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Thursday, October 15, 2026

"O cessar-fogo só existia na cabeça de Donald Trump"

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Gabinete de Guerra esta manhã com análise de Bruno Cardoso Reis. Muito bem-vindo e bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Começamos com os conflitos no Médio Oriente. Tendo em conta os ataques contra a Arábia Saudita por parte dos houthis e a incapacidade do país em travá-los, Bruno, achas que os Estados Unidos, Paquistão, Turquia ou países europeus vão acabar por intervir?

Realmente é uma situação extraordinária, tendo em conta a enorme assimetria de poder entre a Arábia Saudita e os houthis, que nem sequer são um Estado internacionalmente reconhecido, sendo que no caso da Arábia Saudita estamos a falar do Estado do Médio Oriente que de longe mais gasta em defesa, que tem os equipamentos mais avançados. Agora realmente tem este problema, que é por exemplo semelhante ao da Ucrânia, que é a Arábia Saudita é um país muito grande e portanto isso cria um problema, que é um problema também clássico neste tipo de conflitos assimétricos, que é os sistemas de defesa aérea, por exemplo, sauditas têm de cobrir imensas instalações dispersas nesse território e têm que ter 100% de sucesso, enquanto que os houthis basta acertarem uma vez ou duas aqui ou acolá para depois causarem logo um imenso impacto. Agora, realmente o que é também extraordinário é que estamos a assistir a ataques a instalações civis na Arábia Saudita, aeroportos, instalações civis extremamente importantes para a economia global, como por exemplo a sede da Aramco, da companhia petrolífera saudita e outras instalações petrolíferas. Realmente o grande aliado histórico da Arábia Saudita, os Estados Unidos, aparentemente estão a pensar se vão fazer alguma coisa ou não, a acreditar nas palavras de Donald Trump. E portanto, isso levanta realmente a questão de saber se haverá aqui a ação da parte de outros aliados sauditas. A Arábia Saudita assinou há poucos meses o chamado Pacto de Meca com o Paquistão e com a Turquia, mas também daí basicamente o que temos visto parecem ser, sobretudo, declarações muito robustas de solidariedade. Apesar de tudo, é um pouco mais do que o lado dos Estados Unidos, mas em termos práticos, nada também que se veja e sobretudo tenha grande eficácia no terreno. Curiosamente, também o que estamos a ver é que os países europeus, que são muitas vezes acusados de não terem nenhuma capacidade militar significativa, realmente também estão a receber apelos e aparentemente estão a dar alguma resposta, pelo menos no caso da França e da Grã-Bretanha. Nomeadamente o presidente francês anunciou que haveria a deslocação de algum tipo de meios franceses, pelo menos para a zona do porto de Jeddah. Tanto quanto se percebeu, seria provavelmente algum tipo de capacidades antiaéreas. Mas o que vemos realmente são respostas relativamente limitadas e mais retóricas do que práticas. Também é importante dizer que a própria Arábia Saudita também está a limitar a forma como responde aos houthis, ou seja, para já não vimos qualquer tipo de ação militar terrestre, ou seja, tropas no terreno. Isso provavelmente também reflete o facto de os sauditas não estarem nada confiantes que isso teria resultados decisivos ou positivos, porque, sobretudo na zona onde fica o núcleo de apoio dos houthis, esta zona do norte do Iémen, muito montanhoso, realmente é uma zona ideal para ações de guerrilha em que os houthis têm muita experiência e, portanto, provavelmente os sauditas têm receio de que um envolvimento terrestre não fosse muito bem sucedido ou pelo menos poderia ter custos bastante elevados para as tropas sauditas.

Estamos agora com alguma limitação de tempo. Vamos para outro tema, também a marcar a atualidade internacional. A SpaceX implementou novas limitações na utilização da rede Starlink no território ucraniano, afeta diretamente a capacidade operacional de missões de drones do exército ucraniano. Em contrapartida, a União Europeia aprovou e desembolsou novos pacotes de apoio financeiro e militar destinados à aquisição de equipamento defensivo. O que se passa, Bruno, entre Trump, Ucrânia e a Europa?

O que se passa é que se confirmam os piores receios em relação a Donald Trump, ou seja, esta tendência para sempre que há problemas, culpar os aliados tradicionais dos Estados Unidos e procurar chegar a um acordo quase a qualquer preço com os seus inimigos ou rivais tradicionais, os regimes autoritários, ditatoriais, como o da Rússia de Putin, ignorando completamente, em muitos casos também os interesses dos seus aliados ou indo contra eles. E portanto, aqui, tanto quanto nós percebemos, realmente a responsabilidade é do Estado americano e isso foi até resultado de uma controvérsia logo no início do conflito. Portanto, o Elon Musk aí tem alguma razão quando diz que há um sistema distinto para usos militares e para usos civis, e que esse sistema para usos militares é realmente, em última análise, controlado pelo governo norte-americano e, portanto, pelo presidente norte-americano. Agora, as implicações para a Ucrânia são realmente terríveis, quer em termos de capacidade de aviso à população para se abrigar, de resposta a estes ataques. E a Europa tem respostas limitadas, portanto, isto só acentua, no fundo, a necessidade da Europa investir mais em defesa e ter mais autonomia estratégica nestes sistemas, em que em muitos casos está dependente realmente da aliança com os Estados Unidos. Isso historicamente não foi um problema, mas aparentemente agora cada vez mais pode ser.

E agora, Bruno, assim, num minuto, as dificuldades na trégua energética continuam. Como estão as relações na tríade Zelensky, Trump e Putin e o tal cessar-fogo energético?

O cessar-fogo energético basicamente confirma-se que foi algo que aparentemente só existiu na cabeça de Donald Trump e que temos este problema também importante, que é o líder de uma potência tão central na ordem internacional como os Estados Unidos, realmente tem muito pouca credibilidade. Ou seja, Zelensky veio dizer que não sabia de nada, mas que até estaria disponível a fazer isso, ou seja, deixar de atacar refinarias e infraestrutura energética russa, desde que os russos deixassem de atacar pelo menos essas instalações, instalações ligadas à produção de energia, ao fornecimento de energia na Ucrânia. E a resposta da Rússia foi dizer que não aceitava cessar-fogo parcial nenhum e, portanto, só queria a tal paz duradoura, o que traduzido por miúdos quer dizer uma espécie de rendição incondicional da Ucrânia.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela análise. Mais um Gabinete de Guerra. Muito bom dia e até amanhã.

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