Por que a Vale ficou fora das apostas pós-eleição do UBS, mesmo com o dólar em alta
A disparada do dólar após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a colocar as exportadoras de commodities no radar dos investidores. Com o real a uma referência de R$ 5,50 por dólar, o UBS BB enxerga oportunidades em empresas, mas há uma ausência importante entre as principais apostas do banco: a Vale.
Em relatório na segunda-feira, 26, o UBS BB manteve Petrobras (PETR3; PETR4), Prio (PRIO3) e Gerdau (GGBR4) como suas ações preferidas no setor de commodities. A Suzano (SUZB3) aparece como alternativa para investidores que buscam maior exposição à alta do dólar.
A Vale (VALE3), por sua vez, permanece sob uma avaliação cautelosa. Embora a mineradora também se beneficie do câmbio mais elevado, os analistas consideram que as perspectivas para o minério de ferro e os riscos operacionais reduzem a atratividade da companhia.
A diferença aparece nas projeções de geração de caixa, porque, mesmo considerando, por exemplo, o dólar a R$ 5,50 e um preço de minério de ferro de US$ 95 por tonelada, o UBS BB estima para a Vale um rendimento de fluxo de caixa livre recorrente de 7% em 2027.
O indicador fica abaixo dos 22,8% projetados para a Prio, dos 16,4% da Petrobras e de cerca de 14% da Gerdau.
O que os números mostram sobre a estratégia do UBS BB
| Empresa | Impacto no Ebitda com desvalorização de 10% do real | Rendimento de fluxo de caixa livre com um dólar a R$ 5,50 |
|---|---|---|
| PRIO | +0,6% | 22,8% |
| Petrobras | +0,9% | 16,4% |
| Gerdau | +13,1% | 14,1% |
| Suzano | +16,1% | 12,5% |
| Vale | +4% | 7% |
| Fonte: UBS BB, relatório Brazil Commodities Strategy, de 26 de outubro de 2026. Projeções para 2027. Ebitda em dólares para Vale, Petrobras e Prio e em reais para Gerdau e Suzano. Fluxo de caixa livre recorrente para Vale e excluindo derivativos para Suzano. | ||
O rendimento de fluxo de caixa livre mede a geração de caixa estimada de uma empresa em relação ao seu valor de mercado. Quanto maior o percentual, maior a geração de caixa proporcional ao valor da companhia, embora isso não signifique necessariamente um retorno direto ao acionista.
E o que o UBS BB indica para o investidor, em um ambiente de incerteza política e volatilidade cambial, é que não basta ter receitas ligadas ao dólar. É preciso combinar essa exposição com fundamentos operacionais sólidos e capacidade de geração de caixa.
Vale (VALE3): por que nem o dólar a R$ 5,50 anima o UBS BB?
A explicação do UBS BB está na combinação entre câmbio, preços das commodities e desempenho operacional, já que a desvalorização do real favorece a Vale ao reduzir, em dólares, o peso de parte de seus custos, desembolsos e investimentos.
Pelas estimativas dos analistas, uma alta de 10% do dólar em relação ao real teria impacto positivo de, aproximadamente, 4% sobre o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, em inglês) da mineradora, medido em moeda americana.
No entanto, o benefício não elimina as preocupações com o negócio, e o banco vê que as condições da Vale se deterioraram ao longo do último mês, impedindo uma mudança para uma visão mais otimista sobre a companhia, mesmo depois do desempenho inferior das ações.
Os três riscos que podem pressionar os resultados da Vale
Entre os principais pontos de atenção estão as perspectivas de preços do minério de ferro, custos e volumes de produção. Para o UBS BB, ainda existe risco significativo de que os resultados fiquem abaixo das estimativas atualmente consideradas pelo mercado nessas frentes.
A principal exceção apontada no relatório é a divisão de metais básicos da Vale, porém a sensibilidade das projeções ao minério reforça a cautela.
Com o câmbio a uma referência de R$ 5,50, o rendimento de fluxo de caixa livre recorrente da mineradora seria de 5,3% caso o minério de ferro ficasse em US$ 90 por tonelada em 2027.
A US$ 95, subiria para 7%. Mesmo com a commodity a US$ 100, o indicador alcançaria 8,7%, ou seja, o dólar mais alto ajuda a Vale, mas o banco considera que esse ganho não compensa, por si só, os riscos ligados à sua principal commodity e à operação.
Petrobras: por que há oportunidade após queda de até 12%?
Por outro lado, o UBS BB encontra uma combinação mais favorável em outras empresas do setor. Na Petrobras, a queda de 10% a 12% das ações observada durante a elaboração do relatório é interpretada como oportunidade de compra. Em dólares, a desvalorização dos papéis chegava a 18% a 20%.
A avaliação do banco é que a eleição não deve provocar mudanças relevantes nas operações da estatal. Os analistas projetam produção entre 2,8 milhões e 2,9 milhões de barris por dia em 2027 e não esperam alteração na política de preços dos combustíveis.
Com o dólar a R$ 5,50, por exemplo, o UBS BB estima um rendimento de fluxo de caixa livre de 16,4% e um retorno em dividendos (dividend yield) superior a 12%.
Mas o banco acompanha com cautela a alocação de capital e possíveis investimentos e projetos envolvendo Braskem, México, Bolívia e África, que poderiam comprometer as estimativas de distribuição de dividendos.
Prio (PRIO3): dividendos podem superar 30% até 2027
A Prio também se destaca pela baixa exposição ao ambiente macroeconômico brasileiro. Para os analistas, a companhia deve preservar seu perfil de produção e sua capacidade de geração de caixa, mesmo diante da volatilidade doméstica.
Para a Prio, o UBS BB estima potencial de distribuição de dividendos superior a 30% no período que abrange o fim de 2026 e 2027, em seu cenário-base. O rendimento de fluxo de caixa livre estimado para 2027 chega a 22,8%.
Gerdau (GGBR4): como os EUA e o dólar alto favorecem
Já a Gerdau é vista pelo UBS BB como uma empresa cada vez mais ligada à economia americana do que à brasileira. Os Estados Unidos já representam aproximadamente 75% do Ebitda do grupo. E os analistas também esperam que as margens Ebitda da operação americana se aproximem de 30% nos próximos um a dois trimestres.
A demanda por vigas de aço e barras de qualidade comercial cresceu entre 7% e 8% no acumulado de 2026, segundo o banco.
Além da exposição internacional, a companhia apresenta sensibilidade significativa ao dólar, e uma desvalorização de 10% do real teria efeito positivo de cerca de 13% sobre seu Ebitda, de acordo com as projeções do banco.
Suzano: dólar alto pode elevar Ebitda em 16%, mas há um risco
Enquanto a Suzano, produtora de celulose, apresenta a maior alavancagem operacional ao câmbio entre as empresas de commodities analisadas. Para cada 10% de desvalorização do real, o UBS BB estima aumento de aproximadamente 16% no Ebitda da Suzano.
Com o parâmetro do dólar a R$ 5,50 e da celulose a US$ 575 por tonelada, o rendimento de fluxo de caixa livre estimado para 2027 é de 12,5%, desconsiderando derivativos, mas o banco faz uma ressalva de que os fundamentos do mercado de celulose são considerados mais frágeis do que os de petróleo e aço.
O excesso de capacidade produtiva na China pressiona estruturalmente os preços, enquanto os analistas demonstram preocupação com a continuidade dos reajustes da commodity em novembro e dezembro.
Assim, apesar da maior sensibilidade ao câmbio, a Suzano aparece como alternativa, e não como integrante do grupo principal de preferências.
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