Eleição, poder e STF: como a crise na Corte mexe com a opinião pública
A crise mais grave enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em sua história recente ainda não alterou de forma relevante a intenção de voto dos brasileiros, mas deu continuidade a uma percepção crítica sobre o papel da Corte: a maioria da população considera que os ministros têm poder excessivo.
Segundo pesquisa Datafolha encomendada pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, 76% dos entrevistados afirmam que os ministros do STF têm poder demais. Ao mesmo tempo, 71% dizem que o tribunal é essencial para a democracia, revelando uma avaliação ambígua sobre a instituição.
O levantamento ouviu 2.002 eleitores em 125 cidades entre terça-feira, 8, e quinta-feira, 10, com margem de erro de dois pontos percentuais. A pesquisa foi realizada em meio à crise envolvendo ministros do STF, investigações da Polícia Federal sobre o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e uma disputa interna na Corte.
Apesar da turbulência, a intenção de voto para presidente permaneceu praticamente estável. As acusações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes não alteraram a escolha de 85% dos eleitores, enquanto as relacionadas ao ministro André Mendonça não mudaram a decisão de 86% dos entrevistados.
A crise no STF ganhou força após a divulgação de documentos e mensagens relacionados às investigações sobre o Banco Master. O caso envolve o banqueiro Daniel Vorcaro, preso durante a investigação que apura suspeitas de fraudes bilionárias.
Parte dos documentos analisados pela Polícia Federal apontou possíveis conexões entre Vorcaro e integrantes do Supremo, incluindo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
No caso de Moraes, a PF identificou mensagens e contatos entre o ministro e o banqueiro. Também veio a público um contrato de consultoria estratégica entre o escritório de advocacia da esposa de Moraes e o Banco Master.
Moraes negou irregularidades e afirmou que as acusações distorcem os fatos, rejeitando a existência de atuação para beneficiar Vorcaro.
No caso de Toffoli, relatórios da PF levantaram suspeitas relacionadas a um fundo de investimento no Caribe ligado a recursos associados a Vorcaro e a um empreendimento turístico em que a família do ministro possui participação.
Toffoli negou recebimento de valores, rejeitou ter relação de amizade íntima com o banqueiro e afirmou que sua participação em um evento financiado por Vorcaro ocorreu a convite de Moraes.
Embora a crise não tenha provocado uma mudança significativa na intenção de voto, a percepção sobre o funcionamento da Corte mudou o foco do debate público.
Para 77% dos entrevistados, a população brasileira confia menos no STF hoje do que no passado. A avaliação sobre o excesso de poder dos ministros aparece de forma diferente entre grupos políticos. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro (PL), 85% afirmam que o STF tem poder demais. Entre eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), esse percentual cai para 67%.
A diferença também aparece quando os entrevistados avaliam o papel democrático da Corte. Entre eleitores de Flávio, 63% consideram que o STF defende a democracia. Entre os eleitores de Lula, o índice chega a 81%.
Crise chegou ao ambiente político
O caso também passou a fazer parte da disputa eleitoral. Flávio Bolsonaro passou a associar Lula ao ministro Alexandre de Moraes, enquanto aliados do governo passaram a criticar decisões e movimentos relacionados ao ministro André Mendonça.
O embate ganhou força após Mendonça liberar documentos sigilosos do caso Banco Master aos quais Moraes havia tido acesso.
Moraes questionou a legalidade dos atos e apontou possível direcionamento político. A resposta veio com uma decisão de Mendonça determinando o afastamento do diretor-geral e do chefe de inteligência da Polícia Federal.
O presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as medidas e marcou uma sessão para discutir a conduta de Moraes. A tentativa de conter o conflito, porém, não encerrou a disputa.
Posteriormente, após críticas sobre a divulgação seletiva de informações, documentos do caso foram liberados integralmente.
A pesquisa indica que o episódio chegou a uma parcela significativa da população. Cerca de 66% dos entrevistados afirmam conhecer o caso envolvendo Moraes. Entre esses, 26% dizem estar bem informados.
O nível de conhecimento é maior entre eleitores de Flávio Bolsonaro: 75% afirmam conhecer o episódio, contra 61% entre eleitores de Lula.
No impacto sobre voto, porém, a mudança foi limitada. Entre os eleitores de Lula, 8% disseram ter ficado em dúvida sobre sua escolha por causa do caso, enquanto entre apoiadores de Flávio o índice foi de 5%.
Em relação às suspeitas envolvendo André Mendonça, o conhecimento é menor. 45% afirmam conhecer o teor das acusações, sendo que 22% desse grupo se considera bem informado.
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