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Wednesday, October 21, 2026

Medicamentos. Investigadores propõem "ouvir" crianças

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Uma equipa de investigadores de várias faculdades do país que se dedica ao estudo da farmacovigilância concluiu que a aplicação de questionários para saber como as crianças e adolescentes se sentem durante um tratamento pode melhorar a segurança dos medicamentos.

Em declarações à agência Lusa, Renato Ferreira da Silva, investigador na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), destacou as vantagens da monitorização ativa em contextos de maior risco, exemplificando com casos em que os doentes estão a fazer quimioterapia, terapêuticas imunossupressoras, ou um medicamento que ainda não tem uma indicação terapêutica aprovada para aquela doença, mas é aplicado quando os médicos arriscam por parecer ser a melhor solução, bem como medicamentos com toxicidade muito grave, entre outros exemplos.

“A farmacovigilância pediátrica poderia beneficiar de abordagens mais estruturadas e mais centradas na experiência das crianças e dos seus utilizadores. O que nós propomos neste trabalho é a utilização de instrumentos de reporte pelo doente ou pelos seus cuidadores, como é o caso dos PROM [em português livre ‘Resultados Reportados pelos Pacientes’] que possam complementar os sistemas tradicionais de notificação espontânea”, disse Renato Ferreira da Silva.

Admitindo que no caso concreto da farmacovigilância, a notificação de reações adversas a crianças ainda é particularmente reduzida, o investigador da FMUP e primeiro autor de um artigo publicado em fevereiro na revista científica Frontiers in Pharmacology, reforçou que saber mais sobre os sintomas pode impactar na avaliação da qualidade de vida.

Ou seja, em causa está um reporte que permite caracterizar melhor a frequência, a gravidade e o impacto funcional dos sintomas em atividades quotidianas, como comer, dormir, ir à escola ou brincar, fornecendo informação adicional para a clínica e para a avaliação da segurança dos medicamentos.

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“O foco principal, no contexto da farmacovigilância, deve ser a recolha estruturada de sintomas e suspeitas de reações adversas associadas à utilização de medicamentos. O valor dos PROM está no facto de o mesmo instrumento poder ser aplicado em diferentes momentos da jornada do doente, avaliando sempre as mesmas dimensões de forma padronizada”, referiu.

A equipa, que integra investigadores do Porto, Coimbra e Lisboa, considera que a aplicação destes questionários pode ser particularmente útil em contextos de alteração terapêutica como ajuste de dose, suspensão ou reintrodução de medicamentos porque “permite perceber se os sintomas surgem, agravam, melhoram ou desaparecem ao longo do seguimento e, com base nisso, também tomar decisões terapêuticas”.

Além de Renato Ferreira da Silva, da FMUP, da Unidade de Farmacovigilância do Porto e da RISE-Health, participaram neste estudo Inês Ribeiro, das mesmas entidades, Pedro Teodoro, da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, e Ricardo Fernandes, da Faculdade de Medicina de Lisboa.

Os questionários estruturados e validados podem ser respondidos pela própria criança, quando tem idade e capacidade para o fazer, ou pelos cuidadores e familiares, quando a criança ainda não consegue responder diretamente.

Outra vantagem destes questionários é “transformar experiências subjetivas, muitas vezes difíceis de captar numa consulta, em informação mais organizada, comparável e útil para acompanhar a segurança dos medicamentos ao longo do tempo”.

“Naturalmente, isto exige recursos, formação e novos fluxos de trabalho. Os sistemas atuais continuam muito tradicionais e passivos, mas este é precisamente o caminho que queremos ajudar a desenvolver”, defendeu Renato Ferreira da Silva.

À Lusa, o investigador e professor da FMUP avançou que existem já projetos, como o VIGIA, que procuram responder a algumas destas limitações, explorando novas formas de recolha, integração e análise de informação de segurança em contexto real.

Financiado em mais de 1,4 milhões de euros pelo Portugal 2030, o VIGIA é um Sistema de Vigilância de Medicamentos e Dispositivos Médicos com Inteligência Artificial desenvolvido por um consórcio de organizações, no qual a FMUP se inclui, que pretende transformar a forma como se monitoriza a segurança dos medicamentos e os dispositivos médicos no país.

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