qualquer coisa de diferente para mim. Ou seja, está ali a palavra em liberdade, mas ele não era um seguidista daquilo que era a canção de intervenção, que foi muito importante nos anos da ditadura. Não, o Jorge Palma logo em 75 tem alguma coisa nova para nos dar. A música, a melodia, a palavra, a poesia, porque ele era poeta, e o canto, além de ser um grande pianista.
Sim. O Álvaro Covões dizia-nos que era alguém que estudou música e isso faz a diferença.
Ele estudou música. Aliás, ele uma vez explicou-me que continuava a estudar piano e portanto tinha uma disciplina grande enquanto trabalhava. E é uma coisa fantástica que às vezes as pessoas esquecem. O Covões estava a dizer uma coisa curiosa, que ele não era um gestor da carreira dele próprio. É verdade. É verdade porque ele agarrava na guitarra e ia para a Europa. Andava no metro, andava nos bares, tocava na rua e depois de vez em quando vinha cá e numa noite, numa manhã, numa tarde, gravava 10 canções e ia-se outra vez embora. E eu penso que o disco "Com uma Viagem na Palma da Mão" é um bocado fruto disso e se calhar até o "Até Já", que é um disco de 77.
É o segundo.
É o segundo LP dele. Aliás, o próprio título diz "Até Já". Quer dizer, é uma forma de ele estar na música. Mas isso era brilhante, porque ele trazia alguma coisa de novo, nomeadamente na questão melódica e na palavra.
As duas componentes de Jorge Palma. António Manuel Ribeiro, muito obrigada.
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