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Wednesday, October 21, 2026

Primata peçonhento volta a ser registrado cientificamente após quase um século

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O lóris-lento-de-Bangka, um primata peçonhento, voltou a ser registrado cientificamente após quase um século. Em um artigo publicado neste mês, pesquisadores afirmam que uma organização de resgate de animais encontrou mais de 90 espécimes nos últimos anos na ilha de Bangka, na Indonésia. A maioria deles foi devolvida à natureza.

Em 2020, a União Internacional para a Conservação da Natureza classificou a espécie como criticamente ameaçada e possivelmente extinta. O grupo de conservação Re:wild também a incluiu entre os "primatas perdidos".

"O lóris-lento-de-Bangka ainda está vivo", afirmou Timon Glaw, estudante de pós-graduação em conservação da natureza e gestão da biodiversidade no zoológico Haus des Meeres Aqua Terra, em Viena (Áustria) e um dos autores do estudo que saiu na revista Spixiana.

Segundo Glaw, os animais resgatados são de diferentes partes de Bangka, o que demonstra que a espécie sobreviveu em várias áreas, apesar da ampla destruição de seu habitat e de décadas de negligência científica. A redução do habitat da espécie é atribuída à mineração de estanho e ao desmatamento para plantações de dendê.

"O que considero surpreendente é que um primata tão carismático e singular tenha recebido tão pouca atenção científica por quase um século", disse Glaw. "A redescoberta também traz esperança de que outras espécies consideradas extintas ainda possam sobreviver em lugares onde os cientistas não realizam buscas há décadas. Afinal, Bangka fica a apenas uma hora de voo de Jacarta, uma das maiores cidades do mundo."

O animal, cujo nome científico é Nycticebus bancanus, é um primata noturno relativamente pequeno, com pelagem castanho-avermelhada, marcas faciais características e olhos grandes. Ele se desloca lentamente pelas árvores, diferentemente de outros primatas arborícolas, como macacos e lêmures.

Na linhagem evolutiva dos primatas, o lóris-lento-de-Bangka é mais estreitamente relacionado aos lêmures de Madagascar e aos gálagos da África do que aos macacos ou grandes primatas.

"Os últimos registros científicos históricos de Bangka mencionados em nosso estudo remontam ao início da década de 1930, mais precisamente ao período entre 1930 e 1932. Durante décadas, não houve informações confiáveis sobre a sobrevivência da espécie na ilha", afirmou Glaw.

Assim como as demais espécies de lóris-lentos, a Nycticebus bancanus é peçonhenta —uma característica rara entre os mamíferos. Os lóris-lentos produzem uma secreção em glândulas especializadas próximas aos cotovelos. Quando ameaçados, erguem os braços e lambem essas glândulas, misturando a secreção à saliva, antes de inocular o veneno por meio de uma mordida.

"O veneno pode causar reações alérgicas graves em seres humanos, com risco até de morte. Pesquisas sobre outras espécies de lóris-lentos indicam que o veneno é usado principalmente em confrontos com outros lóris, embora também possa desempenhar funções de defesa contra predadores e parasitas", disse Glaw.

Sua dieta ainda não é bem conhecida. É provável que se baseie em insetos, gomas de árvores, néctar e outras partes de plantas, como as demais espécies de lóris-lentos, segundo Glaw.

Entre 2015 e 2025, a organização conservacionista indonésia Alobi Wildlife Rescue Center registrou mais de 90 lóris-lentos-de-Bangka provenientes de diferentes localidades da ilha, de acordo com Glaw.

Muitos foram resgatados em casas, jardins, plantações ou estradas, enquanto outros sofreram ferimentos graves, sobretudo em decorrência do contato com fios elétricos —alguns morreram apesar do tratamento, segundo Glaw. Após se recuperarem, 86 deles foram soltos em habitats naturais adequados, acrescentou Glaw.

"A prioridade mais urgente é proteger as florestas naturais remanescentes de Bangka contra uma destruição ainda maior, especialmente em decorrência da mineração de estanho e da expansão das plantações de dendezeiros. Também precisamos de levantamentos de campo sistemáticos para determinar onde a espécie ainda sobrevive e qual é o tamanho de suas populações", disse Glaw.

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