Era só o que nos faltava ter ministros a darem-nos ralhetes

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Começa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador. Fala Miguel Pinheiro. Bom dia.
Bom dia.
Olá, Miguel. Quem é o teu bom de hoje?
O bom de hoje é César Mourão, o humorista que está a organizar o festival de comédia que vai trazer Seinfeld a Portugal. Como se sabe, houve um fim de semana há pouco tempo em que, meses depois de terem anunciado que iriam participar no festival, vários artistas começaram a vir dizer que iam cancelar tudo por causa das posições de Seinfeld de apoio a Israel depois dos ataques de 7 de outubro e a dada altura chegou a admitir-se a hipótese de o festival nem sequer existir. Mas ontem a organização garantiu que tudo se mantém e que em breve serão conhecidos novos nomes que substituirão os que saíram. Obviamente, um dos objetivos daquelas desistências coletivas era criar um clima político de pressão sobre todos os artistas que ainda estão no cartaz ou que se pudessem juntar a ele. E felizmente, pelos vistos, isso falhou. Por isso ficamos apenas com as decisões individuais de sair. Está tudo bem. Claro, e de sair meses depois de terem acordado integrar um cartaz onde já estava o Seinfeld. Certo, mas são pessoas que se interessam tanto pelo conflito Israel ou palestiniano e que se interessam tanto por comédia, mas que são tão pouco informadas sobre o assunto que olha, depois dá nisto. Não sabiam.
Miguel, o teu mau é a Ministra da Saúde?
Sim, num artigo que escreveu ontem no Jornal de Notícias, Ana Paula Martins escreve sobre as maravilhas desta sua passagem pelo poder e entretém-se a criticar a reforma de 2022, inspirada pelo primeiro diretor executivo do SNS, Fernando Araújo. E escreveu, por exemplo, isto: "Para o governo, o doente está no centro da reforma e isso significa ter os cuidados de saúde primários como prioridade. Na reforma de 2022 a março de 2024, na grande pré-campanha eleitoral, a preocupação de alguns seria outra." Ora, como é evidente, há muito a criticar naquilo que os governos do PS fizeram na saúde e em especial no SNS. Há muito a criticar e até o bom era criticar isso na altura. Na altura em que aquilo estava a acontecer. Mas agora nós estamos em setembro de 2026 e eu suspeito que pode ser ligeiramente irritante para as pessoas continuarem a ouvir a ministra a queixar-se de quem esteve antes. Ana Paula Martins já teve muito tempo para mudar as coisas e seria talvez mais útil dirigir as energias para o que se passa agora e não para o que se passou em 2022, diria eu, talvez. Ainda por cima com estes conceitos que espremidos não querem dizer nada, colocar o doente no centro. Pois, pelos vistos não tem servido de muito tê-lo colocado no centro. Paulo, atenção, eu aqui tenho uma ligeira discordância contigo, porque eu acho que há sempre lugar para a poesia. Claro. E por isso acho que nunca se perde. Os poetas ao poder. Isso, nem mais. É isso.
Miguel, o teu vilão acha que somos umas crianças?
Parece que sim. O vilão é a Ministra da Energia. Ontem, Maria da Graça Carvalho estava muito surpreendida ao falar com os jornalistas, porque, segundo a ministra: "Então não é que vocês querem-me cá ver que apesar da escalada dos preços provocada pela crise do Medio Oriente, os portugueses, esses irresponsáveis, essa gente que anda por aí, os portugueses estão a gastar mais gasóleo e mais gasolina." E então, como se tivesse o dedinho esticado a dar um sermão a crianças, a ministra disse que é importante ter esta noção de que há também uma gestão pessoal de cada empresa e de cada instituição no poupar energia em geral e poupar combustível em particular. Isto disse-nos a ministra. E aconselhou-nos a todos a usarmos mais transportes públicos. "Meninos e meninas, usem mais transportes públicos em vez de andarem aí nestes vossos bólides a gastar energia." Umas horas depois, Maria da Graça Carvalho veio dizer que afinal, ó diabo, afinal, se calhar os portugueses já estão a poupar, porque parece que as declarações da ministra tinham sido feitas com base em números oficiais que vão apenas até junho, porque isto no Estado também é devagar, devagarinho, deve ser para poupar dinheiro em combustível. E os números de julho e de agosto já mostram, obviamente, que os portugueses começaram a poupar, como seria inevitável, porque as pessoas não são tontas e não são ricas. Eu sei que há quem ache que isto é só ricos por todo lado, mas parece que não. Parece-me a mim que desde que apareceu nas sondagens como uma das ministras mais populares do governo, Maria da Graça Carvalho, começou a falar em todo lado. Até suspeito, não sabendo de nada, mas já andando nisto há algum tempo, suspeito que alguém no governo deve ter pensado: "Esta ministra está aqui muito popular, vamos é pôr a ministra a falar sobre tudo." Mas como se percebe, tem falado demasiado, e além de termos de suportar a subida do custo de vida, que infelizmente é inevitável, era só o que nos faltava começarmos a ter ministros a darem-nos ralhetes, a dizerem-nos que não pode ser, temos que poupar. Quer dizer que temos que poupar, sabemos nós, não? Quer dizer, não passa pela cabeça da ministra que os portugueses sabem que têm de poupar e que, portanto, procurarão a melhor forma de poupar, tendo em conta a sua vida? Se calhar, não precisamos de ninguém que nos diga isto. Acho eu, mas se calhar sou eu que estou hoje mal disposto. É pôr o automobilista no centro da questão e a coisa fica resolvida. Poeta Paulo Ferreira.
Vamos ao resumo. O bom é César Mourão. O mau desta terça-feira é a Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e o vilão é a Ministra da Energia, Maria da Graça Carvalho. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 que também pode ouvir em podcast.
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